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Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
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Terça-feira, Maio 20, 2008 MergulhadorFaz tempo que não escrevo. Falta de tempo, excesso de coisas para contar e a rotina.
Sábado passado, dia 17, foi realizada a I Parada do Orgulho Louco. O Movimento de Luta Antimanicomial de Salvador realizou o evento para marcar os vinte anos de batalhas pelo direito à liberdade para as pessoas consideradas doentes mentais. Fomos Milena, Silvia, Gabriela, Gabriel e eu representando a AFAGA. Mariene estava na aula de Psicopedagogia. Distribuímos panfletos sobre autismo e acompanhamos a marcha, que seguiu do Porto da Barra até o Farol da Barra, beirando aquele marzão da Bahia. Claro que Gabriel ficou um pouco enfezado - queria mesmo ir para a praia. Mas, entendeu quando determinei que só iríamos cair quando chegássemos ao fim... Esperto, acelerou, quase correu até o farol e emendou a volta, na certeza de que tinha cumprido minha exigência. Insisti: -"Não! Nós vamos até lá com o pessoal da passeata!"
Gabriela e Silvia ficaram com o carro e ficamos, Gabriel e eu, nas areias da terceira praia mais bonita do mundo, segundo Gavin McOwan, do The Guardian. Peguei um banquinho e um guarda-sol e deixei Gabriel se esbaldar nas águas. Só que... Gabriel veio pedindo um sorvete: parou do lado de um carrinho da Nestlé e conwseguiu arrancar de mim um picolé "Galak". Depois, pediu: -"Pular!" Eu, abestalhado, concordei: -"Vai, vai pular!" Só que sua idéia não era pular nas ondas. No canto sul da praia fica o histórico Forte de Santa Maria, com um pontal de onde a meninada fica pulando no mar. Fiquei observando-o se dirigir pela areia na direção da construção - tive de correr para alcançá-lo. Os meninos - na maioria, menores do que ele - pulavam fazendo as piruetas que são presença obrigatória nos comerciais de turismo. Chegamos e Gabriel olhou para mim, apontando com a mão o lugar de onde a molecada voava. Perguntei:
-"Pular!!??" - ele concordou, ecolalicamente. -"Então, pula!" - Seu olhar, ansioso, espichou para a água. Os meninos acompanhavam a nossa conversa. Tentavam estimular: -"Pula em pé!" Resolvi ajudar. Como há duas escadas que vão da água até a ponte - dá uns dois metros e meio de altura -, mandei que descesse dois degraus e o ajudei a pular, segurando-lhe a mão. Da segunda vez, subiu um degrau; da terceira, já ousava pular do ponto mais alto. Um ferroviário aposentado de Juiz de Fora matava algumas horas de sua visita à irmã pescando umas "piabinhas" (como se no mar houvesse piabas...), com algumas crianças circulando à sua volta e apontando para os peixinhos que lambiam o anzol. Chegaram rapazes com a cara enfezada dos adolescentes que cresceram na rua, contando vantagens e caprichando nas acrobacias. Deixei meus óculos com um deles e também mergulhei. De certa forma, fizemos parte da turma, pelo menos naqueles momentos. Quando apontei para os garotos uma tartaruga que nadava sossegada entre nós e a praia, eles apenas comentaram que ela está sempre aí e que há uma ainda maior do outro lado. Ficamos por lá por bem mais de uma hora, até que telefonei de um orelhão para Gabriela nos "resgatar" - contra a vontade dele, mas com minha promessa de que, no dia seguinte, domingo, estaríamos de volta, com Mariene - e assim fizemos, embora estivesse chovendo. Para quem nasceu e cresceu em São Paulo, como eu, o frio de Salvador faz suar; só fiquei preocupado em encontrarmos o mar muito batido, mas o Porto da Barra é protegido e a água apenas subia e descia. Assim, Gabriel pôde mostrar seus dotes "mergulhísticos" para a mãe. A tartaruga do dia anterior continuava pondo a cabeça para fora, como se nos espiasse, e Mariene a apelidou de Maricota. Pois não é que Gabriel passou a perguntar: -"Cadê Maricota?" Mas o vento incomodava e ficava difícil subir de volta, por causa das ondas. Gabriel deu apenas uns cinco mergulhos e sossegou. Quando escureceu, voltamos pra casa com a promessa de novos passeios por aquelas bandas. postado por: Argemiro Garcia 20.5.08 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
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