Canto de Anjo |
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Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel
Domingo, Janeiro 27, 2008 Um jeito de jogar bolaGabriel tem quase quinze anos. A gente sente que quer se enturmar - ficar andando com os pais é chato para qualquer um. Daí que ele gosta de ficar perto de outros jovens e crianças - ele está no meio do caminho entre a infância e a adolescência.Nesse ponto, acho que valeu nossa estratégia de deixá-lo à vontade para descer até o PG (play ground). Sempre procuramos explicar a todos suas idiossincrasias - ou seja, o seu "jeito de ser". Passamos por situações desagradáveis, até carta do condomínio recebemos: um vizinho queria que fôssemos denunciados ao juizado da infância por deixá-lo andar pelo pátio, como as outras crianças faziam. Respondemos ao condomínio que pretendíamos entrar na Justiça por discriminação e a maré virou. Hoje, os vizinhos e funcionários entendem Gabriel, nos entendem e comemoram suas conquistas, mesmo que pequenas. Gostamos de onde moramos. Mesmo outros vizinhos com outras deficiências são enturmados. Bom, um grande desafio foi a quadra de futebol de salão. A meninada pequena joga de tarde; os jovens, de noite. Gabriel gosta de ficar andando pela "quadra vermelha", como a chama, durante os jogos. No começo dessa fase, o pessoal se preocupava e pedia que ele saísse. Como nessas horas, no meio de um jogo, Ninguém é muito sutil, os pedidos eram: -"Sai da quadra, Gabriel!" - para ele, se tivesse um "por favor" já ia ser desagradável; imagina sem. Houve pitis, aqueles momentos de irritação, de berreiro, de gritos. Nessas horas, a gente desce correndo. Se o elevador demora, vai de escada, mesmo. o último desses estresses foi durante o campeonato que um pai promoveu para a meninadinha de oito a onze anos - ele comprou medalhas, troféus e tudo. Os papaizões, sem saber como os filhos se relacionam com Gabriel, pediram que ele saísse da quadra e... tome berreiro! Naquele dia, em dezembro de 2007, precisamos trazê-lo de volta para casa e conversar muito. Depois de cerca de 40 minutos, eel já tinha se controlado e descemos com ele, que ficou feliz, andando junto ao limite da quadra (por dentro, claro!) - e todo mundo se entendeu. Fique claro que a gente, depois que entendeu sua lógica, passou a explicá-la a todos: -"Gabriel quer jogar! Ele tem quatorze anos e quer fazer parte da turma! Como não sabe jogar bola, não entende direito as regras, fica andando pelo meio da quadra, como vê todo mundo fazendo!" É que, sem compreensão não pode haver inclusão, não é? O fato é que, hoje, mesmo os jovens, que eram meninos quando nos mudamos para cá, não se importam com ele no jogo. Como disse Gabriela, é como se fosse alguém que não jogasse direito e não tocasse a bola. De vez em quando, um passa do seu lado e lhe faz um agrado nos cabelos. Da parte dele, incorporou belos palavrões no seu dia a dia: -"Que merda! Carái!" - e por aí vai! Nesta quinta-feira passada, dia 17, Gabriela, Pedro e eu descemos - íamos levá-la para casa. A rapaziada estava jogando. Gabriel fazia sua parte: andava de um lado para o outro, acompanhando a linha da quadra - uns dois metros dentro do jogo. Um casal de namorados comentou conosco que ele já tomara uma bolada. Daqui a pouco, dois jogadores disparam diputando a bola na direção de Gabriel, que corre da quadra e, depois, volta. Gabriela e eu comentamos com o goleiro mais próximo, Toni, que esse era o jeito de Gabriel participar do jogo. Sempre exagerado, ele comentou: -"É... eu só me preocupo com ele levar uma bolada fatal!" -"Como é, Toni?" -"É, que nem o Branco deu uma bolada na fronte daquele jogador e ele morreu!" -"Ah, Toni, mas o pessoal aqui não chuta assim forte!" -"O quê... O pessoal dá cada chute que a bola vai parar lá longe!" -"É, tá bom, Toni!" Realmente, Toni é bem exagerado. Na sexta-feira, Gabriel desceu de novo para a quadra. Daqui a pouco, veio me chamar: -Venha, pai! e pegou o elevador. Quando desci, lá estava ele, passeando pelo meio do jogo. Leonardo e Pedro conversavam com Bela e a garota que, no dia anterior, estava com o namorado. Daqui a pouco, uma bola veio alta e bateu na cabeça do Gabriel. Leo riu e Gabriel veio até nós, também rindo: -"Minha cabeça tá doeeeeeinnnndooo!!! Bom, não foi essa a bolada fatal. postado por: Argemiro Garcia 27.1.08 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Sexta-feira, Janeiro 25, 2008 ContrariedadePedro é cria da casa: faz duas faculdades - Geologia na UFBA e Química na UNEB -, participa do movimento estudantil, do DA da Geologia, vai aos encontros das duas áreas e tem uma banda. Tudo isso, e ele só agora completou dezoito anos! Puxou aos pais.Como a UNEB tem poucos dias de férias, Pedro tem aproveitado para pôr em dia os ensaios da banda. Foi assim que dia 21, segunda-feira, veio pedindo o carro emprestado para ir para um ensaio às dez da noite; comentou que poderia dar um jeito, mas queria que eu deixasse que um colega o dirigisse; não queria andar de madrugada com a guitarra a tiracolo. Acontece que o "Possante" pede uma revisão. Não achei seguro entregar um carro cheio de macetes para outra pessoa dirigir. Deixei-o no estúdio e ele ficou de se virar. Não sei bem como, mas Pedro voltou para casa com a guitarra e o seu amigo Luther à uma e meia da manhã. Era preciso ajeitá-lo em algum quarto. Claro que foi no de Pedro, que ele divide com Gabriel. A princípio, o pequeno não aceitou a idéia, mas acabou convencido - e foi dormir no sofá. Pela manhã, encontrei-o escarrapachado na sala, com Marquesa enrodilhada entre suas pernas e Pedro jogando videogame no micro - uma crise de rinite o acordara às cinco e ele perdera o sono. Bom, Gabriel despertou e correu para a cama da mãe. Luther pegou uma carona comigo e fui para o trabalho. Nesse dia, almocei por lá mesmo. No meio da tarde, Mariene ligou: Gabriel estava aos berros, descontrolara-se. Gritava: "Piscina, piscina!", mas quando lhe diziam que podia ir para a piscina, ficava agressivo. Ela pedia para eu voltar para casa o mais cedo possível, para ajudá-la, porque ela estava esgotada. Falei com minha gerente e saí. Quando cheguei, encontrei na porta do elevador Mariene com Gabriel - ele, com a cara inchada de tanto chorar e algumas cicatrizes pelo nariz, de tanto esfregá-lo. Troquei-me, desci para a piscina e fiquei até de noite brincando com ele. Um ou outro episódio de irritação ainda apareceu. Aproveitei para pôr em prática uma idéia que veio da revista Mente e Cérebro de dezembro de 2007. (Grewal & Salovey - Emoção. A outra inteligência. Mente e Cérebro, 179, p. 35.43. Dez 2007. Duetto.) A idéia é simples, e já a aplicávmaos antes: dar nome às emoções e mostrar a ele as conseqüências. Então, eu fiquei lhe falando: -"Você está nervoso, se não se acalmar, vai ficr agressivo, vai se machucar... Viu? Isso que você está sentindo é irritação..." Para concluir nossa história, Mariene percebeu o que tinha acontecido: Gabriel aceitou sair do quarto para Luther dormir. Isso não quer dizer que não ficou contrariado. A contrariedade acabou explodindo. Faltou eu dizer outra coisa: o micro que Gabriel usa está precisando reinstalar a placa de vídeo e ele não está podendo jogar o Coelho Sabido. Outro bom motivo para ficar irritado, não é? postado por: Argemiro Garcia 25.1.08 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quarta-feira, Janeiro 23, 2008 Colocando aparelho nos dentesComo comentei há uns meses, Gabriel vai usar aparelho ortodôntico. Ana Cláudia, nossa vizinha e sua ortodontista está preparando-o para a tortura - digo, o tratamento.Dia 11 passado, foi a segunda vez que foi colocae as Ci>borrachinhas. Cheguei em casa às cinco da tarde. Ele gritava, sentado no sofá: -"Uááááááááááárrhh! Piscina! Eu quero ir pra piscina!" São férias. Isso significa total e absoluta perda das suas rotinas. Ele tenta se ajustar, mas fica meio sem saber o que fazer. Tentamos convencê-lo "na boa", mas não deu. Apelamos: -"Chega! Um, dois, três! Vamos AGORA pra Ana Cláudia, que você vai botar as borrachinhas!" Deu um pulo e se pôs de pé - mas sem parar de gritar. Gritou no elevador, no carro, pela rua. Duas vezes tentou me segurar pela cabeça, enquanto eu dirigia - e uma vez começou a me puxar os cabelos. Como já sei que isso acontece, não me assusto. Mariene intervinha, me ajudando: -"Pára, Gabriel! A gente vai acabar sofrendo um acidente!" Na clínica, desceu do carro: -"UÁÁÁÁÁÁRHHHH! PISCIIIIINAAAA!!!" Sentou-se na cadeira e começou o ritual de acalmação. Cantou: -"O poder, faz a gente enlouquecer, faz a gente fazer coisas, pra depois se arrepender!" e continuou com os diálogos da Família Dinossauro: -"Vem aí a família mais divertida dos últimos sessenta milhões de anos!" Ana Cláudia, tranqüila, conversava com ele: -"Gabriel! a Andréa falou que você se comportou como um cavalheiro com ela! Você só fica bravo comigo?" - e, quando ele acabou de se acalmar, mandou: -"Abra a boca, eu vou colocar um anel no seu dente!" Abriu, ainda protestando um pouco. Ela precisou experimentar três anéis diferentes e acabou aproveitando para já colocar as borrachinhas no lado oposto. Haja paciência de Gabriel - e dela! Na hora de sair, Gabriel estava descompensado. Pedia para sair, mas não conseguia processar a permissão que lhe dávamos: -"Sair! Eu quero sair!" -"Pode sair!" e ele choramingava: -"Eu quero saiiiiiiir!" Ana Cláudia até pensou que ele estava brincando, mas só conseguiu sair da sala segurando-me pela ponta dos dedos! Explicamos a ela o que estava acontecendo, e as prováveis causas. Quando chegamos em casa, lhe pusemos uma sunga e ele desceu para a piscina do condomínio com a mãe. Eu? Que nada: -"Tchau! Fala tchaaaau, paaaaai!!!" Depois disso tudo, foram ainda uns três ou quatro dias de incômodo e estresse. Até melhoral ele tomava, justo ele que nunca gostou de comprimidos. Mas, com um slogan como: "Pra você ficar legal, melhor é..." -"MELHORAL!" que menino autista resiste? postado por: Argemiro Garcia 23.1.08 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quinta-feira, Janeiro 17, 2008 Conversas de elevadorGabriel, de férias, encafifou que a mãe tem que dormir com ele. Hoje pela manhã, quando ela acordou, ele também pulou da cama. Fui trabalhar acreditando que ela não conseguiria sair de casa. Quando cheguei para o almoço, contudo, Gabriel estava com Leonardo e Pedro e, risonho, me perguntou:-"Cadê mamãe?" - respondi: -"Mamãe foi pra Lavagem do Bonfim!" Pois é, Mariene foi à Lavagem do Bonfim: saiu de casa às oito da manhã e voltou às quatro da tarde e tudo correu bem; mesmo com Melina de férias, Gabriel passou o dia com os irmãos. Claro que uma casa deixada nas mãos de três adolescentes sofre um pouquinho, mas, afinal, marcamos ponto! Melhor ainda foi que, ao sair, Mariene encontrou Vânia, nossa vizinha, esposa do falecido ator Carlos Petrovitch. Vânia contou que, outro dia, ao tomar o elevador, deu de cara com Gabriel, que falou: -"Sobe!" Vânia respondeu: -"Eu vou subir, Gabriel!" E ele, então apertou o botão do sétimo andar onde ela mora - sem ela pedir! Cavalheiro, não? Aconteceu também de Mariene, há umas semanas, encontrar Agnésia, outra vizinha. Esta perguntou a ele onde Gabriela estava trabalhando e ele respondeu: -"Rádio Metrópole!" Ana Cláudia, a ortodentista que está preparando o aparelho de Gabriel, também mora em nosso prédio. Ela nos contou, em uma consulta, que o encontrou no elevador, outro dia, bem irritado. Pois conversou com ele, convencendo-o a ir para casa. postado por: Argemiro Garcia 17.1.08 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quarta-feira, Janeiro 16, 2008 Artista de cinemaDia 2 de janeiro Mariene e eu procurávamos ao que assistir na tevê aberta - não temos assinatura. Estacionamos no SBT Repórter, num especial sobre Gêngis Khan e emendamos com o SBT Realidade, em que Ana Paula Padrão desmanchava-se em elogios a Nova York: perdemos as vezes em que ela soltou o adjetivo "glamurosa". O programa era sobre as diversas formas com que o cinema - equivocadamente citado várias vezes como "Hollywood", como se filme nos EUA só se fizesse apenas na Califórnia - retratara a cidade.Pois Gabriel, ligado no que passava na televisão, começou a cantar Milla, do Netinho: -"...lá em Hollywood, pra de tudo rolar, vendo estrelas cair, vendo a noite passar..." Não satisfeito, pegou o rádio/CD player e lascou Lisbela e o Prisioneiro, na música tema com Los Hermanos: -"Eu quero a sina do artista de cinema, Eu quero a cena onde eu possa brilhar..." Ele vive no nosso mundo! postado por: Argemiro Garcia 16.1.08 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Terça-feira, Janeiro 08, 2008 Dormindo na escolaO fim de ano na Curumin é marcado por dois eventos: o passeio ao sítio de Tia Lúcia e a dormida na escola - com direito à visita de Papai Noel e um café da manhã comunitário.No ano anterior, 2006, Gabriel se recusou a participar. Escola, para ele, era lugar onde só se vai no horário certo. Freqüentar a escola fora do expediente era um idéia insuportável: gritava muito e se agredia sempre que tocávamos nesse assunto. Em anos anteriores, na Via Ponte, ele só aceitava participar de eventos extra-classe se o mandássemos pelo transporte escolar. Como seria este ano? Cheguei em casa depois do trabalho e ele estava num sorriso só. Banho tomado, os cabelos ainda molhados, mostrava-se bem animado com a idéia de ir para a escola. Tínhamos de enrolar um prato de brigadeiro. Mariene foi para o banho e eu lambuzei as mãos de manteiga e as pus na massa, literalmente. Gabriel sequer se interessou em atacar os docinhos que ficavam prontos. Certo, certo - não se interessou muito. Comeu alguns brigadeirinhos, que ninguém é de ferro. Fomos para a escola com mochila, travesseiro, colchonete e prato de brigadeiro. Enquanto estacionávamos o carro, ele disparou Curumin adentro. Quando conseguimos entrar, ele não estava à vista. Deixamos as coisas na sala de Fabiane e subimos para o auditório, onde ele pulava, feliz, no palco. Soubemos, depois, que ele entrou de mãos dadas com uma colega, que o apanhou bem no portão. Fabiane nos apresentou a outro aluno seu, este do período vespertino, que é tagarela, mas também tem seu jeitinho meio... ásperguer. Saímos logo, nem vimos a festa do Papai Noel. Esperávamos que Fabiane nos ligasse por qualquer problema. Ao contrário, no dia seguinte nos atrasamos por conta de um engarrafamento na Avenida Bonocô e o encontramos risonho, feliz. Na frente de colega da quarta série que chorava por sair da escola, Gabriel parava, encarando e vinha nos dizer: -"Cadê Ian?" - e, meio sem graça, respondíamos: -"Ian está chorando: Buáááááá...". Fabiane nos contou que os seus alunos - Gabriel e o outro garoto, o "meio ásperguer", bagunçaram até tarde. Ela pedia: -"Vamos dormir, gente!" e Gabriel respondia: -"Dormir! Rrrróóóóó, rrróóóóó..." - ao que, o colega ria: -"Ele é muito engraçado!" Voltamos para casa com a sensação de que, mais um pouquinho, Gabriel deu um passo para a frente. postado por: Argemiro Garcia 8.1.08 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
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