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Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
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Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Terça-feira, Outubro 30, 2007

Cirurgia

Nervoso, Gabriel batia a mão da auxiliar em sua própria testa
Deitado na maca, de camisolão, nem o anestésico o acalmava e ele batia a mão da auxiliar na própria testa
Há um tempo vínhamos analisando o que fazer com o dente de Gabriel que nascia fora de posição. Quando pequeno, seus dentes-de-leite ficaram muito cariados; precisamos tratá-lo com anestesia geral por duas vezes e um dente muito comprometido acabou no boticão. Agora, anos depois, era preciso dar um jeito: o dente permanente "queria" nascer e não tinha espaço.

Fizemos os exames, pensando em colocar-lhe um aparelho ortodôntico mas, no final, as dentistas Andréa e Ana Cláudia, nossa vizinha, decidiram ser melhor arrancá-lo e, depois, usar um aparelho mais simples, menos estressante.

Chegava o dia da extração. Mariene veio conversando com ele esses dias todos, explicando o que ia acontecer. Pela manhã do dia 24 de outubro, quarta-feira passada, o levaríamos ao hospital. O anestesista assim decidiu quando o levamos para o pré-anestésico: Gabriel zanzara pelos corredores, subira e descera escadas e elevadores, tirara café na máquina, feliz com o novo ambiente. Melhor deixá-lo dormir em casa. Para os exames de sangue, foi engraçado: o teste de coagulação seria feito no lóbulo da orelha; ele estranhou, fez careta; pedi que fosse no dedo, e a técnica argumentou que doía mais. Mesmo assim, insistimos e ele se comportou direitinho. Afinal, melhor ver o que está acontecendo, não é?

Enfim, dia 24. Foi dormir cedo. Mariene preferiu acordá-lo em cima da hora, com medo que quisesse comer ou beber algo. Terá sido esse nosso erro? O fato é que, na hora de tirá-lo da cama...

-"UÁÁÁÁÁÁÁÁÁRRRRHHHHH! Eu quero voltar pra cama! Eu quero voltar pra minha cama! CAMA!"

Pedro e eu tivemos de carregá-lo até o elevador. Para o carro, foi andando, aos gritos. Fernando, marido de Ana Cláudia comentou que ouvira o berreiro e comentara com a esposa que era Gabriel indo para o hospital. No caminho, Mariene precisou me ajudar, pois ele tentou me agarrar enquanto eu dirigia. Estava irritadíssimo!

Gabriel só foi relaxar já na porta do Centro Cirúrgico.
Na entrada do Centro Cirúrgico, Gabriel deitado na maca, com Mariene ao seu lado.
O show continuou no hospital; todo mundo olhava. Felizmente, só agredia a mim e, um pouco, a Mariene. Sem entender, achamos que ele ficara assustado com a expressão arrancar o dente.

Como o anjo da guarda de Gabriel é forte, a enfermeira da ala em que ficamos era Cíntia, outra vizinha nossa - que mal reconhecemos. Foi ela quem veio ao quarto tentar acalmá-lo e ministrar-lhe o xaropinho que o fez dormir.

Gabriel reagiu, lutou bastante contra o efeito do remédio mas, ao entrar o centro cirúrgico, já estava apagado. Cerca de duas horas depois, a Dra. Andréa vinha nos avisar que tudo transcorrera normalmente e que ele não tinha nenhuma cárie. Mais um tempo e Mariene saiu para comer algo. Encontrou Gabriel voltando na maca, novamente aos berros de:

-"Eu quero voltar pra cama! Eu quero voltar pra minha cama! CAMA! UÁÁÁÁÁÁÁÁÁRRRRHHHHH!" - acompanhado de um monte de enfermeiros.

Era pouco mais de onze horas. A alta estava assinada para as 14 horas, para que ficasse sob observação. Quando passava pouco mais de meio-dia e muitas cabeçadas e arranhões depois, tentamos pedir para antecipar a alta, mas só na segunda tentativa conseguimos que nos dessem ouvidos: argumentamos que seria melhor para sua saúde se ele fosse para casa se acalmar. No carro, Gabriel enfim se calou, indo para casa em silêncio. Como levamos cerca de vinte minutos, chegamos em um pré-estresse; ele já começava a pedir "cama, cama".

Em casa, ainda mostrou-se ansioso, sem saber como agir: ia para a cama, levantava, deitava-se no chão, no sofá, na poltrona. Carreguei-o, então, para a cama e Mariene se deitou com ele. Só aí tanta anestesia voltou a fazer efeito e ele dormiu até o fim da tarde.

Aparentemente, a quebra de sua rotina de passar uns vinte a trinta minutos por manhã para se levantar, mais a ansiedade do desconhecido o tiraram do equilíbrio. Hoje, seis dias depois, está bem, calmo e risonho, embora pirracento. É que, depois da cirurgia, veio uma gripe que o derrubou mais ainda, deixando-o de cama por mais dois dias. Mesmo assim, passou esses dias todos sem tomar praticamente nenhum analgésico!

postado por: Argemiro Garcia 30.10.07

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Domingo, Outubro 28, 2007

Remédios, outro passo

Gabriel detesta - ou melhor, detestava - tomar remédio por via oral. Já há muito tempo preferia tomar as medicações "na veia" - literalmente. Pois foi há cerca de um mês que ele saiu do quarto, veio para a sala e disse à mãe:

-"Tou com a cabeça doeeeinnnndoooo!"

-"Quer tomar remédio, Gabriel?"

-"Remédio!"

E, assim, chupou um comprimido de aspirina (para adultos).

De lá pra cá, tem tomado remédios sempre que a dor o incomoda acima de um certo limite.


postado por: Argemiro Garcia 28.10.07

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O dia em que fiquei pelado

Gabriel, comportado, deixa Bete cortar seu cabelo
Gabriel, sentado na cadeira, com Bete a cortar seu cabelo
Fazia mais de 27 anos que eu me tornara barbudo: mais da metade da vida, bem mais. Deixei de raspar a cara em janeiro de 1980, quando soube que Mariene estava grávida de Gabriela. Ao longo desse período, apenas duas vezes a tirei: foram dois embarques na plataforma da Pecten, que perfurava os poços do Campo de Merluza.

O tempo passou. Aprendi a apará-la e, depois, passei a barbear o pescoço, para onde ela teimava em avançar. De vez em quando, pensava em voltar ao rosto nu, mas sempre adiava a decisão. Até que...

Em julho, Rita, a irmã de Mariene, ao me rever em Osasco, para onde fomos participar do casamento de Caroline, soltou a pergunta:

-"Miro, porque você pinta o cabelo e não pinta a barba?"

Expliquei que não, não pintava o cabelo. Mas percebi que chegara a hora: se fosse um chimpanzé e morasse na Tanzânia, Jane Goodall me chamaria de Grey Beard.

Ainda adiei por umas semanas a execução mas, já de volta a Salvador, estava na hora de tosar a juba do leãozinho Gabriel. Fomos ao Salão Dom Quixote, onde Bete conseguiu cortar seus cabelos sem que ele gritasse. Quando chegou a minha vez, comentei que tinha vontade de fazer a barba. Parece que ela se divertiu com a idéia, pois acho que vi seus olhos brilharem e um sorriso maldoso (brincadeirinha!) Bom, a máquina de cortar cabelos agiu rápido em meu rosto, deixando-me com a barba bem curtinha.

Gabriel gostou, resolvendo a maior preocupação que eu tinha: será que ele estranharia o novo visual do pai? Pois veio até mim e, olhando-me o rosto, ficou a passar as mãos pelas minhas bochechas: gostou da mudança na minha cara. Passei a fazer a barba diariamente e ele, agora, de vez em quando volta a esfregar suas bochechas nas minhas, em especial quando fica nervoso porque o acordei para ir à escola.

postado por: Argemiro Garcia 28.10.07

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Segunda-feira, Outubro 22, 2007

A vida sempre surpreende

Associei-me ao Clube dos Empregados da Petrobras há apenas uns meses. Outro tempo levou até que fôssemos visitá-lo, no dia 12 de outubro, feriado. Gabriel gostou; conclusão, saímos de lá com seus pedidos:

-"Cadê Gabriel?"

-"Gabriel vai ao..."

-"Cluuuube!"

-"Amanhã!"


Dava um tempo e recomeçava:

-"Depois!"

-"Depois nós vamos para o..."

-"Cluuuube!"


Mas a vida tem surpresas. Fim de tarde, começo de noite, Gabriela ligou, pedindo ajuda: estava ficando toda empolada. Fomos buscá-la no trabalho, levando Polaramine, um anti-alérgico. Um inseto a tinha picado na orelha, pensávamos que fosse isso.

Sábado, dia 13. Gabriel acordou e veio chamar:

-"Cadê Gabriel?"

-"Gabriel vai ao..."

-"Cluuuube!"

-"Daqui a pouco!"


Enquanto nos aprontávamos, toca o telefone: Gabriela piorara, mesmo com a dose total de anti-alérgico. Ficamos preocupados, fui buscá-la. Ela decidiu ir ao Hospital Geral Roberto Santos, que tem o Centro de Atendimento a Vítimas de Envenenamento. Nessas horas, hospital público é mais preparado.

Ficamos, os dois, por doze horas de observação. Hipóteses foram levantadas, mas nada deu resultado. Aos poucos, as marcas do corpo melhoravam. Era quase meia-noite quando voltei para casa.

Gabriel passou o dia ansioso, mas se controlando. Deu umas cabeçadas na Melina, mas tudo sob controle. Falou várias vezes no clube. Mariene o chamou para ir à piscina do prédio, mas ele entendeu que iriam ao... cluuube! Ficou mai irritado. Mesmo assim, entendeu que a irmã precisava de ajuda e se manteve controlado. Quando escureceu, mudou o discurso:

-"Nós vamos ao..."

-"...clube!"
- Mariene respondia. E ele completava:

-"Amanhã!"

Dormiu agitado, Mariene precisou se deitar com ele. Acordou cedo:

-"Pai!"

-"Nós vamos pro..."

- "...clube!"
e abriu de novo o sorriso. Silvia foi conosco. Gabriel passou o resto da manhã e a tarde escorregando no toboágua pequeno. De noite, aceitou visitar a irmã, e se comportou como um gentleman, escarrapachado no sofá, comendo pizza. Bom, gentleman é exagero, mas agiu como um adolescente bem comportado.

Outra surpresa da vida: Gabriel avançou muito no auto-controle. Essa adolescência parece que será mais tranqüila do que prevíamos.

Gabriel e Mariene, na semana seguinte, escorregam no toboágua do CEPE. (Filme arquivado no youtube)

postado por: Argemiro Garcia 22.10.07

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Quinta-feira, Outubro 11, 2007

Lista de compras

Mariene e Gabriel, ontem, dia 10 de outubro, estavam em casa. Gabriel pediu:

-"Mãe! Aipim!"

Mariene recomendou:

-"O papai vai no Hiper hoje à noite. Escreve lá na lista de compras que está na porta da geladeira."

Ele não se apertou. Pegou uma caneta vermelha, foi até a porta da geladeira e lascou no papel:

"A I P I M"

(Para paulistas e mineiros, a explicação: aipim é a mandioca de comer cozida ou frita. Mandioca, mesmo, é igualzinha, mas tem altas doses de cianeto e só serve para fazer farinha, num processo que a depura do veneno.)

Quando cheguei, à noite, ela me contou a história e mandou ler a lista. Confesso que me esforcei, mas tive dificuldade:

-"A... I... aqui é outro I... Essa letra, não sei - e essa aqui, o que é?"

Ela me explicou, e reconheci a palavra. Nisso, chegou Gabriel, vindo do quarto. Mariene:

-"Gabriel, anota lá na lista para comprar ovos."

Mais uma vez, por cima do "aipim", saiu um "ovos" com um "S" meio tortinho.

Quando fui ao supermercado, não podia deixar o aipim de lado. Assim, Gabriel sabe que, escrevendo, consegue o que quer.

postado por: Argemiro Garcia 11.10.07

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