Canto de Anjo |
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Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
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Quinta-feira, Junho 28, 2007 Viajando - 2
No domingo à tarde, Gabriel se enfurnou no quarto conosco. Acho que precisava se ambientar com tantas mudanças. Esqueci de dizer que, quando saíamos para o almoço no CTG, O Dr. Walter passou por Gabriel no corredor e pego-o pela mãe: -"E aí, Gabriel!? Num lembra de mim? Eu sou o Walter! Gabriel estranhou, acho que nem viu quem era, tentando se soltar. Entrei na conversa: -"Gabriel, é o Doutor Walter!" Aí, sim! Gabriel se acalmou e soltou um... -"Tudo bem???" com um gesto de positivo com o dedão para cima. Walter riu.
Na manhã seguinte, mais uma vez sozinho, fui ao escritório de Rubens, para acertar uns problemas com as passagens de Leo e Pedro, pela internet. De volta ao hotel, dei de cara com Gabriel e Mariene na rua, curtindo um solzinho. Lembrei de quando ele era pequeno e explorava cada ambiente novo, caminhando em uma direção até a esquina, voltando e repetindo o movimento para o outro lado. -"Vamos entrar, Gabriel?" -"Nããããããããooooooo....." - nisso, passou um ônibus. Veio a idéia: -"Gabriel, vamos andar de ônibus?" -"SIM!" Demos o sinal e perguntamos quando tempo levaríamos para retornar ao mesmo lugar. O motorista não entendeu bem. Explicamos mais ou menos e ele explicou que, em mais ou menos quarenta minutos estaríamos de volta. Gabriel tentou seu diálogo clássico:
-"Odair!" -"Qual é seu nome?" -"Gabriel, o moço não pode conversar agora. Vê lá: 'Não fale com o motorista!'" Parece que ele se convenceu, porque desistiu de conversar. Rodamos Farroupilha, em particular os bairros populares, de casas de madeira. Passamos pelas fábricas, confecções... conseguimos ter um apanhado interessante da cidade. Paramos no ponto final e Gabriel tentou de novo: -"Qual é seu nome?" -"Odair!" Odair explicou-nos que ficava das onze às dezesseis sem ir ao sanitário - perguntamos, porque em Salvador o sindicato conseguiu que todo fim-de-linha tenha sanitário masculino e feminino. É a tal da redução de custos - enquanto em Salvador ainda temos cobradores, em Farroupilha o motorista também cobra as passagens. Quando voltamos à cidade, propus a Mariene que conhecesse o CNEC da cidade. Mariene, em Central, sua cidade natal, estudou em um colégio cenecista, e achei que ela gostaria de ver uma escola superior do mesmo sistema. Encontramos Rubens, Ana e a Dra. Margarida saindo do restaurante e ele acabou por nos levar para conhecermos o Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio. Aproveitei para pegar amostras de basalto para um colega - sabe como é, geólogo anda olhando para o chão. Rubens nos deixou no centro e saímos para uma volta. Curioso. Os três, em Salvador, não chamamos a atenção, com nossas caras de caboclo. Em Farroupilha, todos nos encaravam, tentando adivinhar quem eram os três índios.
Mesmo assim, entrei rapidamente para, ao menos, visitar as instalações. Trata-se de uma pequena escola rural feita por Brizola quando foi governador do rio Grande do Sul, uma brizolete, que foi adaptada para atender o público da AMAFA. Tem três salas para trabalho com o método TEACCH, em três níveis. O pessoal do nível 3 me cumprimentou e pergunntei-lhes se podia fotografá-los. Visitei rapidamente os outros dois níveis, e tive de sair, pois Gabriel estava em desespero. Expliquei rapidamente o que achava que era a causa do seu comportamento e me despedi do pessoal que, visivelmente, é muito dedicado a dar apoio aos autistas da região. Foi só entrarmos na estrada e Gabriel se acalmou. À noite, fomos a um restaurante próximo ao hotel e demos uma voltinha pelas frias e vazias ruas da cidade. Na manhã seguinte, pegávamos uma van para Porto Alegre. Gabriel viajou o tempo todo curtindo a paisagem pontuada de Araucarias. Quando eu lhe perguntava:
-"Rio Grande do Sul!" Chegamos ao Aeroporto Salgado Filho e Gabriel adorou: ficou circulando pelo térreo, enquanto eu o fotografava e filmava. A Dra. Margarida procurou um lugar para aguardar nosso vôo. Nina, uma amiga que morou conosco há mais de 25 anos, veio nos encontrar. Quando nosso vôo foi chamado, entramos para o salão de embarque, mas... o vôo ia atrasar uma hora. Achei de explicar a Gabriel que teríamos atraso - para quê: -"UÁÁÁÁÁÁÁÁÁRRRRHHH!" Quis voltar para o saguão principal e - pior - deitou-se em frente à escada rolante, bem diante do balcão da INFRAERO. As atendentes perguntaram se eu estava com algum problema. Expliquei e elas disseram que "tudo bem". Só que umma segurança do aeroporto não pensava assim: -"Posso ajudar?" -"Você sabe o que é autismo?" -"Sou segurança do aeroporto, tenho de saber." -"Ótimo. Meu filho é autista e ficou irritado quando soube que o vôo vai se atrasar." -"Mas ele não pode ficar aí." -"Se você conseguir tirar ele daí... Mas já aviso que não aceito que ele seja maltratado. Estou conversando com ele para levá-lo para outro lugar. Você deve saber quantas pessoas ditas 'normais' se tornam agressivas com os atrasos que estão havendo. Meu filho só deitou no chão. Eu vou tirá-lo, do jeito certo. Eu sei lidar com ele. Pode deixar." Mariene chegou. Aos poucos, convencemos Gabriel a tomar um suco e comer um salgadinho: desviamos sua atenção do atraso. Conversamos com as recepcionistas do balcão de informações da INFRAERO e uma delas contou que tem um primo autista. Sempre aparece algum! Quando deu a hora do nosso vôo, fomos para o embarque novamente: Ele viajou esplendorosamente. Eu é que derrubei refrigerante no meu colo. Dra. Margarida me deu um sorriso compreensivo, quando me viu passar com montes de papel-toalha, pensando que tivesse sido Gabriel o acidentado. Chegamos a São Paulo ao anoitecer e alugamos um novo carro. J[á tínhamos colocado os cintos-de-segurança quando Mariene se lembrou de perguntar: -"Miro, que carro é este?" - Gabriel nem pestanejou: -"Celta!" Olhei para o volante e era da Chevrolet. Tive de dar o braço a torcer: Gabriel tinha reparado no carro - coisa que eu nem pensara em fazer. Encaramos um trânsito pesado na Marginal do Pinheiros até chegarmos a Osasco - Gabriel foi observando a quantidade absurda de carros e caminhões sem reclamar. Lá pelas dez da noite, Mariene e eu ainda fomos buscar Leo e Pedro, que tinham viajado a Campinas para visitar amigos que estudam na UNICAMP - e não é que Gabriel preferiu ficar com as tias? Foram muitas emoções... postado por: Argemiro Garcia 28.6.07 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Sexta-feira, Junho 15, 2007 Viagens - Primeira etapaDia 1° passado viajamos para Osasco, pois Mariene e eu seríamos padrinhos de casamento de nossa sobrinha Caroline. Gabriel foi sendo preparado para as mudanças: há um tempo já vínhamos falando do assunto e Mariene pregou na parede do corredor um "calendário", folhas de papel com os dias anotados e o que aconteceria em cada dia, de forma que ele, marcando com um "X", udesse fazer a contagem regressiva para os acontecimentos. É que, além da ida a Osasco, iríamos a Farroupilha, para o Fórum de autismo da AMAFA. Achamos que seria bom se ele participasse da palestra que eu daria: pretendia fazer-lhe umas perguntas sobre a viagem, por exemplo.
Nosso vôo levava uma excursão de pessoal da Melhor Idade - um bando de velhinhos que, felizes, iam a Aparecida do Norte - muitos pela primeira vez. Gabriel, ansioso, foi umas vinte vezes ao sanitário! Alugamos um carro, pois saía mais barato que uma corrida de táxi! Tínhamos de ir a Osasco, passar a sexta-feira e, no sábado, nos aprontar, ir ao casamento, passar na festa, correr para o Aeroporto de Congonhas, devolver o carro, voar para Porto Alegre, pegar uma van até Farroupilha, dormir no hotel; domingo pela manhã, minha palestra abriria o terceiro e último dia do Fórum. Fácil para você? Imagine para um garoto autista! Gabriel curtiu a casa da Tia Rosilda, que não visitava há tempos. Encarapitou-se no terraço e não quis sair dali. Fui com Leo e Pedro, que tinham viajado na frente, buscar meu terno. Gabriela chegou no sábado à tarde, depois de horas presa no Aeroporto de Confins, em Minas, para uma conexão. Dava a hora de ir para a igreja: -"Gabriel, vamos para a igreja, para o casamento da Carol!" -"Ah, não!!!" Gabriela chegara quase pronta, foi só trocar de roupa - vantagem que ganhou no tempo em que desfilava. Mariene e sua irmã Rita tinham acabado de chegar da cabeleireira. Mandei:
- "E aí, Gabriel? Gostou do terno?" - "Gostou?" - "Quer comprar um terno? Sim ou não?" - "SIM!..." Corremos para a igreja. Gabriela, Leo e Pedro cuidaram do irmão, enquanto Mariene e eu disparávamos para o altar. Chegamos dois minutos antes da noiva! O pequeno se comportou superbem, pôs as mãos durante o Pai-Nosso e sentou-se pacientemente a maior parte da cerimônia. Fotos feitas na porta, toca para o bufet. Mariene e eu nos trocamos nos sanitários, nem reparando no frio. Gabriel? De terno e gravata, encostou-se no balcão e "pescava" coxinhas e bolinhas de queijo das bandejas que passavam. Chegamos a Congonhas no horário para o check in e... espera... espera... espera... Bem que a Marta mandou relaxar. Sorte nossa que Gabriel estava no espírito da companheira ministra, porque senão... Nosso vôo estava programado para as 21h35 - chegaríamos a Porto às 23h25. Um piá de nome Diego agitava no salão de embarque e se pôs a brincar com Gabriel. Era quase meia-noite quando tivemos de explicar: - "Gabriel, vamos ter de pegar um ônibus, tá? Vamos pegar o avião no Aeroporto de Guarulhos!" - Quanta paciência. Muitos adultos normais esbravejavam, xingavam... Gabriel topava tudo, ou quase. Lá pela uma da manhã, botei-o numa cadeira-de-rodas. Eram quase duas horas quando nos chamaram e os comissários perguntaram se eu queria que outra cadeira-de-rodas nos esperasse na chegada - claro que quis!. Desembarcamos no Aeroporto Salgado Filho em torno das quatro da manhã e Moacir, o anjo-da-guarda da AMAFA, nos esperava no frio, em pé, com uma plaquinha. O queixo de Gabriel batia, ele nunca pegara temperatura tão baixa. Com ele aninhado entre casacos no banco de trás da van, desembarcamos no Hotel Concatto mais ou menos às cinco da manhã. De terno e gravata, Gabriel enfiou-se debaixo de três cobertores e lá ficou.
Parece que fiz sucesso. Ana me escreveu: ...fizemos o balanço do forum, no questionário que foi entregue com a pasta, avaliação de tudo e todos, vc teve uma ótima nota. Foram entregues 82, destes vc ganhou 78 = MB e 04 = B em vários quesitos.Mesmo assim, lamentei. Queria Gabriel comigo, para mostrar a que nível conseguimos conversar hoje e a forma de propor-lhe alternativas para facilitar sua resposta. Quando acabei minha palestra, muitas pessoas vieram contar de filhos e alunos. Uma mãe, muito feliz, se identificou conosco e contou como seu filho só se acalma... fazendo a barba! Ela falou que, quando seu rapaz começa a se mostrar nervoso, ela oferece para lhe fazer a barba e ele: - "Passa queminho, mamãe!" (creminho) e disse que ele relaxa completamente! Pode? Precisei chamar a Dra. Margarida Windholz, pois fiquei surpreso com essa história inesperada. O senso comumm nos diz que pessoas autistas detestam fazer a barba! Como disse Maggi, cada indivíduo é um! Infelizmente, depois da palestra da Dra. Margarida, perdi contato com várias dessas pessoas, com quem queria ainda conversar. Para Márcia Madalozzo, seu marido e irmã, cheguei a perguntar se iriam almoçar conosco, e eles confirmaram; infelizmente, isso não aconteceu. Então, quem quiser me escrever, por favor, faça-o. Ficarei muito contente. Fui para o hotel, chamei Mariene e Gabriel e fomos para o CTG (Centro de Tradições Gaúchas) para um churrasco. Gabriel rodou, rodou, escolheu o que quis no bufet, comeu e foi para a portaria tomar um solzinho e ver os carros passar.
postado por: Argemiro Garcia 15.6.07 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
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