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Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
Clique para entrar na
Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Segunda-feira, Maio 21, 2007

Fevereiro, mês de festa


Melina já trabalha conosco há mais de um ano. No seu aniversário, dia 3 de fevereiro, fez questão que fôssemos à sua casa. Preparou balões e brigadeiros especialmente para receber Gabriel, que se pôs muito à vontade - ainda que não seja chegado a abraços muito apertados.
Na festa de Melina, no dia 3 de fevereiro...
Gabriel escarrapachou-se na cama para descansar um pouco......mas no parabéns, estava presente.


Zé das Virgens, deputado com quem Mariene trabalhou por alguns anos, também nos chamou para sua festa, que foi no dia 1°, quinta-feira. Gabriel gostou muito da loção pós-barba do amigo e ficou cheirando o perfume, enquanto Zé insistia para que ele olhasse para a câmera. Wilson Aragão também estava na festa. Embora estranhando-o, Gabriel aceitou fazer uma foto de tiete.
...e dois dias antes, com Zé das Virgens e Wilson Aragão.
Gabriel com Zé das Virgens, que já era seu conhecido......e com Wilson Aragão, nem tanto!


No dia 9 foi a festa de Mariene; uma semana depois, na véspera do Carnaval, foi a vez dos parabéns para o Lucas Bastos. Uma festa decorada com confete, serpentina e spray de "neve". Gabriel, por conta própria, vendo a garotada se divertir jogando o spray uns nos outros, me encharcou as costas!

Ainda tivemos festa para Mariene e Lucas Bastos!
Cantar parabéns para a mamãe é outra coisa!Mas ter que sair da festa antes da hora merece um pouco de enfezamento!


Quem disse que meninos autistas não gostam de festas?

Tá certo, a expressão parece de irritação na maioria das fotos. Isso tem explicação: a hora de ir embora nunca é boa!

postado por: Argemiro Garcia 21.5.07

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Quinta-feira, Maio 17, 2007

Cozinha, hospital e outros que tais

Quando, na quinta-feira passada, dia 10 de maio, o peguei na Curumin, Gabriel entrou no carro pedindo:

-"Poços de Caldas!"

Não, ele não queria ir para Minas Gerais! Pedia requeijão - mas não qualquer um, pois sempre o provoco:

- "Quer requeijão, Gabriel? Pode ser Nestlé?"

-"Poços de Caldas!"

Melhor não provocar desnecessariamente quem está de bom humor, não é? Continuei a conversa:

-"Vamos no Hiper, Gabriel? Gabriel, vamos pro Hiper?"

-"Hiper!"

Cantei um pouco, ele escolhendo o repertório. Na segunda e terça-feira passadas, ele chegou irritado - muito irritado na escola. Imaginei que fosse o fato de Pedro estar de carona conosco, conversando comigo e não lhe dando brecha para participar. Decidi passar a cantar para ele - e deu certo. Afinal, ninguém gosta de ficar fora do papo, né? Conversação não é uma habilidade desenvolvida nele, então o jeito é perguntar-lhe o que quer que eu cante e atender seus pedidos.

Caçador de mim, do Milton, é uma das preferidas; também gosta de Cajuína, do Caetano: essa, escolha minha que ele aceitou. Lá fomos nós, então, às compras.

Aboletou-se na cadeirinha de bebês de um carrinho e fomos atrás do requeijão. Ofereci ainda lasanha, uma marca nova que não precisa congelar e se esquenta no micro-ondas em 1 minuto. Ele aceitou, mas insistiu também na lasanha Sadia, congelada, sabor Quatro Queijos.

Voltamos para casa e ele tratou de esquentar seu prato, com a porta fechada. Daqui a pouco, se pôs a gritar. Mariene se assustou:

-"Ai, coitadinho! Se queimou!" Foi seu primeiro acidente na cozinha! Mandei:

-"Vem, Gabriel, põe o pé debaixo do chuveiro!"

-"Eu não vou!"

-"Bota o pé aí, rapaz! Precisa esfriar para não queimar muito!"

Não deu jeito, ele mal molhou o pé e voltou para sua lasanha. Ao anoitecer, quando voltei, Melina mostrou que o garoto tinha três bolhas no pé esquerdo. Só quando dormiu pudemos fazer-lhe um curativo. Saímos para comprar um par de sandálias Havaianas e, no dia seguinte, já estava na escola de novo.

Mas esta semana, ele alterou o sono, por conta, talvez, de Mariene ficar até tarde trabalhando no micro e Pedro ficar no violão. Dormindo tarde, acordava de mau humor. Terça-feira, não quis ficar na escola, me obrigando a levá-lo de volta para casa. Na quarta-feira, ontem, mal acordou se pôs a resmungar. Achei melhor deixá-lo voltar a dormir. Mariene e eu, então, pensamos na possibilidade do pé estar doendo e achamos de lavá-lo ao hospital.

Hospital? O pai disse hospital? Oba!!!

Saindo da sessão de musicoterapia, fomos para a enfermaria pediátrica do Hospital Aliança - Gabriel adora as máquinas automáticas de lanchinhos. Acabei comprando um sanduíche de queijo e um nescauzinho. Crianças com febre eram atendidas e ele, feliz, andava de um lado para o outro. Só que a pediatra nos mandou para o outro ambulatório, para fazermos um curativo:

-"Gabriel, vamos para a outra enfermaria, fazer um curativo!"

-"Eu não vou!!!!!"

-"Vai, sim! Depois a gente volta!"

Como chovia, fomos de ambulância, embora sejam próximas uma da outra. Gabriel, "pacientemente", abriu o berrador:

-"Quero enfermaria! Enfermaria pediátrica!"

Claro que a agradável sensação de ter todos os olhares voltados para nós tomou conta do meu ser. O médico se assustou e veio correndo nos atender. Queria eu ter a falta de simancol que Gabriel tem, nessas horas. Pacientemente, entre tapas e beijos (eu disse beijos? Esquece!), explicava que Gabriel é autista. Assim que o curativo foi feito, fomos despachados. No corredor do hospital, Gabriel ainda insistia:

-"ENFERMARIA PEDIÁTRICA!!!!"

Um rapaz veio me pedir para que o fizesse falar mais baixo, porque sua mãe estava doente e que estávamos num hospital! Bom, nessas horas, prefiro ser sarcástico. Calmamente, respondi:

-"Meu filho é doente... Ele é autista!"

Ora, pitombas! Não acho que autismo seja doença, mas, já que o rapaz não se mancou que não era só sua mãezinha a doente por ali, e que, num pronto-socorro, é bem possível você pegar uma pessoa gritando... Ele pediu desculpas e tentou se explicar:

-"Ah, desculpe! Pensei que tinha morrido alguém e..."

Tenha dó! Se tivesse morrido um parente meu eu ia ter que chorar baixinho?? Depois, é Gabriel quem não consegue se pôr no lugar dos outros!

Voltamos para a enfermaria pediátrica de ambulância. Bem que propus pegar uma cadeira-de-rodas, eu o levaria sozinho. Mas o segurança não permitiu, com a precoupação de que entrasse um carro em alta velocidade, trazendo alguma emergência. Ficamos por ali mais uns vinte minutos. A pediatra não conseguiu esconder sua contrariedade, mas eu conversei com ela, expliquei que tinha de cumprir minha promessa, contei do rapaz que reclamara e ela teve o mesmo pensamento que eu:

-"E se tivesse morrido alguém? Não se pode chorar?"

Quando o ponteiro grande chegou no oito (o parâmetro que dei a Gabriel para sairmos), ele correu para o carro, mesmo contrariado. Em casa, quis tomar banho e, assim, já tirou o curativo. Quando dormiu, Mariene tornou a medicá-lo e, hoje de manhã, fomos para a Curumin, de novo, cantando:

-"Por tanto amor, por tanta emoção, a vida me fez assim..."

postado por: Argemiro Garcia 17.5.07

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Terça-feira, Maio 15, 2007

Academia de ginástica

O condomínio em que moramos há 13 anos foi construído dentro de uma concepção que havia em Salvador há uns 20 e tantos anos de que as pessoas conviveriam no espaço de moradia. Tem piscina, sauna, quadra de esportes, um play ground amplo e tinha um bar. Este foi alvo de campanhas contrárias e acabou sendo substituído por uma academia de ginástica. Inicialmente, alguns moradores doaram aqueles equipamentos que ficavam encostados no fundo de algum quarto, incomodando. Quebraram. A assembléia acabou por decidir pela terceirização - dois rapazes da área de Educação Física se uniram e mantêm um serviço voltado para jovens e coroas gordinhos. Não esperavam que um garotão autista se interessasse.

Sentado num aparelho de gnástica para chupar balas? Pode?!
Gabriel no aparelho de ginástica
Por uns bons tempos, Gabriel ficou rondando. Pedia:

-"Academia!"

Lá ia um de nós acompanhá-lo. O constrangimento de Yulo e Marcos era evidente: preocupavam-se que Gabriel se machucasse, no meio de tantas barras de ferro - ainda mais que, aparentemente, ele circula sem critério algum, como se fosse tropeçar a cada passo.

Mariene teve a idéia: propusemos aos rapazes que Gabriel freqüentasse o espaço, como participante, sempre nos horários mais livres. Prometemos que sempre teríamos alguém para acompanhá-lo. Com o convívio, fomos explicando as idiossincrasias de Gabriel, como autista e como ele mesmo - porque, à parte o autismo, ele tem suas próprias características.

Gabriel adorou, mas teve uns probleminhas, no começo: é que adorou as esteiras elétricas, onde ficava andando. Aprendeu rapidinho a ligá-las. Mas há os demais clientes, que precisam cumprir seus programas de condicionamento. No começo, Gabriel se irritava, quando se pedia a ele que desse lugar a outra pessoa. Logo, porém, entendeu e passou ele mesmo a dar seu lugar, mudando para outro aparelho.

O que quer, mesmo, é ficar por perto das outras pessoas. Sentir-se fazendo parte do grupo. Como é muito conhecido no prédio, sempre alguém o cumprimenta:

-"E aí, Biel?!"

Senta-se em algum lugar e fica chamando:

-"Yulo!" ou, então, martelando um limão contra o outro, cantarolando. Na maioria das vezes, me expulsa;

-"Fala tchau!"

Sua empolgação, no entanto, já vai passando, nem vai muito mais à academia. Mas pergunta, de vez em quando:

-"Cadê Yulo!?" e começa a mandar:

-"Academia tá re... formando! Bate o martelo! Bate o martelo! Bate o martelo! Passa cimento! Agora, pinta! Toca a campainha!" - é a senha para que eu, que já representei toda a reforma, diga:

-"Péééééééééééé!!! Olá, Yulo! Boa noite! Tudo bem com você?" Damo-nos as mãos e recomeçamos.

postado por: Argemiro Garcia 15.5.07

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Sábado, Maio 12, 2007

Equoterapia

Gabriel adora andar a cavalo, mas não tem mais querido ir para a equoterapia, feita na ABAE - Associação Baiana de Equoterapia. Talvez porque deseje ter mais liberdade para lidar com o cavalo. Essa história de ficar esticando os braços, levantando a mão direita, depois a esquerda... Hum, não sei não, mas acho que não é com ele. DE umas três semanas para cá, ele tem se recusado a ir para a equoterapia.

Nossa idéia é partir para equitação - como nos recomendou o amigo Luiz Alberto, da lista estatuto_do_deficiente.

postado por: Argemiro Garcia 12.5.07

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Sexta-feira, Maio 11, 2007

A tal da inclusão

A experiência de manter Gabriel numa escola regular, montessoriana, tem sido positiva para todos nós. Arrisco dizer que, pela primeira vez, vivemos um período de inclusão.

A Curumin segue o método Montessori. Dele, se fala muito mas se sabe pouco. Vale explicá-lo um pouco.

Máscara de palhacinho feita com a ajuda de uma colega
Palhacinho feito por Gabriel, com a ajuda de uma coleguinha
Maria Montessori foi, ao final do século XIX, a primeira italiana a se formar médica. Enfrentou muito preconceito e acabou conseguindo trabalhar com crianças "retardadas" que, na época, eram chamadas de idiotas - assim seus alunos devem ter sido ser classificados.

Maria cheia de garra. Acreditava que seus pacientes tinham o direito a receberem educação e desenvolveu material concreto, com o qual pudessem entender os conceitos da Matemática. Seu método se mostrou tão eficaz que passou a ser adotado com crianças sem problemas de aprendizado, também.

Montessori pensava que as crianças deviam ser educadas para a cidadania. Por isso, pesquisou e mandou fazer cadeiras, mesas, vassouras, enfim, todo o material, no tamanho certo pra que as crianças o usassem. Pressupunha que seus alunos deviam aprender a arrumar o espaço que usavam e, por outro lado, deveriam ter liberdade para trabalhar com seu material de ensino, cada um aprendendo no seu ritmo. Uma sala do método tem material à vontade: prateleiras com animais empalhados, invertebrados guardados em formol, livros arrumadinhos no seu lugar certo. Também lápis, canetas, crayons, papéis. Moldes de figuras geométricas, placas com números impressos. As tarefas são dadas pela professora no início da aula e avaliadas ao final.

Gabriel, sentado no palco, participa do lava-pés, enquanto a garotada se diverte.
O lava-pés na Páscoa
Fabiane, a professora de Matemática e Português das turmas de primeira e segunda séries, que fica com ele a maior parte do tempo, explora bastante essa forma de organização da sala montessoriana. Gabriel tem liberdade para não parar quieto, mas tem a obrigação de anotar no seu diário o que deverá fazer em casa. Faz as tarefas junto com alguma colega, ajudando-se mutuamente. Nós, que pensávamos em contratar uma pessoa para ser sua acompanhante pedagógica, entendemos que havia vantagens em ter outra criança sentada ao seu lado, por exemplo passando-lhe as lantejoulas que precisa colar no papel.

Nem tudo são flores. ele ainda fica nervoso quando se vê contrariado. Não consegue participar das brincadeiras dos outros espontaneamente. Mas não é vítima de preconceito. Ele é Gabriel, não é "o autista" - embora todos saibam de sua condição.

Na Páscoa, tradicionalmente, a escola organiza um evento que reúne todos os alunos. Os pequenos se fantasiam de coelhos, cantam musiquinhas e ganham chocolate. Os maiores encenam a Paixão de Cristo, fantasiados de pastores, centuriões, Herodes, Jesus (cada passagem é feita por um "ator" diferente). Não pudemos assistir, este ano - é um evento só para professores, funcionários e alunos. Temos as fotos.

Neste ano, Gabriel foi vestido a caráter, com um lençol amarrado como túnica. Foi um dos discípulos no lava-pés, participou da Ceia, ganhando pão e suco de uva, e não desceu mais do palco, acompanhando Jesus até sua Ressureição.

A garotada se divertiu e ele junto, fazendo parte de tudo. Que mais é a inclusão, afinal?

postado por: Argemiro Garcia 11.5.07

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Segunda-feira, Maio 07, 2007

Piloto de supermercado

Explicando melhor, Gabriel gosta de passear no Hiperbompreço sentado em uma cadeira-de-rodas. O supermercado tinha várias, com uma cesta para colocarem-se as compras. Porém, como as cestas eram frágeis, acabavam quebrando e ferindo as pessoas, a gerência decidiu tirar as cestas e investir em carrinhos elétricos.

Vai explicar isso para Gabriel! Durante meses, ficaram três cadeiras-de-rodas - uma se manteve firme com a tal cesta. Um dia, no entanto, a última cesta foi recolhida.

Chegamos, hoje, dia 7 de maio, ao Hiper. Sem cadeira de rodas com cesta, Gabriel me conduziu ao "estacionamento" dos carrinhos elétricos. Apontou e...

-"Você quer que eu sente nesse carrinho e te leve no colo?"

-"No colo?" - ele repetiu, com um sorriso.

Sentei e ele se aboletou sobre mim. Eu me sentia o rei do mico, mas fomos em frente. Até que chamávamos menos atenção do que quando ele se instalava na cadeeira-de-rodas, chamando sobre si olhares penalizados. Só que... Foi só me levantar para apanhar uma mercadoria e ele tomou conta da direção. Até que sabe dirigir! Desviou certinho das pessoas e prateleiras! Veja abaixo o vídeo que carreguei no youtube:



Repare como desviou direitinho das geladeiras de sorvete, parando sem me atropelar!

postado por: Argemiro Garcia 7.5.07

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arquivo