Canto de Anjo |
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Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
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Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007 Todo mundo na praça, quanta gente sem graça no salão!
-Cavalos, Argemiro? No Carnaval? É! Carnaval de Salvador tem Mudança do Garcia, com banda, frevo, travestis e travestidos, carroças de protesto, cavalos e Gabriel! Mas, vamos por partes, já dizia o Dr. Frankenstein! Pedro e Leo saíram num bloco no sábado. No domingo, foi a nossa vez. Mariene, Gabriel e eu pegamos Silvia na sua casa e fomos para o Pelourinho - o Circuito Batatinha. O Pelô, no Carnaval, sedia um carnaval das antigas, com bandinhas, muita gente fantasiada, blocos de artistas desfilando maquiados e grupos folclóricos se apresentando. Como todo ano, um palco foi armado no Largo do Cruzeiro, em frente à Igreja de São Francisco. Palcos são uma das paixões de Gabriel. Antes de chegarmos ao Largo, no entanto, tivemos uma parada no Restaurante Matusalém: quando passávamos na sua frente, uma família era servida de moqueca, e Gabriel já ia se sentando à mesa deles! Mas o chamamos e ele subiu as escadas do casarão, onde acabou por se fartar com uma macarronada.
-"Palco! Eu quero palco! Vamos pro palco!" - o tiramos do Largo e fomos ao Terreiro de Jesus, tentar distraí-lo - missão impossível, diga-se de passagem. Rodamos, sentamos, argumentamos, ameaçamos voltar para casa. Depois de um certo tempo, a proposta: -"Vamos ver se já pode subir no palco!!?" Sim, podia! Uma bandinha tocava sucessos de antigos carnavais e músicas infantis, enquanto as crianças pulavam e dançavam. "Atirei o pau no gato" se revezava com Xuxa. Um grupo de atores, fantasiados, brincavam de roda com os pequenos. Outra banda entrou, as crianças continuaram. Depois de mais de uma hora, cansados, propusemos: -"Gabriel! Vamos descansar, que amanhã tem a Mudança do Garcia! Você vai andar de cavalo!"
No dia seguinte, ele me acordou cedo. Mariene, com dor nas costas, ficou mais um pouco na cama. Léa, uma amiga, ligou. Depois do café, passamos na sua casa, na de Silvia, e fomos para o Carnaval. Um pequeno engarrafamento me deixou ansioso, irritado - mas Gabriel nem me acompanhou. O sorriso não enganava ninguém: era o dia da Mudança do Garcia! Carnaval de protesto com mais de 50 anos de existência, a Mudança reúne manifestantes foliões que fazem críticas mordazes e bem humoradas ao Governo, aos costumes, a tudo. Blocos tradicionais, como o Bloco dos Cornos, se misturam a grupos novatos, como a delegação da Guiana Francesa, e aos cavalos e carroças. Depois de degustar uma feijoada comunitária no fim de linha do Garcia, a turma calibrada sai às ruas para provocar e se divertir.
Depois de mais de duas horas, entrávamos no circuito do Campo Grande, na frente do trio de Cláudia Leite. Desta vez, a Mudança foi recebida pelo prefeito de Salvador, João Henrique, e pelo Governador, Jaques Wagner. Sinônimo de protesto, este anos a Mudança trazia faixas de apoio à "wagnada de 180°", mas também havia cobranças por melhorias, da parte dos sindicatos. Gabriel estava tão feliz que a zoada toda de bandas, sistema de som, gente, muita gente, nada o incomodava. No meio da muvuca, encontramos o Secretário de Saúde, Jorge Sollas, que fazia campanha pelo uso da camisinha. Pedimos uma foto com Gabriel, e o Dr. Sollas acedeu; o menino é que parece ter estranhado um desconhecido se postar ao seu lado. Mais um tempo e acabávamos, pelo terceiro ano consecutivo, nossa participação na Mudança. O dono dos cavalos veio cobrar R$ 50,00 - o que achamos um absurdo. Foi quando entendemos que a água que demos aos meninos nos fez parecer barões. No próximo ano, contataremos antes os conhecidos para a cavalgada. Sentamos na mesma lanchonete dos anos anteriores. Gabriel, no batente, carregava a tristeza de fim de festa. Só então é que foi tampar os ouvidos, já longe da bagunça. No dia seguinte, terça-feira gorda, Gabriel acordou reclamando de dor na virilha:
Enquanto Pedro se recostava no sofá de Zoraide (não achou nenhum amigo para acompanhá-lo), Silvia ficava na esquina, acompanhando a passagem dos trios; Mariene e eu nos revezávamos, acompanhando Gabriel, de barraca em barraca. Como foi em Santo Amaro, coquetéis e sucos fizeram a sua festa. Este ano, nem o trio de Daniela ou o Expresso 2222 de Gilberto Gil o levaram para a Avenida. Em uma barraca decorada com desenhos de Bob Marley, caixas de som despejavam reggae. Gabriel chegou perto, olhou para o dono, voltou para mim e disse: -"Ele piscou pra você!" Olhei para o rapaz, que girou o dedo em volta da orelha, no gesto de "muito tempo atrás" e lembrou: -"Eu conheço ele já tem três anos!" Quando cansou, Gabriel subiu para o apartamento de nossa amiga. Desci, com Mariene, para ver algum trio passar: o Expresso 2222 trouxera a bateria da Grande Rio e Zeca Pagodinho. Olhávamos e o víamos na janela, os dedos enfiados nas orelhas. Quase uma da manhã, voltamos para casa. No caminho, a indefectível pergunta; -"Cadê Silvinha?" - é que ele não gosta de visitas que conversam com a gente, tirando-lhe a atenção, que ele quer exclusiva. Quando a tia dorme lá em casa, ele protesta. Acabava o Carnaval. Agora, só em 2008. postado por: Argemiro Garcia 22.2.07 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Terça-feira, Fevereiro 20, 2007 Curtinhas Novidades na cozinha
Gabriel, no final de janeiro, inovou em suas lides culinárias: outro dia, nos expulsou da cozinha, como faz quando quer fazer arte: -"Fala tchau!" Fomos para a sala e a porta da cozinha se fechou atrás de nós. Daqui a pouco, um forte cheiro de café inundou a sala. Não é que ele, de tanto observar as medidas que a gente usa, acertou a mão e fez um café exatamente ao nosso gosto? Deduções Teve um dia, também em janeiro, em quechegávamos a nossa garagem. Como tantas vezes, ele gritou, como bom garoto de Salvador: -"Pára, Motor!" - que é como os motoristas de ônibus são chamados na cidade. Parei o carro, imitando o som do ônibus freando: -"Iiiirhhhh!!!" Ele desceu, bateu a porta e se dirigiu ao elevador. Arranquei e, pelo barulho, percebi que havia algo de errado. Chamei-o: -"Gabriel, pega esse negócio aqui!!" Ele não teve dúvida: voltou, pegou o cinto-de-segurança, que estava pendurado do lado de fora, abriu a porta, jogou-o para dentro, bateu a porta e retomou seu caminho. Pode parecer besteira, para quem não conhece pessoas autistas, mas inferir que eu me referia ao cinto, deduzir que eu queria que ele o colocasse para dentro do carro, fechar a porta... Isso é superar um monte de barreiras! postado por: Argemiro Garcia 20.2.07 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007 Ortodontia Quando Gabriel era pequeno - dentição de leite, ainda - era uma tortura levá-lo à dentista. Seus dentes estavam bem comprometidos e ele se apavorava em abrir a boquinha. Cáries apareciam e o faziam sofrer. Dra. Célia, amiga nossa, bem que tentou, mas acabou nos encaminhando para a Dra. Tania Lapa Galvão, especialista em pacientes "especiais".
De início, buscamos fluoretar seus dentes mensalmente, mas não adiantou. Acabamos optando por duas intervenções com anestesia geral. Na primeira, ela acabou por extrair um dente que estava já muito comprometido, deixando para o futuro o que fazer com o problema. Era o jeito! Alguns anos depois, foi preciso nova intervenção com anestesia, em 2003. Desde então, apenas limpeza e fluoretação. Ele escova seus dentes quase direitinho. (Às vezes, esquece a parte de trás.) Ao longo desse tempo, fomos aprendendo a lidar com Gabriel. Quem procurar pelas páginas do Canto de Anjo verá as consultas com Tania e Célia - quantas vezes esta trabalhou em meus dentes com Gabriel deitado em minha barriga, espiando seu serviço? Bom, chegou a hora de agir naquele dente deixado de lado - literalmente. Gabriel teve sua dentição desenvolvida - felizmente, tudo forte e limpinho, sem cáries! Nem parece aquele menininho que sofria com as dores de dente. E então?
A Dra. Tânia viajou para a Suíça e nos encaminhou para a Dra. Andréa Carvalho. Vamos tentar pôr-lhe um aparelho. Foi no dia 23 de janeiro. A Dra. Andréa, primeiro, ficou impressionada com a desenvoltura de Gabriel, espevitado e curioso e, também, com sua capacidade de soletrar: -"Qual a letra?" Pergunta ele - e lá vamos nós no jogo da soletração. Marcamos hora na clínica para fazer fotos, radiografia e molde; comparecemos no dia 1° de fevereiro com o coração na mão. Não é que ele demonstrou paciência impressionante? Cada foto, com a boca repuxada, com a cabeça presa por grampos - tudo, ele encarou com tensão, mas sem reclamação! As radiografias serão o próximo passo. Será que vamos conseguir endireitar seus dentes? postado por: Argemiro Garcia 19.2.07 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
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