Canto de Anjo |
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Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
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Quarta-feira, Dezembro 27, 2006 Dona Ifigênia CarabinaDo período em que permaneci em Ouro Preto, já se vai um ano, uma das figuras que me marcaram foi Ifigênia Carabina. Cinqüentona, negra, culta, orgulhosa - daí seu apelido, que ganhou quando brigou com um prefeito e, na frente do juiz, alegou que também o prefeito deveria respeitá-la. Ifigênia tem uma filha de uns vinte e tantos anos que é "deficiente mental" - é só bater o olho que percebemos ser autista. Segundo a mãe, a menina não tinha problemas até mais ou menos um ano de idade, quando teve pneumonia. Ifigênia não conseguiu ser atendida em Ouro Preto e pegou um táxi até a vizinha Mariana. Internada, a menina foi medicada. Segundo a mãe, foi uma injeção de antibiótico que lhe deixou seqüelas.
A briga com o prefeito foi porque este prometera melhorar o transporte para as mães de crianças com deficiência levarem seus filhos a Belo Horizonte. Depois de eleito, ao contrário, tirou a kombi que fazia essa tarefa. Foi quando ela o "destratou" e ele a processou. O juiz mandou engavetar o caso, pois viu que não poderia obrigar Ifigênia a pedir desculpas. Ifigênia, então, pegou um ônibus, levou a criança a Belo Horizonte, deixou-a no hospital e foi a um programa de rádio pedir ajuda. Por anos, conseguiu passagem grátis na empresa de transporte. Ifigênia conta que participou da criação da APAE de sua cidade, mas, no ano passado, sua filha era atendida em Mariana, pois a APAE disse não estar preparada para lidar com ela. A menina puxou à mãe na teimosia, mas tem os movimentos lentos e pouco se comunica: não é agressiva. No Natal, Ifigênia buscava ajuda para distribuir brinquedos às crianças carentes; nossa turma arrecadou um dinheiro e compramos bonecas e carrinhos para ela distribuir à meninada atendida pela APAE. postado por: Argemiro Garcia 27.12.06 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Sexta-feira, Dezembro 22, 2006 Atendimento VIPUm sábado desses, Gabriel começou:-"Passear de ônibus! Passear de ônibus!" Prometemos que seria no dia seguinte, e ele esperou. Claro que, no domingo, ele retomou a ladainha: -"Passear de ônibus! BTU! Passarela!"
-"Quer ir pra Ribeira, tomar sorvete? Pular na cama elástica?" -"UÁÁÁÁÁÁÁRRHHH!" -"Tá bom, só precisa dizer: 'Eu não quero!'" -"Eu não quero!" Lá fomos nós. A Estação Iguatemi fica entre o shopping de mesmo nome e a rodoviária. Seu acesso é feito por uma passarela de pedestres, daí o pedido de Gabriel incluí-la. Vinha um ônibus para a Base Naval de Aratu: esfriei. Não era um passeio tão longo que planejávamos. Felizmente, ele topou entrar em um micro-ônibus que vai para a Barroquinha, antigo terminal de ônibus que fica bem perto do Centro Histórico: Pelourinho, Praça Castro Alves, Nazaré... O motorista, cujo nome é melhor não registrar, tem que dirigir e cobrar ao mesmo tempo. Deixamos Gabriel sentado antes da catraca, em uma das cadeiras de passageiros especiais, pagamos as três passagens e passamos. Lá ia ele, feliz da vida, espiando pela janela. Chegando ao ponto final, a pergunta: -"Gabriel, vamos descer?" -"NÃO!" -"Quer voltar?" -"Voltar!" O ônibus demoraria uns vinte minutos para voltar; Mariene desceu para fumar um cigarro e a acompanhei. Conversamos com o motorista, que nos mostrou um vale-transporte falsificado, e reclamou: -"É quase igual, não dá para perceber a diferença, cobrar e dirigir. A gente tem que pagar!" Ficamos indignados; realmente, era muito difícil perceber qualquer diferença. No máximo, uma fotografia levemente desfocada denunciava o passe falso. O resto - até o papel especial, era idêntico ao passe verdadeiro. O rapaz se afastou, foi ao sanitário. Na volta, trazia um chocolate para Gabriel. Trocamos algumas idéais sobre nosso filho. Quando chegou a hora de voltar, entramos e retomamos a viagem, agora com o micro-ônibus todo para nós. De volta ao ponto inicial, Gabriel fez menção de se levantar, mas perguntei:
-"Continuar!" Pronto! Lá seguimos a viagem! Passando pela Rótula do Abacaxi, dois argentinos "sem destino" pediram carona; o motorista acedeu, mas determinou: -"Faz um show pro Gabriel!" Foi assim que Gabriel ganho um show internacional de malabarismo itinerante, pelas ruas de Salvador! Nossa segunda volta acabou na Barroquinha, de novo. Depois de outra espera, começamos a retornar, agora com outros passageiros embarcados. Gabriel começou a pedir: -"Atendimento VIP!" O motorista brincou: -"Atendimento VIP é o que você está tendo aqui, Gabriel!" mas Mariene entendeu: -"O pessoal do Playland tinha escrito nas camisetas: Atendimento VIP!" -"Onde fica esse atendimento VIP, Gabriel? É no Iguatemi?" -"Iguatemi!!!?" -"É no Playland?" -"Playland!!!?" Acabamos a tarde nos revezando na fila para garantir o lugar de Gabriel no brinquedo, enquanto ele, no máximo, trocava de assento na pequena montanha russa com cara de dragão que ele adora. postado por: Argemiro Garcia 22.12.06 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quinta-feira, Dezembro 21, 2006 Mãe, eu tô na Band! Com a aprovação do Projeto de Lei n° 15397/06, que garante assistência a pessoas autistas, fomos eleitos para dar entrevista em duas redes de TV locais, a Band e a Aratu, afiliada do SBT.
Avisamos Gabriel que Mariana, da Band, viria a nossa casa para entrevistá-lo. Ele, imediatamente, trocou o canal para o 7 (Band, em Salvador) e correu para o quarto. Insistimos para que pelo menos trocasse a camiseta por uma mais limpa; ele não aceitou a que lhe oferecíamos e escolheu a do Homem-Aranha. Tem seus gostos, afinal de contas! A primeira equipe a aparecer foi a da Band. Veio Mariana Monteiro, apresentadora do jornal local e repórter, acompanhada do cinegrafista Benigno e do motorista Marisson. Como Gabriela trabalhou na Band News FM e Gabriel Pinheiro trabalha no Jornal da Band, todos já tinham ouvido falar de nós: vinham para a casa "dos pais da Gabriela", fazer uma reportagem com "o Gabriel". Este, no entanto, se enfurnou no quarto, enquanto conversávamos com Mariana. Falamos da importância da lei recém-aprovada: na nossa visão, uma grande conquista por dar visibilidade aos autistas, pessoas que pouca gente conhece. Gabriel permanecia no quarto, deitado em nossa cama, o livro "Criança, meu Amor" de Cecília Meireles nas mãos. A equipe toda entrou; Mariana se abaixou ao seu lado e começou: -"Oi, Gabriel! Eu sou amiga da sua irmã!" Interferi: -"Gabriel, como chama sua irmã?" -"Gabriela!" Mariana continuou: -"Eu trabalho com o Gabriel Pinheiro na Band! Você já me viu no Jornal da Band? Você gosta de mim?" Ele, com um sorriso matreiro, respondeu: -"Gosto!" - e, em seguida, emendou: "Eu gosto de você!", abrindo seu sorrisão. Mariana sorriu também: -"Ah, que legal! Olha, quando eu estiver apresentando o jornal, de noite, vou dar uma piscadinha pra você, tá? Assim!" e deu uma piscadela. Claro que Gabriel estava se achando o máximo. Pegou de novo o livro e, a nosso pedido, se pôs a ler. Mas, em lugar de ler, soletrava: -"Tê, rê, ó, quê, pingo pingo pingo, tê, rê, ó, quê, pingo pingo pingo, tê, rê, ó, quê, pingo pingo pingo." Era: "Troc... Troc... Troc..." O pessoal ficou conosco por mais de uma hora. Mais tarde, chegou a equipe da TV Aratu, cujo repórter, Uziel, foi colega de faculdade de Gabriela. Eles estavam com pressa, e Gabriel não lhes deu bola. Também, não mandaram uma moça bonita para entrevistá-lo! De costas o tempo todo, ele se sentou à mesa e se pôs a rabiscar. De noite, foram ao ar as duas matérias, com a nossa entrevista, do Padre Joel, e imagens de uma das entidades que atendem autistas em Salvador. postado por: Argemiro Garcia 21.12.06 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quarta-feira, Dezembro 20, 2006 A praça é do povoMariene participaria de uma reunião do Fórum do Rio São Francisco no SINDAE, no bairro dos Barris, famoso pela biblioteca pública. Gabriel e eu fomos levá-la.O SINDAE fica numa simpática pracinha, equipada com alguns balanços, barras e uma quadra de futebol de salão - tudo mal-e-mal conservado, mas ainda em condições de uso. Gabriel preferiu ficar na rua, mesmo. Fiquei tenso, pois ficar na rua, de noite, num bairro ao qual não estamos acostumados, é sempre preocupante. Para Gabriel, não! Deitou-se na tábua para fazer abdominais e ficou "dialogando" suas social stories comigo: -"Cadê Liz?" - e eu tinha que responder: -"Liz está na piscina!" -"Liz! Não é..." -"Liz! Não é pra ficar na piscina! Saia já da água!" -"Não..." -"Não... Eu não quéééééééroooo saiiiiirrr da áááááááágua!" E ele ri, começando logo outra "conversa". Vítor, um garotinho de uns 4 anos corria atrás de uma bolinha, com outros três moleques atrás. Adolescentes faziam ginástica nas barras paralelas, na escada horizontal, na barra, no chão. Mostravam os músculos e discutiam exercícios. Reclamei com Gabriel, mal humorado: -"Gabriel, vamos para o SINDAE!" Protestando, resmungando, foi, mas chegou no auditório, deu uns dois berros de protesto e mandou: -"Praça! Quero praça!" Voltamos. Insisti: -"Então, pelo menos vai andar na escada! Pendura, Gabriel!" Um rapaz achou graça naquele menino se pendurando mal, enquanto uma garotinha com mais cara de índia atravessava todo o brinquedo trocando as mãos com agilidade. Mexeu com Gabriel, que riu e não lhe deu muita bola. Expliquei ao garoto que Gabriel é autista e quiz dizer o que é isso, mas ele sabia: -"Outro dia, voltando da escola, um garoto autista, irmão de um amigo meu que mora em frente à Biblioteca, estava se pendurando na janela para alcançar o fio. Precisou um vizinho escalar a varanda para ajudar!" - Ora, ele sabia o que é autismo! Nesse meio tempo, Gabriel tinha querido imitá-lo e, com nossa ajuda, pendurou-se nas barras paralelas, para exercitar seus tríceps. Depois, ficou ao lado de outro rapaz que fazia flexões de braço no chão. Enquanto ele procurava ficar "retinho", Gabriel, de quatro, dobrava e esticava seus braços. Ri muito. Acabamos nos despedindo do moço e voltamos ao SINDAE. No auditório, desta vez, Gabriel se divertiu pulando no tablado - afinal, adora palcos! Mariene lembrou: -"Tem o lançamento do Zezéu!" Fomos para a Academia Baiana de Letras, que fica pertinho, em Nazaré, e pegamos o fim da solenidade. O companheiro Zezéu Ribeiro é deputado federal e apresentou uma emenda à Constituição para garantir algumas questões referentes à Cultura. Gabriel adorou. A Academia fica num casarão do século XIX, com escadas e havia uma exposição de pinturas. Um artista tocava: -"Gabriel! Olha o que o moço está tocando! É um...?" -"Violino! Fuí, fuí, fuí" - imitou, acompanhando com o movimento das mãos. Zezéu comentou que da outra vez que nos encontramos Gabriel tinha conversado muito com ele! Descalço, nosso moleque explorou bastante o ambiente e me pôs a desenhar e escrever em umas folhas de papel que temos levado a todo lugar onde vamos. Voltamos para casa, com Gabriel feliz da vida. postado por: Argemiro Garcia 20.12.06 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Segunda-feira, Dezembro 04, 2006 Palavras são palavras, nada mais que palavrasUmas semanas atrás, Gabriel estava comigo no Hiperbompreço. Fui para a fila do caixa. Daqui a pouco, lá vem ele:-"Língua!" -"Que foi, Gabriel, você quer língua? Que língua? Língua de cozinhar?" -"...De cozinhar!..." Estranhei. Nunca comemos língua. Não descobri o que ele queria e lhe disse que compraríamos numa outra vez. Dias depois, de novo no Hiper: -"Língua!" Levei-o ao setor de carnes e peguei um pacote de língua: -"É isso aqui que você quer?" -"Nããããããoooo! Língua!" -"Mas é isso aqui que é língua!" -"Lingüí..." -"Ah! É lingüiça que você quer!?" Ele abriu um sorriso e confirmou: -"Lingüiça!" Bom, ontem aconteceu quase a mesma coisa. Depois que eu comprei presunto e queijo, ele veio: -"Lasa!" Saímos pelo mercado, eu tentando descobrir o que era. Entramos no setor do Nescau, café, chás. Ele apontava com seu jeito peculiar, com a mão aberta apontando para cima. Apontava na direção dos macarrões. Dessa vez, matei a charada rápido: -"Lasanha!" postado por: Argemiro Garcia 4.12.06 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
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