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Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
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Quinta-feira, Abril 27, 2006 Tempo de aprenderPassou-se, então, mais de uma semana com Gabriel se sentando no passadiço que serve de "merenderia", entre as duas salas que atendem à 3ª e à 4ª séries. Então, na segunda-feira, quando já estávamos satisfeitos em vê-lo se integrando ao pessoal mais próximo de sua idade, ele resolveu ir à turma do maternal - e passou duas manhãs inteiras por lá! No segundo dia, decidimos insistir para que voltasse às turmas maiores. Ele aceitou, não sem "protestos" - mas nada de agressividade extrema. Apenas uns gritos.Já estávamos no mês de abril. No dia primeiro, Mariene e eu participamos do II Colóquio de Educação Inclusiva, com o tema "Escolarização e Diversidade", na Faculdade de Educação da UFBa. Demos o mini-curso "A inclusão começa em casa" - a vida diária e o autismo. Silvia falou de brinquedismo, com o mini-curso "Oficina Virabrinquedo". Também ministraram cursos: da Comunidade Virtual Autismo no Brasil, Diana Cardoso ("Diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade: o papel do professor"), Sidenise Estrelado ("O olhar psicopedagógico sobre a pessoa com deficiência no mercado de trabalho") e Rita Dultra, musicoterapeuta que acompanha Gabriel há anos ("Abram alas... a música vem aí"). Também Suely Monteiro e Telma Conceição, a mãe de Liz ("Comunicação Alternativa e Ampliada - CAA - como ferramenta de inclusão"). Seria injusto não citar os outros mini-cursos que foram dados: Eliana Campos Gil Ferreira ("Educação bilíngüe para surdos") e Maria de Fátima da Conceição Matos ("A imponrtância do jogo na Educação Especial"). Nosso curso foi bem concorrido, ficamos contentes em compartilhar nossa experiência. Quem sabe outras famílias conseguem começar mais cedo e obter bons resultados? Importante é levar a profissionais da Educação a idéia de que uma pessoa autista é, antes de "autista", uma "pessoa" - com sonhos, desejos, frustrações, tristezas e alegrias. Foi bom ver Renata, professora de Ciências da Curumin, aparecer no final de nossa palestra (por nossa recomendação, assistiu à palestra de Diana, pois pretendemos repetir nosso trabalho na escola). Ela explicou a todos que tem aprendido muito com Gabriel, embora, no começo, tenha sentido medo: o via andando de um lado para o outro, martelando a própria nuca com um objeto ou outro, em geral uma tampa de madeira de um pote de sua sala, e se perguntava se ele não estava se machucando. Contou que, hoje, está aprendendo como lidar com ele, a entender suas necessidades e sua forma de se expressar. De fato, temos sentido da parte de todos - de Maurício, o porteiro, às crianças, às professoras e à direção, acolhimento. Isso tem sido muito importante, para nós e para Gabriel que, visivelmente, está com sua auto-estima no máximo.
Na manhã do dia 6, com a turma da 2ª série, Gabriel se sentou para merendar. Deixou suas coisas na mesinha. Quando outras duas crianças foram usar a mesa, ele começou a protestar. Fabiane, a professora de Ciências da 1ª e 2ª séries, ia pedindo para um dos garotos ceder o seu lugar, mas lhe pedi que não o fizesse: a idéia era fazer Gabriel compreender que gritos não resolvem mais. Bom, ele resolveu dar uma cabeçada na garotinha que estava sentada, lanchando - ainda bem que ele se controla e não a machucou, só assustou um pouco. Ralhei com ele e o fiz pedir desculpas e dar-lhe um beijinho. O menino acabou o seu lanche e Gabriel pôde se sentar ao lado dela. No dia seguinte, mandamos que ele a cumprimentasse com um beijo e as meninas ficaram abusando dela. Entendemos que Gabriel queria lanchar acompanhado - como todo mundo! Como ele não toma café-da-manhã em casa, logo se senta para comer e acaba ficando sozinho na hora da refeição. Nos dias que se seguiram, da sexta-feira dia 7 até o dia 10 de abril, terça, ele acompanhou a turma da tia Fabiane - ela e a turminha de 2ª série falam baixinho, o que o deixa tranqüilo. Mas dia 11 (terça-feira da Semana Santa) eu não passei a manhã na escola. Tenho umas férias de que não desfrutei e que transformei em folgas, mas precisava participar de uma reunião no trabalho. Preparamos Gabriel, explicamos e saí, deixando-os por lá: ele se afastou das salas-de-aula e foi para o auditório. No dia seguinte, foi a bonita festa de Páscoa, em que as crianças representaram a Santa Ceia, o julgamento de Cristo e a Via Sacra - coelhinhos, só os pequeninos. Enquanto os colegas cumpriam seus papéis no palco, Gabriel circulava por entre eles, olhando-os nos olhos, andando de lá para cá. A festa era deles, e ele fazia parte da turma, mesmo com seu jeito diferente. Dona Lúcia nos acenava para que o deixássemos agir como quisesse. Ao final, foram distribuídos pão e suco de uva para todos. Quinta e sexta foram feriado, bem como a sexta-feira seguinte, de homenagem a Tiradentes. Na semana seguinte, passei a deixá-los na escola e partir para o trabalho, para atenuar meu papel na história. Nessa semana, além do 21 de abril da Iinconfidência Mineira, teve o Dia do Índio, 19 - Gabriel de novo subiu para o auditório, embora não tenha aceitado se pintar ou fantasiar. A Pró Renata - é, ele agora fica em todas as turmas, à sua escolha, radicalizando o Método Montessori - na quinta-feira (dia 20), ensinou para a 3ª série as partes do vegetal. Sentadas em roda, as crianças liam, cada uma, um parágrafo do livro. Sinalizei para que pedisse a Gabriel para ler: ao final do parágrafo, ele foi aplaudido pela turminha, pois lê com desenvoltura! O bom de estarmos ao lado dele e da escola nesta fase é que podemos mostrar, aos poucos, as suas habilidades e conhecimentos. Nesta semana, tivemos muita chuva e acabei gastando mais uma folga porque o trânsito estava ruim - fiquei pela escola, mesmo - desenhando e escrevendo - na terça-feira. Renata nos perguntou se Gabriel tinha feito a tarefa - desenhar e nomear as partes do vegetal. Enquanto ela conversava com Mariene sobre os problemas de coordenação motora de Gabriel, esbocei uma árvore e pedi a Gabriel que apontasse as partes: -"Agora, a raiz! Cadê a raiz, Gabriel?" - sem que eu apontasse, ele desenhou uma espécie de mola sobre a raiz do desenho, repetindo "raiz!" -"E as folhas, Gabriel?" -"Éfe, ó, éle, agá, a, ésse!" e rabiscou algo sobre a folhagem do desenho. Por último, perguntei dos frutos, e ele repetiu o feito sobre as "bolotas" que se penduravam dos galhos: -"Éfe, érre, u, tê, ó, ésse!" Renata guardou com o trabalho dos outros alunos. Ontem, quarta-feira, dia 26, Gabriel praticamente me tocou fora dali; -"Gabriel, eu preciso ir trabalhar! vou pra Petrobras!" -"Tchau! Trabalhar! Petrobras!" Mas, hoje, ameaçou dar um piti... se bem que, de uma semana para cá, no esforço de se controlar, ele descobriu a manha: em vez de gritar, ele agora faz um "ê-reh" choramingado... se a gente chama a atenção, ele dá uma risadinha. De qualquer forma é um passo no sentido do auto-controle. A cada vez mais, ele chega ao limiar da irritação, mas se contém. postado por: Argemiro Garcia 27.4.06 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quinta-feira, Abril 13, 2006 InclusãoContar o processo de adaptação de Gabriel à nova escola é uma decisão difícil. Assim como para ele, também para nós tem sido uma prova-de-fogo, uma tensão permanente. Se costumamos comparar a vida com um filho autista a uma montanha russa, digamos que chegamos ao looping - a todo o momento, vemos nossas expectativas e emoções virarem de cabeça para baixo. Expor esses sentimentos e essas nossas experiências tem sido complicado - não sabíamos o que teríamos pela frente. À medida que esses dias vão ficando para trás, é possível avaliar e escrever.Ainda em dezembro, visitamos a Escola Curumin. É uma escola que segue o método Montessori. Filiada à AMB (Associação Montessori do Brasil), tínhamos ouvido falar nela algumas vezes mas sempre a achávamos fora de mão: Natalie, a filha da musicoterapeuta Rita Dultra, freqüentou-a há mais de quinze anos; Carol, filha de nossa amiga Cecília, diretora do Sindicato dos Jornalistas, também. O que nos levou a ela, por fim, foi um garotinho autista cuja mãe procurou Mariene, por indicação de Célia Regina Thomé, fonoaudióloga. Ela recebeu da gente material para repassar às professoras. Como nos falou muito bem da escola, resolvemos tentar essa alternativa. A Diretora, Lúcia, e a coordenadora pedagógica, Kênia, passaram por um teste severo: no dia em que fomos lá pela primeira vez, Gabriel gritou o tempo todo - coisa de uma hora! Era: -"Pai!" -"O que é!" -"Eu não quééééééro ir pro PG!" -"Mãe!" -"Eu não quééééééro ir pra casa!" - e daí pra pior. No dia 6 de março, segunda-feira, nos ligaram e lá fomos no dia seguinte. Nesse dia, ele, ao menos, estava um doce: risonho, sem gritar. Compramos o uniforme, deixamos CDs com arquivos, DVDs com filmes, fôlderes explicativos. Comentei com Lúcia e Kênia: -"Parece outro, não é?" Concordaram. A proposta da escola era incluí-lo na Turma Agrupada II - o pessoal da Alfabetização, com a professora Regina. Voltamos à escola no dia 8 - Dia da Mulher. Bom augúrio? Ele quis voltar para casa. No outro dia, aceitou ficar a manhã toda. No dia 10, sexta-feira, cismou de entrar na sala do Maternal - quase bebês. Eu ia para a escola, aguardava um pouco e chegava atrasado no trabalho. Voltavam de ônibus, outro atrativo para Gabriel. No dia 13, segunda-feira, aceitou entrar na turma da Alfabetização. Tudo corria bem. Nós explicávamos a cada pessoa, criança ou adulto, como agir com ele, como interagir, suas idiossincrasias, suas habilidades. Eu sentava, ele ditava: -"Cavalo! Desenhar cavalo!" E jacaré, hiena, hipopótamo, vaca, touro, elefante, coruja, garça, pavão... Dia 14, saí da escola às 10 horas - ficaram com Regina, na Alfabetização. Quando cheguei em casa, às 6 da tarde, Mariene estava deitada, os olhos vermelhos de chorar. Gabriel quis entrar na sala do Maternal e encontrou a porta trancada. Começou a se auto-agredir, e à mãe. Muito. Ela me disse: -"Miro! Depois de hoje, ninguém mais vai querer Gabriel em escola nenhuma!" Nisso, o telefone tocou. Gabriel atendeu e veio correndo para o quarto: -"Alô! um momentinho! Mããããe!" Era Regina, querendo saber como Mariene estava. No dia seguinte, Lúcia nos esperava e abraçou, conversando com Mariene. Disse que a escola tinha aceitado o desafio. De nossa parte, decidimos que eu passaria a ficar as manhãs inteiras, usando velhas folgas a que tenho direito, porque Gabriel é muito forte, mas me respeita e eu consigo evitar que ele me bata, quando se descontrola. Aqui, cabe um parêntesis. A velha questão dos limites. Há alguns anos, vimos explicando-lhe o que é certo, o que é errado. Ele aceita o NÃO mas quando está ansioso, quando se descontrola, fica-lhe muito difícil controlar a frustração - é quando passa às agressões. A escola nova, ambiente novo, o medo de ser rejeitado, tudo tem pesado muito no seu comportamento.Então, no dia 15, ele quis voltar ao Maternal. Deixamos por dois dias. No dia 17, sexta-feira, insistimos que teria de voltar à Alfabetização - ele deu piti, brigou comigo, mas não teve choro nem vela, e passou a freqüentar a sala de Regina - comigo fazendo ditados, desenhos... Peguei amostras de minerais e rochas para a sala e pus Gabriel para escrever o nome, usando seu normógrafo. A semana seguinte transcorreu normalmente, e Gabriel voltou a explorar a escola. Na outra sexta-feira, dia 23, interessou-se pelas salas da 3ª e 4ª séries. Ele entrava pelo meio da sala, batendo ritmadamente seu peito e sua nuca com algum objeto (tampinhas, vidrinhos...). A criançada olhava para ele e ria. Mais um parêntesis. No método Montessori, não há, propriamente, aulas. A professora forma uma roda com as crianças e conversa sobre alguns temas. Não há carteiras para todos. Há tapetinhos, estantes com material didático, específico, como o material dourado, ou não (daí o porquê de eu levar as amostras de rochas). À medida que o dia avança, enquanto uns lancham, outros fazem os exercícios dos livros, pedindo ajuda da professora ou de algum colega. As salas são interligadas, e duas professoras atendem cada agrupamento. Um dia, é a professora de Ciências e Matemática; outro dia, a professora de História, Geografia e Português. Assim, Gabriel entrar no meio da sala não interrompe as atividades.Conversei com Renata, a professora de Ciências da 3ª e 4ª séries, e pedi para explicar para os alunos porque Gabriel é diferente. No final da manhã, ela e Luciana, a outra professora, reuniram suas duas turmas e comecei a falar de Gabriel e autismo. Do porquê dele ficar se batendo, de andar, de não conversar... Veio a pergunta: -"Então ele é especial?" -"É, ele é especial?" -"Aaaaahh..." -"Ele aqui também é autista!" - quem falou apontou para o colega do lado, que concordou - todos, muito sérios. (O garoto, realmente, tem jeito de ser ásperguer.) Na semana seguinte, Gabriel conviveu com a turma que tem seu tamanho e se aproxima de sua idade. Houve pitis, ele chegou a dar uma cabeçada num colega, que aprendeu a tomar cuidado com os momentos de nervoso. Eles nos perguntavam: -"Posso falar com ele?" -"Pode!" -"O que é que eu falo?" -"Gabriel, você quer água?" -"Não!" -"Gabriel, você quer água?" -"Não!" -"Gabriel, você quer água?" -"Não!" -"Ele está ficando nervoso! Perguntem se está tudo bem!" -"Gabriel, tudo bem?" -"Tudo!" - e fazia o sinal de positivo com o dedo. Nova avalanche: -"Gabriel, tudo bem?" -"Tudo!" -"Gabriel, tudo bem?" -"Tudo!" o colega que, dois dias antes, levara a cabeçada, se animou: -"Gabriel, tudo bem?" -"Uáááárrrh!" - o garoto saiu de lado, rapidinho! Mas, nos dias seguintes, foi quem arrancou gostosas risadas de Gabriel, quando a meninada aprendeu a pedir: -"Gabriel, bate aqui!" e Gabriel bate na mão estendida, com um tapa e, depois, um soquinho ou um tapa, com as mãos erguidas. O menino acrescentou um gesto com o polegar e o mindinho estendidos, balançando a mão e falando alguma coisa que fez Gabriel rir muito. Teve, ainda o convite para uma festinha de aniversário no sábado - infelizmente, o radiador do carro ferveu e não pudemos ir. Ficamos, então, por um pouco mais de uma semana sentados, Mariene, Gabriel e eu, no passadiço que une as duas salas da 3ª e 4ª, onde ficam as mesinhas do lanche, escrevendo, escrevendo. Ele rabiscando, rabiscando - parecia imitar os demais meninos, parecia querer escrever, pacientemente treinando. Nossa esperança de que ele se enturmasse ia crescendo na medida em que a tinta de suas canetas se acabava. postado por: Argemiro Garcia 13.4.06 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
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