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Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
Clique para entrar na
Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Segunda-feira, Novembro 28, 2005

Domingão de chuva


Ai, ai, ai, ai, ai! Caiu a bicicleta!!!!
Gabriel joga a bicicleta no chão.

Ter animais em casa sempre é um problema a mais; temos de lembrar que precisam de cuidado: levamos Marquesa à veterinária no sábado, porque ela estava com o pelo caindo - felizmente, era apenas alergia: tome-lhe banho!

Dia 13 de novembro, domingo: na terça, eu voltaria a Ouro Preto. Era de tarde, um tempo meio chuvoso, Gabriel desceu para o PG (Play Ground) com Marquesa. Descemos atrás, Mariene e eu. Gabriel pediu:

-"Bicicleta! Buscar!"

Quando voltei, Mariene subiu, levando a cachorrinha. Fiquei com Gabriel. Mas ele não queria, em particular, andar de bicicleta: queria brincar com ela. Ele ainda se lembra da história que contei em 2002, quando fui atropelado no Rio por uma bicicleta, e gosta de empurrá-la para a frente, para vê-la cair:

-"Ai, ai, ai, ai, ai, caiu a bicicleta..." - consegui empurrá-lo um pouquinho, montado, mas ele tem medo de cair e voltou a

-"Ai, ai, ai, ai, ai, caiu a bicicleta..."

Isso é que é gostar de lasanha!
Gabriel, sentado em frente ao fogão, sem desgrudar os olhos da lasanha
Uns meninos do prédio, que regulam com ele em idade - Bela, Rafinha, Manu, ficaram olhando, divertidos. Já estão acostumados com Gabriel, embora nem tentem mais interagir com ele - a não ser que a gente insista. Comentei com eles:

-"Um dia, Gabriel aprende. Quando ficar maior, vai ficar mais fácil para eu empurrar a bicicleta." Eles riram e continuaram sua conversa. Mais um pouco, Gabriel enjoou e quis subir para almoçarmos.

De noite, fomos fazer compras no Hiperbompreço, Mariene, Gabriel e eu. Anda para cima, anda para baixo, ele pede:

-"Lasanha Brandini!!!"

Já era tarde, Mariene tinha trabalho para fazer, e avisou:

-"Não vou fazer lasanha, tenho que trabalhar."

Tentamos, então, pegar uma massa pré-cozida, da Brandini, mesmo, mas...

-"NÃÃÃÃÃÃOOOOOO! Lasanha Brandini!" - é, não teve jeito. Peguei um pacote de massa para lasanha. Acabamos as compras com Gabriel sentado no carrinho, no banquinho para bebês (aquele cavalão...), agarrado no macarrão, olhando como se fosse um relicário, lendo e relendo o rótulo.

Nem pisca!
Gabriel, sentado à mesa, sem desgrudar os olhos da lasanha
Em casa, Mariene foi para o micro enquanto eu punha duas panelas no fogo com água, para ganhar tempo e, para ganhar tempo, escorri a massa com água gelada. Montei a lasanha e taquei a travessa no forno. Pronto, agora era só esperar.

Gabriel sentou-se à frente do fogão, esperando a lasanha ficar pronta - lembrei de quado era pequeno e se sentava na mesma posição, mas gritando, sem entender como uma comida podia demorar tanto tempo para ficar pronta! Pedro chegou e ficou contente: é seu prato preferido. Começava "Sob nova direção", o programa da Globo, quando fui tirá-la do forno. Pedro ainda comentou:

-"Só falta o Leo aparecer com os amigos dele..."

A campainha tocou: Leo não estava com a chave, e chegava com William - um dos primos adotivos, um dos amigos que está sempre em casa. Não tive como não cair na gargalhada. Gabriel, de sua parte, apenas esperava seu prato, com os olhos grudados na travessa. Matou sua vontade de comer lasanha.

postado por: Argemiro Garcia 28.11.05

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Segunda-feira, Novembro 21, 2005

Vertigem


Na Comunidade Virtual Autismo no Brasil, algumas mães têm perguntado por causas para o seguinte comportamento de seus filhinhos autistas: em dado momento, a criança se abaixa e se põe a engatinhar.

Olha aí, gente: uma possível explicação é a tirinha a seguir, com o Gui, irmãozinho da Mafalda. Talvez fiquem com vertigem. Só isso. Tudo isso.
Gui sente vertigens ao se pôr de pé

postado por: Argemiro Garcia 21.11.05

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Domingo, Novembro 20, 2005

Jornada em Salvador


"RODA!!!"
Gabriel enrola o macarrão
Cheguei a Salvador na sexta-feira, dia 10, pouco antes da meia-noite. Assim, batia na porta de casa nos primeiros minutos do dia 11. Mariene abriu a porta, nos beijamos e Gabriel saiu nu do banho, confirmou que era eu e voltou para o quarto. Veio com um short:

-"Veste!" - Pedro veio me dar um abraço e Leo continuou dormindo.

Na manhã seguinte, íamos à Petrobras, para a Jornada PAE (Programa de Assistência Especial), que acontece todos os anos. Logo que acordamos, avisei Gabriel:

-"Vai se aprontar, que vamos à Petrobras! A Ramona e o Zezinho estão lá."

Yuri, com o microfone, na mesa-redonda.
mesa-redonda
-"Sala do moço!" - no ano passado, ele e eu rodamos todo o EDIBA (Edifício da Bahia), por conta de seus ímpetos exploradores. Já dava para prever novas jornadas, perigosamente indo aonde nenhum outro menino autista jamais fôra...

Chegamos ao prédio da Petrobras - os seguranças comentaram que estavam sentindo a falta de Gabriel na Jornada deste ano. A apresentadora era Juliana Oliveira, que apresenta o Programa Especial na TVE. Tendo sofrido um acidente de carro, ficou tetraplégica, mas não se entregou; uma simpatia, sempre sorridente , levou a jornada com leveza.

Então! Cadê que Gabriel aceitava entrar no auditório? Rumou direto para os elevadores. Ainda aproveitei para ir à secretaria da minha gerência, entregar os papéis da viagem, bem que ele quis ir à sala do moço, mas insisti para que fôssemos ao auditório. Rolava uma mesa-redonda onde um advogado com forte deficiência visual, única pessoa de Salvador a usar um cão-guia, discorria sobre seu projeto de montar uma escola para cães-guia para pessoas de baixa renda. Outra moça, também deficiente visual, e Yuri, estudante de jornalismo e trabalhador terceirizado da Petrobras, contratado através de convênio com a ABADEF (Associação Baiana de Deficientes Físicos), que tem paralisia cerebral e cuja mãe, Cristina, foi a introdutora da equoterapia na Bahia, completavam o debate.

Gabriel, no entanto, não estava nem um pouco interessado no debate. Chantageava-me, ameaçando gritar; não consegui avisar Mariene aonde iríamos e acabei levando-o para o restaurante a quilo que funciona na empresa, onde peguei um prato de espaguete para ele. Sentamos junto com Tania e sua filhinha Ully, a outra bagunceira da Petrobras. Ully tem síndrome de Down e é ainda mais paparicada que Gabriel, quando aparece pelo EDIBA (Edifício da Bahia). Ao me ver enrolando o macarrão no garfo, Gabriel falou um:

-"Roda!" - aproveitei para estimulá-lo mais um pouco a usar os talheres. O danado tem preguiça de usá-los em casa, mas quando comemos fora bem que se comporta direitinho - ou quase.

Ully e Tania tietando Juliana
Juliana, Ully e Tania
Acabou o macarrão; enquanto eu me desesperava para pagar as comandas, Gabriel lavava as mãos e saía para as catracas do restaurante. O problema é que ele se sente superconfiante em ambientes que conhece - e o EDIBA, definitivamente, ele conhece. Tive que acompanhá-lo ao quinto andar, onde nos dirigimos à gerência de Recursos Humanos - eleita, este ano, a melhor sala do moço. Mostrei a ele:

-"O que está escrito aqui, Gabriel?"

-"Recursos!"

-"E aqui?"

-"Humanos!"

Ficamos, então, das 12h30 às 2 da tarde, com ele me fazendo ditados e "conversando" com as pessoas:

-"Qual o seu nome?"

-"Leonardo!" e, depois, para mim:

-"Tiago Ruter chorou chorou.
comeu biscoito e se engasgou!

-"Desenhar Tiago Ruter! Guóóóóóó! COF COF COF!"
- Lá ia eu desenhar o Tiago, escrevendo as onomatopéias do seu engasgo. A história continuava:

-"Desenhar outro Tiago Ruter! Tá vomitando! GUÓÓÓÓÓÓÓ! Vômito no chão!"

Gabriel queria mesmo era ir para os Recursos Humanos!
Juliana e Gabriel
-"Sua Larissa chorou chorou.
comeu biscoito e se engasgou!

-"Desenhar Larissa! Guóóóóóó! COF COF COF!" (cabe aqui uma explicação"Sua Larissa porque, para ele, o feminino de Seu - diminutivo de Senhor - é Sua, e não, Dona. Lógico, não?

"Desenhar outra Larissa! Vomitando! GUÓÓÓÓÓÓÓ! No chão!"


Olha, haja paciência... Quando deram duas horas,decretei:

-"Vamos descer, Gabriel! Quero falar com a Mamãe!" Não teve protesto que me demovesse da idéia. Pegamos o elevador, com ele reclamando:

-"UÁÁÁÁÁÁÁRH!"

Uma mocinha, trabalhadora terceirizada, passou do nosso lado, falando baixinho:

-"Idiota..." - bom, sabe como meu pavio é curto:

-"Vai, Gabriel, pára com isso! A moça já está chamando a gente de idiota!" - claro que ela ouviu, e veio tomar satisfação:

-"Eu não estava falando do senhor, viu!!!"

-Certo, então, me desculpe, mas... - ela virou as costas e saiu, me deixando com cara de tacho, como dizia meu pai. E Gabriel?

-"UÁÁÁÁÁRH! Quero Recursos! Recursos!"

Mariene ainda tentou tirá-lo do auditório, para que eu pudesse assistir aos números da Via Ponte, mas não teve jeito: tentamos levá-lo para o estacionamento, mas a manha continuava... Uma colega me propôs que eu mentisse para ele, e o levasse para sua sala, mas expliquei que ele não se deixava enganar. ela não acreditou muito, porque não concebe a memória espacial que um menino autista pode ter.

No final ,como eu estava há tanto tempo longe, peguei-o e fomos para casa, deixando Mariene a acompanhar os trabalhos da Jornada.

Fomos ao Hiper, conversamos com Dora, baiana de acarajé, mãe do Felipe, também autista, e partimos para casa.

Uma pessoa comentou com Mariene que nunca a tinha visto sendo tão dura com Gabriel. É... o caso é esse: o sapeca tem gênio forte, sabe o que quer, e temos que acertar o ponto certo, para educá-lo sem cerceá-lo. Quem só nos vê uma parte do tempo, não sabe tudo.

postado por: Argemiro Garcia 20.11.05

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Segunda-feira, Novembro 07, 2005

Visitando as amigas


De Zoraide, escrevo vez por outra. Amiga de Mariene de muito tempo - conhecem-se das reuniões da FENAJ e outros encontros de jornalistas. Quando mudamos para Salvador, acabaram por se reencontrar, e viramos "vizinhos".

Gabriel a adora, e não é por morar na Barra, bem do lado da praia. Nem porque ela tinha um liquidificador Flash. É porque gosta, mesmo, dela e da irmã, Zildi.

Zildi é a segunda das seis irmãs, se não me engano. Quando criança, mais ou menos aos 8 anos, desenvolveu uma atrofia muscular que lhe tirou quase todos os movimentos. Hoje, com mais de 60 anos, é uma mulher feliz, muito feliz. Curte as irmãs, os sobrinhos... Adora Gabriel, e ele sempre pergunta por ela.

Há dias, Gabriel vem pedindo a Mariene:

-Casa de Zoraide! Casa de Zoraide!

Ontem, domingo, ela o levou à visita. Não é que ele ficou por lá??? Isto é... Mandou a mãe para o supermercado e não quis ir com ela. Bem que Mariene tentou levá-lo à praia; Idalina tentou levá-lo à sorveteria: nada! Ele ficou brincando - do jeito dele - pela sala, com Zildi esticando-se toda para espiá-lo, e rindo, como ela ri! Balbucia:

-Gh...bié - são amigos, com certeza.

postado por: Argemiro Garcia 7.11.05

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Sábado, Novembro 05, 2005

Gabriel no msn

Estando eu em Ouro Preto e a família em Salvador, a gente fica procurando formas de diminuir os custos da comunicação. Numa família de internautas, era óbvio que apelaríamos para a internet. Acontece que o nosso micro tá baleado - a placa de som pifou faz tempo. Então, fizemos um trato com Leo e Pedro: o micro deles serviria de telefone.

Para piorar, Leonardo gosta de dormir cedo - ou fica pendurado no msn - e, nos dois casos, ninguém chega perto do quarto dele. Conseguimos convencê-lo a dormir no nosso quarto; Mariene e Gabriel foram para o quarto de Pedro e Leo e este último foi dormir na nossa cama, mas... Mariene fuma e nosso quarto é defumado com incenso daí que Leo fica reclamando, reclamando...

Estava eu no msn, um desses dias, teclando com Leonardo - já tinha voltado a Ouro Preto, depois de uma rápida estada em Salvador (tinha sido quase uma visita). Acionamos a comunicação por voz e começamos a conversar. Quando Leo chamou Mariene e Gabriel, o pequeno começou a rir. Primeiro, ficou deitado na cama do irmão, só ouvindo nossa conversa. Depois, se dirigiu ao teclado e começou a brincar. Temos a brincadeira das palavras proibidas. Ele inventou a palavra sepocalício, que é o "correto", mas brinca de "errar", falando ou escrevendo "sebocalício". Nós, então, ficamos "bravos":

"Nãããoooo! Sebocalício nãããoooo! O certo é sepocalício, menino! Você me deixa furioso, feroz, irritado, nervoso, bravo, furibundo..." a lista de sinônimos cresce, enquanto ele ri às gargalhadas.

Então, ele solta outra:

-"Esse, é, pê, ó, pê, í!"

-"SEPOPI!!!??? Você disse SEPOPI? Que história é essa, menino? Você sabe que é errado, que não pode!" - e ri, ri...

Depois, se pôs a escrever aguaviva - lembranças do acidente que teve em Ipitanga no dia 19 de junho de 2004 (Post Ai, minha coxa!), quando se queimou com uma água-viva.

E eu, de Ouro Preto, falando:

-"Nãããooo! Água-viva é perigoso, isso queima, rapaz!"

Aos poucos, ele se desinteressou e voltou para a sala.

postado por: Argemiro Garcia 5.11.05

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