Canto de Anjo |
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Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
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Quarta-feira, Setembro 21, 2005 Limites?
Gabriel andou pra cima e pra baixo, entrou no saguão onde se dava a abertura do Fórum. Deitou no sofá do hall do hotel. Uma pessoa veio me dizer que eu devia dar limites ao Gabriel; como era a terceira vez que nos víamos - e a terceira vez que ela me dizia isso, estourei: -"Escuta aqui, 'X': limite é uma coisa que depende da família, da cultura e da região." Nervoso, eu queria dizer que a educação no Nordeste é diferente da educação paulista, mas não é melhor nem pior. As crianças baianas podem parecer mal-educadas para uma pessoa de São Paulo, mas sabem se comportar em sua sociedade e são integradas a ela. No Nordeste, as crianças são criadas de uma forma mais parecida com o jeito dos índios, com mais direito a dar sua opinião - em particular, na Bahia. Mesmo assim, acho que me excedi. Não precisava ser tão rude. Talvez ela só estivesse querendo ajudar.
Algumas pessoas deram razão - direta ou indiretamente - às palavras que me foram ditas; outras, ficaram do meu lado. O fato é que me irritei quando vi as pessoas olhando para Gabriel, enquanto ele andava pelos corredores, com seus objetozinhos, batendo na cabeça. Chamei-o para sair do salão; a resposta? -"Uãããã!!!! Eu não quééééééro sair!" Não havia como tirá-lo de lá. Aquele monte de gente, Jobson e Thiago cantando com Alexandre Costa, um palco! Tudo isso o chamava para dentro da sala. Fiquei magoado, e desabafei com Fátima Dourado, que ficou muito preocupada comigo. Tentou me acalmar, lembrando que aquele era o espaço para os autistas, e que nem todo mundo compartilha da nossa forma de ver a questão. No fim, ficou a dúvida: que tipo de limites se deve dar a um filho? Como explicar a uma pessoa autista o que é aceito na sociedade? Nesse ponto, Mariene e eu estamos de acordo: nosso papel não é dar limites, mas orientar. postado por: Argemiro Garcia 21.9.05 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Segunda-feira, Setembro 19, 2005 Fórum de Fortaleza - amigos da diferença
Peguei a chave do quarto e subi. Mariene dormia em uma cama de solteiro que estava encostada a outra; Gabriela ocupava uma terceira. Eram duas e meia da manhã. Eu já estava na "estrada" há quatorze horas - saí de Ouro Preto na ssegunda-feira à uma hora! Gabriel acordou, deu um baita sorriso luminoso e voltou a dormir. Acordamos quase atrasados. Tomamos café às pressas, encontrando grandes amigos: Hélder e Breno, Jobson e o pai, Marias Helenas (de Minas e do Piauí), e muito mais gente. Ramona, para felicidade do Gabriel, também estava lá. Avisamos a ele que iríamos conhecer a Casa da Esperança. Entramos no micro-ônibus e rodamos a cidade. Chegando à Casa, Gabriel resolveu ter fome. Mariene, previdente, tinha levado uma bolsa de salgadinhos, biscoitos, etc etc. Conseguimos emprestada uma caneca e ele pegou café, água... Realmente, é um lugar muito agradável, e a turminha mostra que se sente bem, lá. A custo, convenci-o a irmos para a apresentação no auditório, que se pôs a andar de um lado para o outro no auditório, enquanto Alexandre Costa expunha alguns dados sobre a Casa. Alexandre saudou-o: -"Tudo bem, Gabriel?" e Fátima perguntou: -"Esse é o Gabriel?" ao que ele respondeu: -"É claro! Também, você não navega na internet, não fica conhecendo as celebridades do mundo autístico!" Mas o menino, mesmo, não queria saber de onda. Saiu de novo e cismou que queria experimentar o sanduíche que estava à espera do público do auditório. A senhora que arrumava a mesa achava que devíamos esperar, mas Alexandre Mapurunga autorizou que ela o servisse. Nisso, um orelhão dentro da casa tocou. Gabriel tirou o fone do gancho e Mariene lhe disse: -"Fala, Gabriel: Casa da Esperança, bom dia!" - não é que ele atendeu? -"Casa da Esperança, bom dia!" - direitinho! Mas nem tudo são flores. Para ele, a visita estava feita. O próximo passo era... "Pra-iá! Quero pra-iá!" Avisamos a T.O. (terapeuta ocupacional) que nos acompanhava - e que tinha tentado de tudo: cama elástica, piscina... e partimos para o ponto de ônibus. Ainda passamos pelo centro da cidade, onde comprei uma sunga, e voltamos para o hotel e, de lá, para a prá-iá! Depois conto mais. postado por: Argemiro Garcia 19.9.05 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
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