Canto de Anjo |
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Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
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Sexta-feira, Abril 29, 2005 MédicosDia 8 de março, no meio de tanta atribulação, resolvemos levar Gabriel a uma psiquiatra. Dois anos depois da experiência com a consulta com o Dr. Salomão e a Risperidona.A Dra. Conceição, Maria da Conceição Rosário-Campos, é psiquiatra que muito tem trabalhado com autismo. Depois de formada, foi para São Paulo, onde ficou 8 anos. Depois, mais 3 nos Estados Unidos (se eu não estiver enganado) e voltou para a Bahia. A conhecemos no Simpósio Baiano de Autismo de abril de 2004, promovido pelo INESPI. O consultório fica no bairro da Graça. Preenchi a ficha, enquanto Gabriel se divertia no hall com Mariene, ia ao banheiro, perguntava "Qué isso aqui?". Por fim, entramos para falar com a Doutora. Doutora. Foi assim que Gabriel a chamou o tempo todo. Enquanto conversávamos, Gabreil andava para lá e para cá, batendo um objeto, nem lembro o que era, contra o peito. Dra. Conceição perguntou: -"Ele não fica com o externo machucado?" Chamei: -"Gabriel, vem cá. Deixa eu levantar sua blusa." Mostramos que não, nem mesmo vermelha sua pele fica. E Gabriel me botou para desenhar e escrever: -"Doutora machucou o braço no ferro! Coitada da Doutora! Vamos fazer curativo no braço?" Quase uma hora de consulta. Tempo de sobra para avaliar o guri. Contamos da experiência com o Risperdal, de como ele ficou hiperativo com 0,5 mg e depois, com 1,0 mg, ficou prostrado e pôs sangue pelo nariz. Falamos de tudo o que temos feito. Discutimos a dieta do glúten. Ela perguntou, no final: -"Gabriel está muito bem, vocês têm feito tudo o que é possível. O que vocês gostariam?" Respondi: -"Eu gostaria de tentar a Risperidona de novo." Mariene se opôs: -"Você estava no Rio, não viu como ele ficou. Ele ficou muito mal, mesmo." Completei: -"O caso é que não tem outro remédio para autismo." Dra Conceição respondeu: -"Tem outro." Concordei com ela, mas questionando: -"Sim, tem a Ritalina, mas tem muito efeito colateral." -"Mas todo remédio tem efeito colateral, isso a gente faz o acompanhamento. Vocês pensem e tornem a me ligar." Gabriel, que já tinha corrido para o elevador, voltou depois que Mariene perguntou se ele não ia se despedir da Doutora. Entrou na sala, onde eu ainda ocnversava com a Dra. Conceição e soltou um -"Tchau, Doutora!" A meu pedido, ainda deu a mão para ela, que sorriu. Em casa, fizemos uma assembléia do lar. Os três irmãos foram unânimes: vamos continuar sem remédio, porque ele está bem. Fiquei meio sem chão. O que fazer se uma especialista diz que estmaos fazendo tudo certo? A quem recorrer? Estamos, ainda, devendo a resposta para a Dra Conceição. Espero que ela não leia antes de eu ligar para ela. Ontem, quarta, dia 27 de abril, cheguei em casa. Mariene fez parte do júri do Prêmio OAB de Imprensa. Estava preocupada, porque Gabriel tinha chegado para ela e dito: -"Qué isso aqui? Orelha! Qué isso aqui? Ouvido! Meu ouvido está doendo!" Eu vi ele pôr o dedo sobre o ouvido direito e dizer, baixinho: -"Ai..." -"Que é que a gente faz, Miro?" -"A gente te leva na OAB e eu vou com ele para o Hospital. Não precisa se preocupar. Qual eu devo ir?" -"Vai para o Santa Isabel, que tem pronto-socorro de otorrino." Assim fizemos. No banco de trás, Gabriel gemia um pouquinho. Deixando Mariene na OAB, tocamos para o Santa Isabel. Gabriel já é carta marcada também ali. A avó fazia radioterapia no hospital e ele é conhecido dos enfermeiros. Também na época da Risperidona, quando ele pôs sangue pelo nariz, o primeiro lugar a que fomos foi justamente ali. Ele foi direto para o PS. Ninguém estava sendo atendido. O Dr. Leonardo Matias estava de plantão. Dei-lhe um folder sobre o Gabriel, que ele folheou. Preenchida nova ficha, fomos para o consultório. Gabriel não queria entrar, e precisei carregá-lo por baixo dos braços. Ele estava preocupado, mas não estava com medo. Riu quando o carreguei. O Dr. Leonardo foi muito atencioso. Tocou o ouvido esquerdo de Gabriel e perguntou: -"Então, Gabriel, qual está doendo? É esse daqui?" e depois tocou o ouvido direito: -"ou é o de cá?" E Gabriel respondeu: -"De cá!" Claro que fiquei derretido. Gabriel, hoje, já consegue se explicar para o médico! Observando, mesmo a olho nu, o médico constatou que era uma otite no ouvido médio, conseqüência da gripe que tinha feito Gabriel faltar à Via Ponte na segunda-feira. E disse estar preocupado com Gabriel desenvolver uma sinusite, ou a otite piorar e romper seu tímpano. Expliquei que Gabriel não toma remédio via oral. Da última vez, ainda em 2003, no caso da infecção de nariz que se seguiu à hemorragia que acompanhou a Risperidona (não estou afirmando que há uma relação de causa-e-efeito, mas que parece...) Pedi um antibiótico injetável. Doutor Leonardo, então, explicou que na maioria dos casos as bactérias da otite são vencidas com o antibiótico Frademicina. Só se fosse Haemophillus influenza (só no Google para se achar como se escreve isso) o remédio não faria efeito. Receitou-o e pediu que voltássemos amanhã, sexta-feira. Saímos de lá e deixei a promessa de mandar o texto Autismo infantil x surdez por e-mail - que já cumpri. Contente, Gabriel saiu gemendo baixinho e pedindo: -"Pernil! Quer dar injeção no pernil!" Passamos na farmácia, ele já levou a primeira picada. Protestou um pouco - hoje, protestou mais. Mas encarou bem a agulha. Bom... "encarou" não seria o termo mais adequado, né? De lá, fomos ao Hiperbompreço, onde compramos uma garrafa de vinho, um pernil e uma seringa de injeção. -"Coragem, Pernil! Coragem!" postado por: Argemiro Garcia 29.4.05 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Sábado, Abril 23, 2005 Passo pintando porta, parede, portal Nossas paredes passaram um ano decoradas com as artes de Gabriel. Ele usou e abusou da tinta guache. Também abusou da nossa paciência. Às vezes, de brincadeira, falava cantando:
-"Passe cola na parede!" esperando a nossa resposta: -"Nada de cola na parede, moleque! Cola é no papel!" -e ria, como ele ria! Recentemente, Leonardo desabafou que não agüentava mais as paredes daquele jeito. Tinha vergonha. Traz apenas os amigos mais próximos para casa. Mariene, então, pediu tinta, também. Compramos uma lata de tinta latex branca. Na sexta-feira santa, Gabriel e a mãe se puseram a pintar a casa. Até Leonardo gostou do resultado! Além de jornalista, Mariene agora descobriu outra vocação. A pintura na parede cumpriu seu objetivo. Gabriel soltou a mão e já faz alguns desenhos. Escreve bastante, embora só use os normógrafos. Enfim, um ano passou depressa. postado por: Argemiro Garcia 23.4.05 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Segunda-feira, Abril 18, 2005 FonoaudiologiaSexta-feira, dia 15 passado. No consultório de fonoaudiologia de Célia, Gabriel não quis entrar sozinho: -"Venha, pai!" e me pôs para desenhar o caminhão de lixo: "Desenhar caminhão de lixo!?!" - com seu sotaque autista bem cantado, subindo na última sílaba. Foi asism que a sessão de fonoaudiologia contou com a minha participação: -"Célia machucou o braço no ferro! Desenhar Célia!" e, apontando para Célia: "Fez..." -"Ai!" respondia Célia. Quando Gabriel me põe para desenhar, não invento muito, só vou seguindo as instruções dele. Mariene acrescenta elementos, constrói a historinha toda - e Célia me recomendou fazer como ela. -"Lucas Bastos tá doente! Desenhar Lucas Batos! Desenhar dentista! Desenhar furadeira de dente! Fez..." -"Rrrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiii!" -"Lucas Bastos chorou! Desenhar lágrima!" Comecei: -"Aonde Lucas Bastos se machucou? Foi na Via Ponte?" -"Via Ponte!" - e eu continuava, sempre tentando acrescentar novos elementos. Quando ele voltou a falar do braço de Célia, ela explicou que precisou fazer um curativo porque se queimou no sol, e não no ferro. Perguntei: -"Gabriel, quem foi que queimou o braço no ferro, que nós encontramos em Feira de Santana? Foi a Ja..." -"...íra!" - Jaíra é sua prima, filha do irmão de Mariene. Há cerca de um ano fomos a Feira de Santana buscar a sua avó, que meu cunhado trazia de Central. Daquela vez, quando Jairo comentou que a filha tinha se queimado no ferro, Gabriel ficou empolgado. Umas duas semanas atrás, quando o programa Na Carona, da Rede Bahia, mostrou Feira de Santana e eu perguntei quem tinha queimado o braço quando fôramos buscar minha sogra, ele se lembrou que era Jaíra quem tinha se machucado. Aproveitei, de novo, para reforçar as lembranças e construir a historinha. O jogo prosseguiu, falando de braços queimados e quebrados, dentes machucados, furadeiras de dente... Além da Culinária, a Enfermagem é outra vocação de Gabriel. postado por: Argemiro Garcia 18.4.05 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Domingo, Abril 17, 2005 BichinhozzzzSempre que vejo uma novidade, mostro para os filhos - ou para qualquer pessoa próxima. Gosto muito de descobrir as pequenas coisas da vida - alma de poeta, ou olhos de geólogo?. O fato é que sou muito observador, "de nascença" e de profissão. Sexta-No mesmo dia 15, quando já saíamos do consultório de Célia Thomé, "nossa" fonoaudióloga, reparei em uma libélula "enorme" na parede. Falei a Gabriel: -"Olha, Gabriel! um bichinho! Olha! um bichinho, Gabriel! chama libélula! Éle, i, bê, é, éle, u, éle, a! OLHA, GABRIEL! Que bichinho é esse?" Visivelmente entediado, respondeu: -"Libélula!" E começou a cantar, improvisando no ritmo de Água Mineral, a música do Carlinhos Brown:
Olha o bichinho, olha o bichínhu-u, Á o Miro-ô tá legal!" Não tive como não cair na risada. Ontem, sábado, dia 16, depois de muitas peripécias em um dia estafante (que suadouro Gabriel nos deu!), acabamos a noite no Hiperbompreço. Achei no chão uma borboleta azul, velhinha, com as asas esfarrapadas, do gênero Morpho, daquelas que têm um par de olhos de coruja desenhado na parte de baixo das asas. Por essa Gabriel se interessou, pegando-a na mão e se deixando fotografar. Acabou jogando a pobre pra cima e dizendo: -"Vua, Borboleta! Vua!" Depois de umas três ou quatro tentativas de "decolagem", eu lhe pedi que deixasse a borboleta descansar, porque já era de noite. Feliz, ele a deixou sobre uma prateleira - e fomos para casa. postado por: Argemiro Garcia 17.4.05 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Sexta-feira, Abril 15, 2005 Parque da CidadeNa sexta-feira passada (puxa! já faz uma semana!) fomos à casa de Zoraide, nossa amiga que mora na Barra, para visitar sua irmã mais velha, Zildi. Ela teve um distúrbio degenerativo aos oito ou dez anos de idade e tem vivido há uns cinqüenta anos encolhidinha numa cama assistindo televisão e o carnaval pela janela. Zildi adora Gabriel, e ele sempre pergunta por ela. Ela se diverte muito e abre um sorrisão quando o vê. Mas Gabriel estava interessado no liquidificador Flash. O interesse era tanto que nos fez passar, antes, no Hiperbompreço perto do Shopping Center Barra para comprar polpa, já pensando nos sucos que faria. Infelizmente, o Flash estava quebrado. Bem que Gabriel tentou nos convencer a usar o aparelho, um processador de alimentos que "achou" no armário. Mas conseguimos demovê-lo da idéia e ele se despediu beijando a bochecha de Zildi; Zoraide ficou sem beijo. No sábado, houve a Feira da Agricultura Familiar. Mariene ajudou a organizar. Lá fomos nós. Chegamos ao Parque da Cidade, mas Gabriel protestou bastante. Queria ir para outro lugar, mas não dizia (não conseguia?) explicar-se. Talvez só quisesse, mesmo, sair sem destino. Com pouco dinheiro no bolso, propus-lhe passarmos no banco, mas ele também não quis. Fomos, então, ao Habib's - quem sabe ele queria uma esfirra? Nada disso! Pediu uma fanta - que não tomou - e encostou para ver os liquidificadores. Quando enjoei, chamei-o para ir ao Hiperbompreço. Na fila do caixa eletrônico, mais estresse pro meu lado. Havia três seguranças armados até os dentes, colete à prova de balas, escopetas nas mãos para reabastecer as máquinas. Cadê que Gabriel aceitou sair de perto. Não é por nada, mas acredito que muito dinheiro e armas em um lugar movimentado é uma... mistura explosiva. Gabriel, despreocupado, encostou no Banco 24 Horas e se pôs a brincar com o teclado. Como não viramos notícia, dá para saber que não foi dessa vez que presenciamos um assalto, não é? Reabastecidos nossos bolsos, Gabriel pediu lasanha com farofa - tem gosto pra tudo! - no restaurante a quilo da Praça de Alimentação. Pediu ainda pastel, pediu "água mineral natural", pediu, pediu, pediu... Até que dei o basta. E consegui que voltássemos ao Parque da Cidade.
O tempo passou e acabamos voltando pra casa, onde Mariene e eu desmaiamos de cansaço, depois de eu ter bronqueado com as exigências de Gabriel, que queria voltar para a rua. No domingo, voltamos ao Parque da Cidade. Dessa vez, mais descansado, tive mais pique para andar com Gabriel. De cara, o trenzinho. O Parque da Cidade, dizem, era o pomar da Fazenda Pituba, que pertenceu a Manuel Dias da Silva. Tem muitos pés-de-fruta, e deu para treinar os nomes das árvores: -"Gabriel! Olha um pé-de-jaca! É..." -"Jaqueira!" O trenzinho subiu por uma drenagem, que é omco nós geólogos nos referimos aos vales, principalmente se são pequenos e têm um riachinho meio tímido correndo no fundo, daqueles que não têm muita água, a não ser que chova... Junto à nascente, um amontoado de terra represou a água e formou uma lagoinha. Brinquei: -"Gabriel! Olha a lagoa do sapo!" E cantarolei: "O sapo não lava o pé! Não lava porque não qué..." Do nosso lado, ia uma mãe com sua filhinha de uns três anos, menininha bem tagarela. Percebi que a mãe olhava para Gabriel com curiosidade, mas deixei pra lá. Não dá para dar aula o tempo todo e esquecer de viver. O trenzinho voltou. Encontramos Mariene e um homem risonho veio falar conosco: -"Oi! Vocês não eram da Escola Novo Mundo?" Era Gilmar, pai de Rodrigo, o "outro" autista da escolinha, onde os dois ficaram, por indicação da psicóloga, pelo ano 2000. Os dois eram muito rejeitados pelas outras crianças. Rodrigo agora tem uma irmãzinha, Ana Paula, de cinco anos. Eu a tinha visto na barriga da mãe! Estavam, ambos, no pula-pula, e Gabriel também entrou. Gilmar explicou que o filho, agora, toma Risperdal. Gostei de ver o menino, que agora consegue se comunicar um pouquinho: pede para entrar no pula-pula, para ir embora... Ter uma irmã, contou o pai, lhe fez muito bem. Trocamos telefones, e-mails e nos despedimos. Gabriel pediu: -"Quero sapo! Quero sapo não lava o pé!" Mas, com fome, resolveu atacar a bóia do pessoal da Feira, ganhando um prato de arroz com feijão e carne - com farofa, claro! Quanod decidimos ir embora, levei as compras para casa (É claro que, de uma feira de agricultura, a gente ia levar para casa um monte de alho, pimentão, abobrinha...) Mariene ficou para trás. Voltei para procurá-la e Gabriel desviou, indo parar nos brinquedos do Parque. Encontrei-o em uma estrutura de madeira e cordas, lá em cima - de onde desceu para irmos ao outro lado do parque, perto da Lagoa do Sapo. Pidão, Gabriel ainda quis um picolé Capelinha, de R$ 0,50 e entrou em outro pula-pula. Desabou uma tempestade. Acabamos voltando para o carro encharcados. Mariene se reuniu a nós e voltamos para casa. postado por: Argemiro Garcia 15.4.05 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Terça-feira, Abril 05, 2005 Que cocô!Gabriel tirou o domingo, dia 3, para se sentir livre. Acordou e veio com um papo diferente: -"Francesa! A Francesa, pai!" Pensando que ele queria ir para a padaria, me troquei er separei sua roupa. Nada. Foi para a cozinha e fez um copo de Nescau. Pediu pão com manteiga na chapa. Nem fez menção de sair. Peguei um livro: de vez em quando, lá vinha ele: "Francesa, pai!" Acabou descendo para o PG. Queria, mesmo, me botar pra fora de casa. Passou o tempo regulamentar que o deixamos lá embaixo sem ir fiscalizá-lo, desci. Do monitor de vídeo da portaria, deu para ver que estava no elevador do Edificio Porto Seguro. Chamei o elevador e... cadê ele? Prédio errado, eu tinha ido para o Porto Belo! Me adiantei para o Porto Seguro e algumas crianças me contaram que ele ainda estava no elevador - parado na garagem. Desci a tempo de ver que um faxineiro tinha acabado de soltá-lo: o porteiro tinha visto que Gabriel estava com a mão presa na porta! Felizmente, nada grave tinha acontecido, mas chamei muito sua atenção. De tarde, fui com Leo ao Shopping Iguatemi, comprar um tênis. Na volta, os padrinhos de Gabriel tinham nos visitado mas já tinham ido embora. Mariene me contou que Gabriel tinha se isolado e feito cocô na calça, indo tomar banho em seguida. Coisa chata, mas... Gabriel vestiu apenas uma sunga e desceu. Leonardo também desceu. Toca o telefone: -"Pai, não é mais pro Gabriel descer sozinho! Ele está com a sunga toda melada, e tirou a roupa no meio do PG! Mandei ele subir! Não é mais para ele descer sozinho!" -"Escuta aqui, mocinho! Se você quer que ele desça acompanhado, faça sua parte!" Bati o telefone para receber Gabriel, que subiu aos berros, vestido na sunga suja. Botei-o no chuveiro. Leonardo ligou de novo e Mariene atendeu. Disse a ela que o mandasse subir. Conversamos. Lembrei a Leo das dificuldades de Gabriel entender regras sociais. Comentei que ele devia estar com alguma disenteria e, por não entender certos valores, acaba aprontadno dessas: precisa tirar a roupa, tira! De sua parte, Leo foi se acalmando e explicou que parte de sua irritação era porque algumas meninas do seu colégio tinham ficado rindo da janela. Concordou em cuidar mais de Gabriel, mas é difícil; nesse ponto, Pedro esquenta bem menos a cabeça e acaba rindo de situações assim. Nisso, Gabriel saiu pelado do banheiro e protestou muito ao levar outra bronca: "Gabriel, não pode ficar pelado lá embaixo!" Acabamos por levá-lo para passear; fomos à Sorveteria Cubana, no Centro Hist´rico, bem do lado do Elevador Lacerda, onde os balconistas riram: fazia tempo que Gabriel não aparecia por lá. Gabriel pedia um casadinho, mistura de massa de brigadeiro com massa de beijinho, mais um brigadeiro e sorvete. Mariene e eu avisamos: -"Só um, Gabriel." Encostado na geladeira, perguntou a um dos rapazes: -"Qual é o seu nome?" -"Jean". Daí, apontou para outro balconista e tornou a perguntar: -"Qual é o seu nome?" Mas acabou pedindo para trocar o casadinho por um brigadeiro. Já de volta para casa, no Hiperbompreço, ouviu a mãe comentando que precisávamos comprar carne moída, porque Leo gosta. Ao chegarmos na fila, veio conferir no carrinho: -"Carne moída?" - que ele não aprecia nem um pouco. Mariene comentou, dando-lhe um beijo: -"Agora, quer agradar o Leo?" postado por: Argemiro Garcia 5.4.05 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Sábado, Abril 02, 2005 Minha canela está doeeeeeinnnndo!Ontem, dia 1° de abril, Mariene foi a uma reunião do PT. Quando chegamos, Gabriel e eu, do consultório de Célia Thomé, fono, ela já não estava em casa. Ele pediu: -"Dinheiro!" - sempre que dá a hora de Ana voltar para casa, ele quer logo lhe dar o dinheiro da passagem, para garantir que Mariene e eu não vamos deixá-lo com ela para podermos sair. Mais tarde, tivemos um arranca-rabo. Ele queria deixar o volume da TV abaixado a zero, enquanto me fazia seus ditados - como é de nosso costume, sentamos à mesa da sala e ele recita frases, letras de músicas e outras expressões, que nós escrevemos e ilustramos com desenhos. Assim: -"A COBRA NÃO TEM PÉ! Desenhar cobra!" Desenho uma cobrinha ao lado do texto. As palavras têm de sair em letra de fôrma maiúscula. -"A COBRA NÃO TEM MÃO COMO É QUE A COBRA SOBE NO PEZINHO DE MAMÃO. Desenhar pezinho de mamão!" Também aqui ele inovou. Esta cobra subia no mamoeiro, e não no limoeiro. -"Desenhar eucalipto!" Ri: -"Não, Gabriel. Não é eucalipto. É o caule. Vou desenhar o mamão, também, olha!" A gente sempre aproveita para acrescentar algum conhecimento novo e, nestas brincadeiras, as partes das árvores começam a ter nome. Acontece que começou o Jornal da Band. Gabriel Pinheiro, nosso genro, estava ao vivo cobrindo a vigília dos católicos pela saúde do Papa. Fiquei curioso e aumentei o volume. Gabriel começou: -"Aumenta volume! Eu não quééééro aumentar volume!" -"Gabriel, eu quero ouvir. Deixa assim, baixinho." Ele engrossava a voz: -"Nãããããõooo... Eu não quero aumentar volume!" Começou a me bater, deu umas cabeçadas em minha mão e na testa. Mantive a paciência: -"Não me bata! Está doendo!" Eu queria dobrá-lo, o que não é nada fácil. Fui para o sofá e ele, atrás, insistia: -"Aumenta volume! Eu não quééééro aumentar volume!" Arranhava meu braço - felizmente, no dia anterior eu já tinha lhe cortado as unhas. Mas os beliscões doíam. Explodi, dei-lhe uns tapas na bunda e saí da sala. Ele começou a cantar: -"O poder faz a gente enlouquecer faz a gente fazer coisas pra depois se arrepender..." - como já expliquei, é o trecho de um charge-o-kê do site charges.com.br. Gabriel venceu essa. Assisti alguma reportagem no quarto e voltei para a sala, para os desenhos. Ele mudou para a Globo, na novela Como uma Onda - mas sem som. Pouco depois, ele pediu: -"Tou com a barriga doeeeeeinnndo." -"Vai fazer cocô." Correu para o banheiro e, serviço feito, tomou banho. Saiu pelado, pedindo: -"Meninos!" -"Então, veste a roupa para descer." -"Veste roupa!" Vesti-o e deixei que descesse. Pedro e Leo estavam no PG (play ground) e resolveriam algum problema que tivesse. A maioria dos vizinhos o conhece e ninguém o incomoda - já que ele é bastante reservado. Alguns meninos um pouco mais novos tentam chamá-lo para jogar bola, mas ele não entra no jogo. As suas regras são outras, depois falo disso. Aproveitei para assistir o fim do Jornal Nacional. Leo subiu e se põs a estudar Química me pedindo alguma ajuda, mas logo decidiu tomar banho, aproveitei a folga e desci com uma toalha, porque chovia e imaginei Gabriel todo molhado. Pedro tocava violão no PG e contou: -"Gabriel tomou um quedão." Perguntei se se machucou, mesmo vendo que Gabriel corria de um lado para o outro, na chuva fina. Não tinha sido grave. Logo, subiu e voltou com Marquesa. Mais um pouco, aparece Mariene: -"O que aconteceu? Cheguei, a porta estava escancarada..." Expliquei que Gabriel subiu e, quando voltou, Marquesa viera junto. Mariene riu e disse que ele tinha ido buscar a sua cachorrinha. Lá veio Gabriel, mostrando a perna direita: -"Minha canela está doeeeeeeinnndo... Médico!" Mariene perguntou: -"Machucou a perna? Precisa ir no ortopedista?" Gabriel repetiu: -"Ortopedista!" -"Vai ter de fazer radiografia?" -"Radiografia!?" -"Tomar injeção?" -"Injeção!?" -"Pôr gesso?" -"Gesso!?" -"Vamos trocar de roupa para ir no médico?" -"Trocar de roupa!?" - e fez seu sinal de "sim", em que não abana só a cabeça, mas metade do tronco, quase como uma reverência japonesa. Acontece que estávamos com fome e fomos fazer um pouco de macarrão. Com a roupa trocada, Gabriel deitara-se no sofá e nos espiava. Fui passar Contusol, mas ele reclamou: -"Minha canela está doeeeeinnndo!" Dormiu. Mariene tentou tirar suas sandálias duas vezes, e ele não deixou. Tentei acordá-lo mais duas vezes, e ele não abria o olho. Mariene insistiu comigo; -"Vamos levá-lo naquela clínica de ortopedia em Ondina!" -"Tá! Ele já dormiu e eu estou com sono." -"Mas ele vai ficar magoado se não levarmos no médico." -"Eu sei, mas já tentei acordá-lo duas vezes e ele não abre o olho!" Mariene, mesmo assim, insistiu em acordá-lo e Gabriel se pôs de pé. Pegamos o carro e fomos para o Hospital Aliança. Paramos no Ambulatório Pediátrico, mas Gabriel não quis entrar. Pensamos que ia ficar do lado de fora, curtindo as estátuas, mas ele levantava a mão na direção do Pronto Atendimento. Perguntei na portaria da Pediatria e o atendente confirmou: ortopedia, só no PA de adultos. Gabriel lembrava! Já passava de onze horas da noite e o plantonista já tinha ido embora. Gabriel ameaçou gritar. O segurança do PA nos conhecia, cumprimentou. Meses atrás, Gabriel dera um show quando levamos sua mãe para fazer um curativo - daquela vez, queria entrar na enfermaria para ver a agitação. Uma pessoa tinha morrido. Ontem foi mais ponderado e aceitou voltar para o carro para irmos a Ondina.
-"Radiografia!? Injeção!? Gesso!? Consultório?! Médico?!" A muito custo, o convencemos a esperar o médico, que demorou uns cinco minutos para chegar. Um estagiário de Medicina olhava, sem entender bem o que fazíamos com aquele moleque andando como um serelepe para todo lado, falando frases desconexas. Com a atendente, deixamos um folder que fizemos para estes momentos, falando de autismo e de Gabriel. Quando o doutor chegou, Gabriel, seguro de si, sentou-se na maca. Falei que ele é autista, mas Mariene já tinha explicado antes. O médico acenou e, compreensivo, disse que tinha três pacientes "assim". comentou que Gabriel "está bem". Calmo, olhou a perna e perguntou: -"Está doendo?" -"Minha canela está doeeeeindo..." -"Mostra onde está doendo." -"Minha perna está doeeeeindo... Gesso! Tem que dar injeção!" O Dr. Marcos comentou que ele não parecia ter nada grave, só a dor da pancada, mas pediu uma radiografia. Avisamos Gabriel: -"Temos que fazer uma radiografia!" e o Dr. Marcos acrescentou: -"Vamos fazer uma foto da sua perna!" o médico estagiário observava da porta. Entramos na sala de radiografia, com o operador de raios-X, fizemos o "retrato" e voltamos para a maca, onde Gabriel passou a pedir injeção, exame... -"Olha, Gabriel! A tíbia e o perônio!" O Dr. Marcos confirmou que não tinha nada e pediu ao seu estagiário que enfaixasse a perna de Gabriel, que ainda pediu injeção. Tentei que lhe aplicassem um analgésico, paa satisfazer-lhe a vontade, mas eles não me deram bola. Gabriel voltou todo importante para casa com a canela enfaixada. No carro, ainda comentou: -"Canela! Panturrilha!" Em casa, foi direto para a nossa cama e mandou: -"Apaga a luz! Clique!" postado por: Argemiro Garcia 2.4.05 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
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