Canto de Anjo



Eclipse da Lua, 2003.

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Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
Clique para entrar na
Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Domingo, Janeiro 30, 2005

De volta ao Aeroclube


Uma visão geral dos elásticos do Space Jump (ou eurobungie)
Gabriel, pendurado nos eláticos do Space Jump.
Pedro, nesta quarta-feira (26), quis ir ao cinema - sabe como é, dia de promoção...

-"Gabriel, vamos levar o Pedro ao Aeroclube e depois eu te levo pro Iguatemi, pra Civilização Brasileira, tá?"

Chegamos ao Aeroclube. Gabriel não se fez de rogado:

-"Aeroclube!?..." - assim mesmo, meio perguntando, meio pedindo. Concordei e ele foi direto para a área de brinquedos. Não é que o "brinquedo amarelo" estava de volta?

Mas tinha fila. Gabriel, ainda com a experiência do domingo em Guarajuba, se pôs a dar uns gritos. Eu? Nem aí! As unhas estavam cortadas! Uma tia que passeava com os três sobrinhos quis passá-lo na frente, mas agradeci e expliquei que ele precisa aprender a respeitar as filas. E tome grito. Logo, no entanto, chegou a vez dele. Paguei adiantado por quinze minutos e já chorei por uma prorrogaçãozinha. Meu abono de férias foi-se todo, aos poucos, neste mês...

Gabriel, pendurado no espaço, balança-se nos elásticos
Ainda nos elásticos.
E, então, sossego. De outras vezes, ele estava de barriga cheia, mas agora, de estômago vazio, ficou quase vinte e cinco minutos. Nem protestou para descer. Mas, talvez tenha sido porque, lá de cima, já tinha mapeado o parque todo, porque correu para a cama elástica. Pedro, que tinha vindo pedir para ir a dois filmes, riu e apontou para onde o irmão correu: o tobogã inflável - mais dez minutos de sobe-e-desce, corre-corre, escorrega e tal.

Gabriel no tobogã inflável.
O tobogã inflável - que inveja!

Depois, encarou o carrossel - coisa mais chata, não sei como ele agüenta, com toda sua impaciência - e ainda passou pelos carrinhos. Só que ele não tem atenção, ainda, para ir sozinho. Uma acompanhante precisa ir na garupa. De lá, saiu correndo para a loja da Italian Pizza. ainda ouvi um garotinho, rindo e comentando com a mãe, apontar para Gabriel:

Gabriel na motoca
O grandão na moto.

-"Aquele menino grandão 'tava com uma moça ajudando..." - não agüentei e, enquanto corria atrás do meu pequeno, comentei com ele:

-"É... mas aquele grandão tem um problemão!" - e deixei para que a mãe entendesse e explicasse.

Acabamos por devorar duas fatias de pizza - ele fica com a cobertura, eu, com a massa - uma fanta e uma coca-cola. Minha coluna que carregue meu peso! E voltamos para casa ao entardecer.

Meia-noite, voltamos para buscar Pedro. Gabriel ainda lembrou de pedir:

-"Brinquedo amarelo!" - e acabou aceitou o fato de que já estava fechado. Mas no dia seguinte, ainda tivemos de voltar. Sem estresses, com poucas filas e sem pressão.

postado por: Argemiro Garcia 30.1.05

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Sexta-feira, Janeiro 28, 2005

Bananas


nóis na praia.
Ao longe, o banana boat.Domingo, dia 23. Festival de Verão rolando em Salvador, Leonardo e Pedro indo pras baladas toda noite, Dona Mariene mostrou quem manda: no domingo, os dois que se virassem. O papai aqui não ia servir de motorista mais uma noite - ao menos no domingo, a gente teria o direito de sair.

Depois do almoço, pegamos o carro e fomos, Mariene, Gabriel e eu, para a Linha Verde, rumo ao Litoral Norte.

No domingo anterior tínhamos ido para Jauá, junto com Pedro. Gabriel nos dera bastante trabalho. Primeiro, quis "barco", mas era um bote de borracha de uma família. Convenci-o a alugarmos um caiaque e ele foi de carona no meu colo. Parece que logo se cansou de levar remadas na cabeça, porque pulou para a praia e, com a mãe atrás, correu rumo ao ponto onde a areia se encontra com os recifes, para curtir as ondas batendo de encontro às pedras - o que nos deixa muito preocupados: imaginou as ondas se chocando com as rochas, se levantando numa montanha de espumas acima das nossas cabeças? (Não, não são recifes de coral. São grandes blocos de arenito, as beach rocks.)

Por isso, para não termos de passar por novo estresse com nosso aventureiro das ondas, fomos para Guarajuba, mais longe ainda.

Guarajuba também tem beach rocks, mas ficam muito longe da praia e, na maior parte do tempo, permanecem submersas. Servem de anteparo para as ondas e, assim, o mar é bem mais calmo, apesar de ter ondas razavelmente fortes; dá para um menino levado se divertir. Mas tem banana boat.

Gabriel desceu correndo do carro e parou em um carrinho de sorvete. Comprou e nem tomou - disparou para a água. Mariene, sempre assustada com afogamentos (ela mesma já se afogou duas vezes; numa dessas, uma irmã faleceu), não tirava os olhos do garoto. Esse, de seu lado, logo descobriu o banana boat, aquele barco inflável comprido, amarelo, que é arrastado por uma lancha a motor. Pronto!

-"Barco! Banana! Quero banana búti!"

Fomos os dois até o "escritório" do banana. Dois irmãos tomavam conta dos coletes salva-vidas e da fila, enquanto o pai pilotava o barco. Expliquei a Gabriel que teríamos de esperar, porque estávamos inscritos na terceira turma:

-"Gabriel, está vendo? Tem esse pessoal que está andando de banana; depois dele tem aquele pessoal" - e apontei. "DEPOIS tem a gente..."

-"Barco! Banana! Quero banana búti! Você quer banana! Eu não queééééééééro barco! Eu quéééééééééro barco!"

Disparou todas as frases que sabe para pedir o passeio. Se já fazia mais de oito meses que não usava as unhas como instrumento de covnencimento, dessa vez minhas mãos ficaram marcadas com muitas pequeninas meias-luas rosadinhas, da pele arrancada.

Agitei os braços para Mariene vir me ajudar. Uma moça que estava por perto tomou a frente do negócio - pensamos até que fosse a dona, mas era apenas uma freqüentadora assídua. Ela decretou que Gabriel passaria para a turma seguinte, negociou quem cederia os lugares para nós e avisou o verdadeiro dono do negócio. Mas nem tudo é tão simples assim.

Gabriel estava nervoso. Mais de quinze minutos - uma eternidade - de irritação, e ele já estava com adrenalina no sangue para o resto da semana. Excitado, não suportou colocar o colete molhado, que o incomodava. Pulou do banana para a água e desamarrou o colete. Avisei:

-"Sem colete, não vai!". Mariene lavou o equipamento, explicando-me:

-"Está cheio de areia, está arranhando!"

Enfim, embarcamos, mas "com emoção" - isso quer dizer que o barco seria virado três vezes. Preocupado, o piloto fez sinal para mim. Gabriel estava feliz, sorria, e levantei o polegar. O bote que nos rebocava fez uma grande volta, passou para trás e... TCHIBUM! fomos para a água. Apesar de eu ter avisado, Gabriel ficou assustado. Sorria, mas tenso. E relutou em voltar para o banana boat.

Continuamos o passeio. Quando o piloto sinalizou de novo, avisei:

-"IIII, Gabriel! Lá vamos nós de novo! O banana vai virar! Lá vai! Lá vai! Atenção! Se prepare! um, dois, três e... já! TCHIBUM!"

Dessa vez, pareceu que ele gostou da brincadeira. Pouco reclamou de voltar para o seu posto - agora, de capitão: ficou sentado na frente. Mas, quando nos aproximavamos do fim do passeio:

-"IIII, Gabriel! Mais uma vez! Lá vamos nós de novo! O banana vai virar! Atenção! Se prepare..." - e Gabriel não esperou. Quando o bote passou começou a fazer a volta, ele ficou em pé e se jogou na água. Pulei atrás.

O piloto ficou preocupado:

-"Está tudo bem? O que aconteceu?"

-"Ele não quis esperar! Preferiu pular sozinho. Não se preocupe, que ele nada bem!"

-"Gabriel, quer subir aqui no bote, com o tio?"

-"Nãããããããããããão!!!!"

"Vai lá, Gabriel! Vai no bote!" - insisti.

-"NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOO!!!!"

-"Então, deixa. Estamos perto da praia, a gente vai nadando."


E assim fizemos. Nadamos uns 50 metros, no máximo. Quando Gabriel parava, eu empurrava:

-"Anda, rapaz! Pra praia!"

Um rapaz veio pegá-lo. Parecia que toda a praia, depois do berreiro, estava acompanhando nosso passeio: todo mundo de olho na gente. Mariene correu para ver o que acontecera. Expliquei que, apenas, ele não quis mais embarcar e, como ele nada bem e estávamos de colete, resolvi resgatá-lo a nado, mesmo. Depois dessa, ele parou de pedir para "andar de banana".

postado por: Argemiro Garcia 28.1.05

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Quarta-feira, Janeiro 26, 2005

O menino com um mapa na cabeça


Na cadeira de dentista de Tania
Gabriel na cadeira de dentista, com Tania.
Sexta-feira, dia 21 de janeiro, Gabriel tinha hora marcada com Tania Lapa Galvão, sua dentista. Já Mariene tinha que comparecer a uma reunião na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Já vínhamos preparando-o para a consulta: há dias avisávamos:

-"Gabriel, sexta-feira nós vamos na Tania, 'viu?"

Já no carro, quase chegando ao consultório, ele protestou:

-"Nããããããooo!"

-"Epa! Você sabe que nós vamos na Tania! Depois nós vamos levar a mamãe na OAB!"

A já famosa Delicatessen Mouraria.
Delicatessen Mouraria
-"Mouraria! Delicatessen Mouraria! Croissant!"

Demoramos um pouco a entender: a Mouraria fica a uns 800 metros da OAB, que fica no Largo da Piedade. Mais ainda: de fato, existe uma delicatessen na Mouraria, onde compramos croissant, meses atrás!

Mas, compromisso é compromisso, ainda mais com a saúde. Gabriel se comportou bem na sala de espera - pediu copo para tomar água no filtro e compareceu direitinho à cadeira de dentista. Direitinho no começo, pois foi ficando nervoso, nervoso... Mesmo assim, não foi preciso usar muita força para segurar suas mãos e ele não fez muita força para se libertar. Tania escovou seus dentes, aplicou flúor e verificou que está quase tudo bem. "Quase?" Acontece que dois dentes do lado direito estão com mordida cruzada, e Tania propôs que façamos um aparelhinho para tentar descruzar a mordida. Marcamos a fotografia, mas não será feito o molde Apenas será colocado um elástico para puxar os dentes. Dará certo?

Acabada a consulta - não sem algum estresse, mas nada insuportável - fomos à Mouraria, exatamente à Delicatessen Mouraria. confesso que fiquei surpreso. Não fazia idéia de que a loja tinha mesmo esse nome!

postado por: Argemiro Garcia 26.1.05

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Segunda-feira, Janeiro 24, 2005

Promessas, sorvetes e engarrafamentos


Quinta-feira, 20, Gabriel acordou tarde - êêêêê, férias! (Eu também tinha acordado bem depois do meu horário). Quase hora do almoço, ele veio direto a mim:

-"Frut Sabor! Bota sorvete! Tchoc! Tchoc! Bota Confeti! Tchiiii!" - Sempre acompanhando com gestos: o movimento com a mão direita em concha, imitando o colocar sorvete no copinho, ou o polvilhar de chocolatinhos sobre o sorvete. Mas demorei um pouquinho para entender: ele se referia a uma sorveteria a quilo no Shopping Iguatemi.

-"Gabriel, só depois de almoçar. Primeiro tem de almoçar, DEPOIS vamos para o Iguatemi pra tomar sorvete, certo?"

Ele se conformou e o tempo passou. Acabamos o almoço:

-"Gabriel, vamos levar a mamãe no CREA, para uma reunião, e depois vamos pro Iguatemi, certo?"

Mais uma vez, aceitou e fomos até o CREA (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia), onde deixamos Mariene.

-"Gabriel, preciso fazer a matrícula dos seus irmãos no Nobel, no Colégio Nobel. Você concorda? Vamos pro Nobel, Gabriel? Nobel? Depois vamos pro Iguatemi?" - Nada. Silêncio. Mas, nem sempre quem cala consente. Quando embicamos na Avenida Antonio Carlos Magalhães e já não dava mais para desviar, Gabriel começou:

-"Iguatemi!"

-"Não quer ir pro Nobel, antes, Gabriel?"

-"NÃÃÃÃÃÃO!!!! IGUATEMI!"

-"Tá bom, vamos pro Iguatemi! Mas vou precisar fazer o retorno, tá?"

-"NÃÃÃÃÃÃO!!!! IGUATEMI!"

-"Tá, Gabriel. Nós vamos pro Iguatemi! Mas temos que fazer a volta, 'viu? Nós vamos passar aqui, em frente à Petrobras e vamos fazer a volta. Está vendo?..."

-"IGUATEMI!"

-"Olha, vamos passar ali, do outro lado, mas temos que fazer a volta..."

-"UÁÁÁÁAÁÁÁÁRH!!! IGUATEMI!"


Para piorar, a rua onde fazemos o retorno estava impedida por causa de um acidente feio. O trânsito engarrafou um pouquinho e, naquele anda-e-pára, Gabriel me agarrou por trás, segurando minha cabeça e tampando-me os olhos (ele estava no banco de trás, atrás de mim). Dei-lhe uma mordida no braço...

Assustado com minha reação, aquietou-se. Eu, superfrustrado, sentindo-me culpado pela reação e com medo de sofer novo ataque, dava-lhe broncas:

-"Não pode, Gabriel! É PERIGOSO! A gente pode bater o carro, pode morrer! Não pode segurar minha cabeça, não pode tampar meus olhos!" - Sorte que não foi a primeira vez, e eu tinha ouvido o CLOC! do cinto-de-segurança quando ele se soltou. Deu para me prevenir.

Fizemos a volta, eu falando, sem parar, que estávamos indo para o Iguatemi e lhe chamando a atenção para os pontos de referência na rua. Estacionamos o carro no último andar, e descemos para o Banco do Brasil:

-"Vamos no Banco do Brasil pegar dinheiro para irmos na Frut Sabor!" e dessa vez ele aceitou. Parafraseando o Dr. Salomão Schwartzman, "ele é autista, mas não é bobo!"

Tomou seu sorvete, com Confeti (aqueles chocolates parecidos com M & M's) e calda de chocolate. Depois, fomos para seu novo "point": assistir televisão de plasma na Insinuante. Depois de uns quinze minutos com ele andando de um lado para o outro, como o Tio Patinhas preocupado com a Maga Patalógika, fomos para a loja de celulares By phone.

Acabamos na Livraria Civilização Brasileira, onde ele também é muito conhecido - freqüentador há quase quatro anos. Ele subia a escada para o mezanino e, de lá, ficava espiando a moça do caixa - Eva. Sentei-me em um sofá - preto - ao lado do terminal de atendimento e fiquei conversando com os vendedores. De vez em quando, Gabriel vinha até nós:

-"Cadê Eva? Eva foi pra Central, pra bater Ninho no liquidificador WA-LI-TA! Qual é a letra?"

-"Dábliu, a, éle, i, tê, a!"

Deu o tempo, voltamos para casa. Era hora de levar Pedro ao Festival de Verão. Quando já saíamos rumo ao festival, Mariene vinha chegando e nos acompanhou para levar a ala roqueira da família. Um pouquinho de engarrafamento na orla, de que Gabriel reclamou, e a aventura terminou.

postado por: Argemiro Garcia 24.1.05

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AFAGA


Assembléia de fundação da AFAGA.
Fundação da AFAGA: Carlos, Milena, Samya, Gabriel sapeando um pouco, Sidenise e Barbosa. Atrás de Gabriel, Mariene sentara-se para dar um alô a Cristina, de Sorocaba em um dos micros.
Terça-feira, dia 18, foi a fundação da AFAGA (Associação de Familiares e Amigos da Gente Autista) - um velho sonho compartilhado com amigos e amigas de internet.

Para ser justo e dar a todos a oportunidade de participar, a solução foi fazer aqui em casa. Com o apoio de nosso provedor, a Lognet - a quem só temos agradecimentos -, instalamos mais um micro. É que aqui temos um hub e uma conexão via rádio, o que facilita muito...

Com três micros logados na internet ajeitados em 3 mesas na sala, abrimos uma sala de chat no yahoogrupos.

Assembléia de fundação da AFAGA.
Fundação da AFAGA: Mariene, Sidenise (de costas), Rita Dultra (atrás de Sidenise), Barbosa, eu (no micro) e Carlos.
Barbosa, pai de Lu, foi o primeiro a chegar; depois dele, vieram Carlos Raimundo, pai de Lucas; Milena e Samya, estudantes de Psicologia; Sidenise Estrelado, professora do Pestalozzi; Rita Dultra, musicoterapeuta e Célia Regina Thomé, fonoaudióloga. Claro, Mariene e eu. Gabriel deu o ar de sua graça algumas vezes, mas permaneceu a maior parte do tempo no quarto com Ana.

Assembléia da AFAGA
Barbosa, Rita e Célia.
Pela internet, logaram-se Márcia Rocha, do Rio, Luis Augusto Gouveia, autor das tiras Fala Menino!, daqui de Salvador, mesmo; Jaqueline Schulz, de Porto Alegre; Cristina, de Sorocaba (SP), Silvia, minha irmã, em São Paulo e Priscilla, em Americana (SP).

Foi um momento muito importante, ao menos para nós, que estamos há tanto tmepo querendo montar um trabalho diferente com a questão da cidadania das pessoas autistas. O Canto de Anjo não podia deixar de registrar o momento.


postado por: Argemiro Garcia 24.1.05

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Terça-feira, Janeiro 18, 2005

Entregando


Jovens do Lar Vida recebem doações.
No Lar VIDA, "não tem patinho feio".
Voltando no tempo, mas só um pouquinho, a Caminhada dos Jornalistas pedia doações de alimentos e brinquedos, como eu disse no post de 10 de janeiro. Fomos no dia 24/12 fazer a entrega; aproveitamos que fica perto de onde Ana mora e a levamos para casa.

Gabriel foi avisado de que iríamos no LAR VIDA (Valorização Individual do Deficiente Anônimo).

A entidade acolhe dezenas de pessoas com alto grau de deficiência, todas abandonadas pela família. Funciona num terreno amplo, com uma grande mangueira junto à entrada. São vários galpões bem limpos, com camas simples, colchões e tem até um curral com dois cavalinhos. A estrutura é muito boa, e eles só não fazem ampla divulgação do trabalho porque, a cada vez que apareciam na televisão, mais "doações" de novos pacientes eram feitas!

Chegamos ao Lar VIDA e Gabriel se pôs a gritar e chorar. Aceitou descer do carro, mas gritava:

-"Eu não quééééééro ir pra Ana! Eu quééééééro ir pra Ana!"

Praticamente tivemos de despachar as caixas e os brinquedos (que Mariene embalou um a um - a maioria veio sem um enfeitezinho, sem um papelzinho de embrulho. Quando for fazer doações, lembre-se de embalar, tá?) e sair correndo. Gabriel deve ter ficado de orelha quente, tanto que reclamamos com ele, mas não foi dessa vez que pudemos conhecer melhor o trabalho do pessoal.

Agora, Gabriel está melhor, já tem se mantido calmo. Mas poucos dias depois de entrar de férias, o stress era alto.

postado por: Argemiro Garcia 18.1.05

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Quarta-feira, Janeiro 12, 2005

A visita


Regiane e Levi vieram a Salvador, a trabalho - e perguntaram se podiam nos visitar. Claro! - nós respondemos.

Bom, ontem, dia 11, avisamos Gabriel que viria visita, que eram Regiane e Levi, que viriam visitá-lo, etc e tal. E ele fez como às vezes faz: botou a família pro quarto.

-"Tchau! Fala tchau! Fecha porta!"

Por via das dúvidas, com medo de não ouvirmos o interfone, pedimos para os porteiros deixarem-nos subir direto. O tempo passava e nada de ouvirmos a campainha. De vez em quando, abríamos a porta, e...

-"Fala tchau! Fecha porta! Quarto, pai!"

Uma dessas vezes, a surpresa: Gabriel estava sentado no colo da Regiane, mostrando para ela as animações do charges.com.br. Ficamos super-sem-graça, mas, enquanto explicávamos porque estávamos escondidos no quarto, Gabriel ainda insistiu:

-"Fala tchau!"

Conversamos bastante e Gabriel, superanimado com "suas" visitas, deitou-se no sofá com os pés no colo de Regiane. Levi aproveitou para nos fotografar em frente a uma das paredes pintadas pelo Gabriel - paredes que ele comparou ao filme "Basquiat", sobre o pintor novaiorquino amigo de Andy Warhol.

Deu dez horas, eles se prepararam para sair. Oferecemo-nos para deixá-los onde seus amigos estariam: Regiane ligou, estavam no Dique do Tororó. Explicamos para Gabriel que eles iam embora, que iam ao Pelourinho, e que os levaríamos para encontrar seus amigos. Gabriel calçou suas havaianas (não são "avaianas de pau", viu gente!?), todo contente. E, chegando ao Dique, quis descer:

-"Qué isso aqui!"

-"Deck, Gabriel! Olha o cisne nadando!"


Gabriel pediu pizza, e fomos os quatro até a Pizzaria Cheiro de Pizza, onde estavam os amigos de Regiane e Levi. Sentamos à mesa, Gabriel pediu "talharine" e Fanta. Veio a despedida, Gabriel beijou todo mundo e ficamos sozinhos. Mas Gabreil foi ficando nervoso, nervoso... Se pôs a gritar:

-"Talharine! Talharine! Eu não sou talharine! Talharine é de Veronica! Iáááá!" - me pegou pelos cabelos e pelas orelhas, bateu com a testa na minha testa, gritava... Mesmo quando a comida e o refrigerante vieram, ele não se acalmou: despejou o refrigerante na mesa, comeu pouco macarrão e pediu mousse de maracujá. Nos últimos tempos, voltou a comer com a mão, deixando de usar a faca - acredito que seja porque está reordenando o uso das mãos, à medida que aprende a usar o lápis. Insistimos que usasse a faca, mas ele atacou de dedo, mesmo.


Pecebendo o que havia, tentamos explicar-lhe que Regiane e Levi iam embora, mesmo, que eles não iam dormir na nossa casa. E mandamos, ao final, que fosse lavar as mãos.

No banheiro, ele disse:

-"Essa água está suja!" e saiu correndo. Um rapaz que tinha visto seu "show", preocupado, correu atrás dele, enquanto ele descia as escadas para o deck. Fui atrás e os vi conversando, o rapaz pedindo-lhe que saísse de perto da água. É que ele pensou que Gabriel iria pular na água. Expliquei que ele é autista, e ele disse que já tinha percebido. Voltei para pagar a conta, enquanto Mariene ficou conversando com o rapaz, que é químco e tem uma loja de auto-peças. Os garçons se lembravam da gente de outras vezes que estivemos ali. Pedi desculpas, e eles disseram para eu não me preocupar, me explicando que a Cheiro de Pizza os treina para atender bem os clientes. Nessa hora, Gabriel já tinha se acalmado, e andava de um lado para o outro no deck. Dizia frases para eu soletrar:

-"Isso é meu! Qual é a letra?"

-"I, ésse, ésse, ó; é; eme, é, u!"


Ainda um socó voou até o deck, pousando perto de nós. Gabriel, sorrindo, correu para perto do pássaro, que fugiu. Quase meia-noite, o convencemos a voltar para casa.

postado por: Argemiro Garcia 12.1.05

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Segunda-feira, Janeiro 10, 2005

Caminhada dos jornalistas


Dia 19 de dezembro, domingo, o Sinjorba (Sindicato dos Jornalistas da Bahia) promoveu uma caminhada anti-stress. Muitos jornalistas sofrem do coração, e doenças relacionadas ao estresse afetam muitos profissionais da área. Mariene é a vice-presidente do sindicato e, assim, acordou cedo, deixando-nos, a mim e aos filhos, a dormir.
Kardé, a presidente do Sinjorba, coordena o aquecimento.
Os jornalistas se aquecem para a caminhada.


Do ônibus da BTU, a visão da praia da Barra.
Vitória! Entramos no ônibus da BTU.
Leo e Pedro não quiseram participar. Gabriel e eu pegamos o carro e fomos encontrar mamãe. Tudo corria bem e Gabriel parecia animado e feliz por sair cedo de casa. (Ah, esperança!)

A saída da caminhada era em Ondina. Descemos do carro e o pessoal do sindicato estava se aquecendo. Ganhamos nossas camisetas e...

-"Ônibus! Andar de ônibus! BTU! Quero BTU! Iê! Iê!"

-"Gabriel, espera um pouquinho! Olha o Sindicato! Olha a Kardé!" (Kardé é a presidente do Sinjorba).

Um trabalhador da SET (Secretaria de Engenharia de Tráfego) sabia do que se tratava e perguntou:

-"É autista?" - explicando, em seguida, que seu irmão mais novo, com uns vinte e tantos anos, também é, e mora na Ilha de Itaparica com os pais.
A Caminhada já ganhava a Barra...
A caminhada seguia pelas ruas.


Não teve jeito. Um beijinho, uma correria e entrei com Gabriel no primeiro ônibus da BTU - um da linha Campo Grande. Curtindo a paisagem da Bahia, Gabriel se empoleirou em um banco sozinho, na janela.

Demos a volta: coisa de uns 20 minutos depois, o ônibus já descia a Ladeira da Barra e passava em frente ao Forte da Barra. Em frente ao Clube Espanhol, passamos pela caminhada. Pedi ao motorista para parar. Pra quê!? Começou o berreiro:
...e Gabriel botava a boca no trombone dentro do caminhão.

Gabriel chorava no caminhão.


-"Uáááááaáá!!! Quero BTU! Cadê BTU? Eu não quéééééééro BTU!!!"

Entramos no caminhão de apoio, que levava a água e recolhia as doações - o sindicato pedia brinquedos para entregar no Natal ao Lar Vida, uma entidade que acolhe pessoas deficientes, orfãs ou abandonadas pelas famílias. E seguia o choro, os gritos e... o estresse.

Chegando à Associação Atlética onde seria o café da manhã (pequeno almoço, certo, povo de Portugal?), mais uma vez foi impossível dominar a situação:

-"Uáááááaáá!!! Quero BTU! Cadê BTU? Eu não quééééééééro BTU! Pai! BTU???"

Fomos para um ponto, mas não houve jeito, o ônibus não vinha. Cansei:

-"Chega, Gabriel!!! Estou com fome, cansado de ouvir seu choro! Vamos tomar café! DEPOIS nós vamos procurar um ônibus da BTU." E voltamos para a Associação Atlética. A bronca, parece, deu jeito. A gritaria diminuiu e ele arriscou provar alguma coisa: comeu um pouco de melancia.

Para terminar, um suco de abacaxi na Speedy Lanches.
Tomando um suco de abacaxi na Speedy Lanches.
Apesar de comer às pressas, e da situação para lá de constrangedora, foi possível saciar a fome - a minha, pelo menos. Voltamos para o ponto, deixando Mariene com o pessoal - apesar de ela querer nos acompanhar. Argumentei que não podíamos deixar que ele fizesse manha e nos dobrasse. Manha? É... eu tinha certeza de que o berreiro cessaria assim que entrássemos no ônibus. Mas nem isso foi preciso. Chegamos a um ponto de ônibus perto do Porto da Barra e ele sossegou.

Nem andamos muito. Logo que passamos o Clube Espanhol, chegando a Ondina, Gabriel pediu:

-Ispeide! Ispeide Lanches! - ele queria comer no Speed Lanches, barraca de onde saiu a caminhada. Pronto! Tudo sossegou. Gabriel parou para curtir os liquidificadores, pediu um suco de abacaxi e um pão com manteiga na chapa. Um suco de abacaxi feito no liquidificador WA-LI-TA!!!!

O celular tocou, Mariene pediu para que eu fose buscá-la e voltamos para casa. Como se nada tivesse acontecido - para ele. Porque nós vivemos uma caminha super-estressante. Fica sempre o gosto amargo de que Gabriel mostrou para todos apenas seu lado mais frágil, mais instável. Que imagem ele está construindo para si mesmo?

postado por: Argemiro Garcia 10.1.05

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