Canto de Anjo |
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Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
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Terça-feira, Novembro 23, 2004
Jogando bolaJogar futebol não é uma coisa que eu faça muito. Quando menino era míope e gordo e não me dava bem - não conseguia antecipar a intenção dos demais jogadores, sempre errava - era um perna-de-pau. Já Leonardo e Pedro tiveram seu tempo de futebolistas. Gabriel, até o mês passado, só tinha chutado a bola para mim UMA vez - uma memorável vez.Neste mês de novembro, Gabriel começou a descer para a quadra do prédio. Primeiro, deu para "fugir" de casa, descendo pelo elevador até a garagem, ao lado da qual fica a "Quadra Poliesportiva Aderbal Garcia" (nenhum parentesco conosco), inaugurada há pouco mais de um ano em nosso condomínio. Ao final de todas as tardes, a rapaziada desce para um baba - que é como se chama, aqui na Bahia, a pelada. Ele pede: -"Saboeiro! Quadra do Saboeiro!" - sequer imaginamos porque ele fala do bairro do Saboeiro para se referir à quadra. Mariene desce com ele, e ficam os dois assistindo ao jogo dos pequenos. Quando os adultos jogam, as cacetadas são muito violentas, e Gabriel tem medo. Com a meninada, a força das boladas não assusta. Gabriel adotou a mesma tática de "mapeamento": primeiro, como quem não quer nada, ficava andando de lá para cá em volta da quadra. Depois, passou a caminhar ao longo da lateral. Por último, criou coragem e passou a entrar no meio do jogo, com seus batuquês, tamborilando a nuca e o peito. Quando a bola vem para seu lado, vira de costas, esperando uma bolada que (ainda) não vem. Domingo retrasado, dia 14, descemos todos para treiná-lo: Mariene, Leo, Pedro e eu. Até que ele estava muito animado: conseguimos que chutasse várias vezes a bola. Chegamos a fazer um triangularzinho: Chutei para Leo, que chutou para Gabriel, que chutou para mim; Pedro tocou para Gabriel, que passou para Leo, que devolveu para Pedro. Mas ele não se interessou muito. Logo, subiu na tampa da caixa protetora de uma bomba d'água. Ainda assim, insistimos, e ele chutou mais algumas vezes - e acabou se cansando. Agora, a "Quadra Poliesportiva" está em reforma e Gabriel espera para voltar ao baba. postado por: Argemiro Garcia 23.11.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Domingo, Novembro 14, 2004 O ônibus da skol
-"Pai! Pega ônibus amarelo! ônibus amarelo, pai!" - e apontava vagamente em direção à cozinha. Levantei do micro e fui até o seu quarto, com ele atrás. Peguei um onibusinho de brinquedo, mas ele relcamou: -"Nããããããããããããoooo! Skol bus!" Eu já esperava. Ele gosta muito de um onibusinho de metal, amarelo, que traz escrito School bus. Felizmente, estava fácil de achar. Entreguei a ele, que pediu em seguida: -Tesoura, durex! (Ao povo de Portugal: durex, no Brasil, é fita gomada. Mas vocês já devem saber, não é?) Mais uma vez, dei nas suas mãos o que pedia. O que ele fez? Tinha escrito, em um papel, com o normógrafo, Escola Montessoriana. Recortou com a tesoura, tirou um pedacinho do durex, fez um pequeno rolinho e colou a sua frase no teto do ônibus! Ainda empurrou o brinquedo, como se espera que faça, para a frente e para trás! Mas não se deu por satisfeito. Amassou o papel e colou outra vez a Montessoriana. Depois, me pediu para escrever (à mão livre fica menor) e colar, eu mesmo. Continuou brincando. E continuou: -"Escola Espaço Via Ponte! Triângulo azul..." Mariene, que assistia à cena, recomendou: -"Pega uma camiseta da Via Ponte!" Gabriel não gostou muito, mas eu precisava de um modelo da marca da escolinha. Ele mandava: -"Triângulo azul... Círculo laranja... Faixa branca! Bota camisa no varal!" -"Não, Gabriel! Vou guardar no guarda-roupa." -"Guarda-roupa!" e, quando voltei do quarto: -"Corta com a tesoura, paaaai!" -"Durex... Senta no sofá!" e brincou um pouquinho com seu brinquedinho. Quanto de vitória teve esta noite! Gabriel nos mostrou que é capaz de simbolizar, fazer associação, entende que School bus é um ônibus escolar, é capaz de planejar, de imaginar uma situação, de me comunicar sua intenção... A felicidade foi tanta que nem deu para chorar de emoção. Ficamos os dois, como bobos, curtindo essa. postado por: Argemiro Garcia 14.11.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quinta-feira, Novembro 11, 2004 LucasLucas está se recuperando de um período muito estressante, ao final de sua adolescência. Agora, ele trabalha nas oficinas protegidas da Escola Espaço Via Ponte, associada com a Associação Baiana dos Portadores de Necessidades Especiais - Projeto Incluir. Quem tiver interesse, ele vende seu quadro por R$ 30,00. ![]() postado por: Argemiro Garcia 11.11.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
O estranho caso do garoto gritando na porta da igrejaMariene vinha pensando em levar Gabriel à missa. Conversou com o Padre Pedro, da Paróquia de N. SRª da Assunção, pertinho de casa, e ele sugeriu que o levássemos à missa dos jovens, no domingo às 6 da tarde.No domingo, dia 7 de novembro, Gabriel desceu para a garagem sem que eu visse. Subiu, almoçou e quis descer para a quadra. Neste período depois da Jornada, estivemos descendo com ele à noite para ensinar-lhe a andar de bicicleta, e Mariene também o acompanhava à quadra do Condomínio, onde ele ficava assistindo os adolescentes jogarem futebol. Desci com ele e, pouco depois, foi Mariene quem desceu. Mas percebi que seu celular estava descarregado e subi, para colocá-lo na tomada. Foi quando Olival, espécie de chefe do pessoal do prédio, veio falar comigo: -"Seu Argemiro, Gabriel quase foi atropelado." E explicou que ele andava na garagem, quando um carro virou uma curva correndo e quase o pegou. Fiquei preocupado, e tentei esclarecer o que tinha acontecido. Uma gana de esganar alguém, de distribuir uma carta... Fiquei sabendo que um senhor também quase sofreu um acidente. Enquanto eu conversava com Olival a vergonha de morar num prédio que precisa de quebra-molas dentro da garagem, Mariene e Gabriel saíam do prédio. O porteiro me avisou que tinham ido para a praça. Desisti de acompanhá-los e subi. Em casa, Pedro me avisou que Mariene tinha ligado de um orelhão para pedir ajuda, pois estavam indo para o Salvador Trade Center. Quando consegui achá-los, quase meia hora depois, Gabriel veio contente, entrando no carro: -"Missa!" Em casa, os três nos arrumamos. Mariene ainda me perguntou: -"Vamos de carro, ou a pé?" e achei melhor ir a pé, para não acostumá-lo mal e atender a sugestão de Mariene, de andar... estou meio acima do peso, né? Péssima idéia! A uma quadra da igreja fica o ponto de ônibus, onde vamos pegar o ônibus BTU para a Sorveteria Capri, lááááá na Barra. Não é que ele empacou? -"Sorveteria Capri!" -"Não, Gabriel! A gente vai pra missa!" - a poucos metros da Paróquia, víamos a movimentação da Festa da Amizade, com barracas e uma banda tocando. A música parou e todos entraram na igreja. -"Ônibus! Eu quero ÔNIBUS! EU NÃO QUERO ÔNIBUS!" Todo mundo que passava nos olhava. Mais uns minutos e chegaram quatro policiais, que tinham sido avisados que havia algo estranho ali na esquina: -"Boa noite, está havendo algum problema?" -"Não. A gente estava indo para a missa, mas nosso filho é autista e cismou que quer pegar o ônibus e ir pra uma sorveteria na Barra." Paciente, o Soldado Onofre (acho que esse é seu nome, mas não tenho certeza) estendeu a mão para Gabriel e pediu: -"Oi. Está tudo bem? Me dê a mão?!" Gabriel deu um tapa na mão e continuou a gritar. Agora, num arremedo de Valdick Soriano: -"Eu não sou ônibus nããããoooo pra viver tão amijado! Eu não sou ônibus nããããoooo pra viver tão amijado! Eu não sou ônibus nããããoooo! Eu não sou ônibus nããããoooo!" A Soldado Andréa, que fazia parte do grupo, falou que tinha comentado com os colegas que parecia ser um menino autista. Ficamos conversando, explicando alguma coisa de autismo. Contamos do Wellington da Dona Beatriz, com 21 anos, que, além de autista, é surdo e entra nas lojas apontando para os carrinhos, até ganhá-los. Em casa, os coleciona, deixando-os arrumadinhos sob a tevê. (ver post O Fugitivo, de abril de 2003) Gabriel demorou bem uns vinte minutos mais até se acalmar. A todo momento pedia: -"Sorveteria Capri!?" e eu respondia: -"Não!" Ele insistia: -"Sorveteria Capri!?" -"Não!" Tentava outras alternativas: -"Sanduíche Hall!? Casa de Gabriela? Casa de Zoraide?" -"Não! Não! Não! " Vendo que não havia nada de errado - fora o nosso mundo estar em queda livre -, os policiais se despediram e, aos poucos, Gabriel aceitou ir à igreja. Calmo, mapeou o lugar. Rodou, rodou, mas não se interessou muito pelas barracas. Entrou na igreja e caminhou até o meio, enquanto o padrre fazia o sermão. Acompanhei-o. Ele voltou e subiu uma escada que dá para um mezanino onde ficavam os músicos e alguns jovens. Depois, saiu. Lá fora, descobriu o palco e nele subiu, ficando com seus pulinhos e estereotipais. A Soldado Andréa estava por ali e ficou conversando com Mariene. Gabriel ainda comeu um pastel e um crepe. Dali, acabamos pegando um ônibus, mas só para dar a volta ao bairro e descermos no Hiperbompreço, para comprar sabão e alguma coisa para o seu lanche do dia seguinte. postado por: Argemiro Garcia 11.11.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Terça-feira, Novembro 09, 2004 Segundo turnoO segundo turno das eleições municipais foi no dia 31 de outubro. Acordamos despreocupados, nos espreguiçamos e... -"Gabriel, hoje é dia de votar, de novo. Vamos?" -"Nãããããããõooo..." -"A gente tem que ir!" -"Tem que ir, nãããããããoooo!!!" Bom, nessas horas, não tem querer. Mariene e eu nos aprontamos e o vestimos. -"Quem vota primeiro, você ou eu?" -"Melhor eu ir votar primeiro." Tocamos para a Escola Girassol, onde funciona a seção eleitoral de Mariene. Enquanto eu parava o carro, Mariene desceu e foi para sua sala. Gabriel desceu atrás dela. Foi só eu trancar o carro e... Cadê Gabriel? Rodei o portão, esperando Mariene voltar: -"Ué, Cadê Gabriel, Miro?" -"Desceu atrás de você." -"Eu não vi..." -"Eu sei. Vou procurar, você fica aqui, pro caso dele voltar." Sempre a gente fica com o coração na mão. Subi as escadas, e gritava, de vez em quando: -"Gabriééééééel!" Fiscais do PDT ficaram olhando para mim: -"Sabem o que é autismo?" - e subi as escadas de dois em dois degraus, sem explicar. Daqui a pouco, em uma das seções, lá estava Gabriel. O presidente da mesa, preocupado, sem saber o que fazer. Meu filho, tranqüilo, batia dois bonequinhos e andava em círculos pela sala. Expliquei mais ou menos o caso e... -"Gabriel, agora é a vez do papai votar. Vamos pro Colégio Nobel?" -"Nããããããããooooo..." -"Vamos!" -"Nããããããããooooo... Qué isso aqui?" -"Urna eletrônica." -"Qué isso aqui?" Prestei atenção e li: -"Governo do Brasil." Ele abriu um sorriso e batucou mais um pouquinho sua nuca. Desci para avisar Mariene, que tinha encontrado uma amiga de longa data, que carregou Gabriela no colo. Subi de novo, sentei e fiquei ocnversando com o pessoal da mesa. Mariene nos encontrou: -"É melhor você ir votar, eu fico aqui com ele." Votei, voltei e lá estavam eles. O presidente da mesa, inicialmente preocupado com o sigilo eleitoral, percebeu que, com o monitor de cristal líquido, não seria possível a Gabriel ver a quem eram dados os votos. Relaxou, tirou as cadeiras de trás da urna e deixou Gabriel em paz; a cada voto, este repetia, contente: -"Pilililiu! Qué isso aqui?" Quando voltei, Gabriel aceitou sair. Fomos para... O Hiper, claro! postado por: Argemiro Garcia 9.11.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Jornada PAE III: mapeamentoCostumo dizer que Gabriel "mapeia" os lugares que conhece: em primeiro lugar, fica em um ponto de referência, em geral, a porta de entrada da casa. Fica um pouquinho parado, com suas estereotipias. Em seguida, avança para um lado: a esquerda, por exemplo. Vai até a esquina, ou o primeiro entroncamento, e volta - depois, segue o procedimento na direção contrária. Fica, então, algumas vezes nessas idas e vindas, como se estivesse cumprindo um ritual. Depois, amplia mais um pouquinho, dobrando a rua, ou corredor. Está "mapeando", registrando o lugar. Gabriel já conhecia o EDIBA, o prédio onde trabalho - mas não em detalhes. Aproveitou, então, para mapear mais um tantinho: refinar a escala. Na quinta-feira 28 de outubro, segundo e último dia da Jornada, Mariene foi conosco. Chegamos à Petrobras pouco antes das oito horas - sabíamos que haveria uma panfletagem do PSTU, mas não haveria trancaço. Entramos no auditório, mas logo Gabriel saiu. Mariene avisou que ficaria com ele. No entanto, coisa de uma hora depois, eu acho, ela voltava: -"Miro, fica com ele, que ele está entrando na ante-sala do Édson." - Édson é geólogo como eu e gerente do Ativo de Produção Norte; na gestão anterior, éramos colegas de corredor. Conhece bem Gabriel. Subimos, então, para o quinto andar, onde fica a gerência da Unidade de Negócio da Bahia. Gabriel imediatamente voltou para o saguão dos gerentes, na Ala Sul. E ficou: pôs-se a "batucar" e andar de um lado para o outro, com o olhar meio fixo, e "rezando" (suas estereotipias, como sempre, se intensificaram ao se ver numa situação nova; nessas horas, fica dando tapinhas na nuca e no peito, ou se bate com objetos. Fica, ainda, cantarolando e entoando parlendas.) Depois de mais um tempo, saiu a reconhecer o território: foi para a ala norte, entrando em algumas salas. Enquanto meu colega Gilberto da área de Programação, falava ao telefone, ele se postou à sua frente. Parecia aéreo, mas deu a mão a quem pediu. Saímos de novo, e ele escolheu outra sala para entrar. Entrou na sala de outros colegas; voltou à sala de Tania, onde no dia anterior tinha passado para a varanda externa, para espiar a rua. Voltou para a Ala Sul. Em mais uma sala, deu uns dois gritos, rindo: -"Tomando c...!" - dei o basta: descemos para os stands. Estava muito folgado, não é? Logo deu a hora do almoço, e Pedro chamou pelo celular: Ana tinha faltado, para levar Ítalo, seu filho, ao médico. Voltamos para casa, e deixei Mariene e Gabriel por lá. Fim de Jornada! postado por: Argemiro Garcia 9.11.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quinta-feira, Novembro 04, 2004 Jornada PAE: II - um palco iluminadoCruzamos o portão da Petrobras, deixando o piquete para trás, e Gabriel abriu um sorriso: correu para o auditório. A assistente social Eliana, com ar preocupado, esperava os convidados da Jornada na porta. Enquanto conversávamos, Gabriel disparou para o palco. Anos atrás, na premiação de um concurso de poesia, ele conheceu esse auditório. No ano passado, esteve nele durante a II Jornada - agora, estava de volta! Pôs-se a andar de um lado para o outro, olhando ora para a platéia, ora para a coxia - e por lá ficou, batendo ritmadamente as mãos: uma na nuca, outra no peito. Quando começou a abertura do evento, com meu colega Roquinho, da Comunicação, Gabriel foi ficando. O filme com as instruções de segurança foi apresentado - "Este auditório dispõe de duas portas laterais..." - e ele foi ficando. Quando começou o Hino Nacional, chamei-o para meu lado. A cada evento que acontece nas dependências da Petrobras, além do briefing da sala, passa um videoclipe do Hino Nacional. Nessa hora, Gabriel se comportou direitinho, prestando atenção ao filme e à música - quem não pára para ouvir nosso hino? Mas, quando voltou Roquinho ao palco, Gabriel subiu as escadas de novo; e a próxima atividade era a peça de teatro sobre inclusão na escola. Uma história de um garoto com síndrome de Down que é matriculado em uma turma de 7ª série. Não teve jeito, e excluí Gabriel: não ia dar para os atores trabalharem com ele correndo pelo palco. Começaram seus protestos:
-"PAAAAAALCO! QUERO PAAAAALCO!" Tentei, sem esperança, distraí-lo com alguma coisa: escrevendo num papel o que ele gritava, sentando no chão, fazendo cócegas, falando para irmos à minha sala. Passados cerca de quinze minutos, preocupado com o resto das pessoas, que queriam ver a peça, consegui pegá-lo no colo, saindo do auditório. Fomos para o térreo, visitar os stands das instituições que atendem pelo PAE - com Gabriel aos gritos. Lúcia, diretora da Via Ponte, pediu a Zezinho que o distraísse. Pude respirar um pouco: logo que a peça acabou, Zezinho levou-o de volta ao palco. Quando Gabriel me viu de novo, mais ou menos meia hora depois, quis andar de elevador. Levei-o à minha sala, no quarto andar, e ele se pôs a explorar as outras salas. Cumprimentou alguns colegas - já era hora de almoço e pouca gente estava no prédio. Preocupado com ele não ter comido nada, ainda, tentei levá-lo para o pátio, onde eu sabia que a empresa ia fornecer um lanche: -"Gabriel, você não está com fome? Vamos comer pizza?" -"NÃÃÃÃÃÃÃOOO!"
-"NÃÃÃÃÃÃÃOOO!" - Não, eu não estava sendo chato: a última vez que ele tinha comido fôra na noite anterior, e já passava de meio-dia. Dei-lhe uma bronca: -"Chega, Gabriel! EU estou com fome, e nós vamos comer!" Bom, quando eu engrosso a voz e fico com o sobrecenho franzido, é hora dele me obedecer - correu para o elevador. Mas as pizzas ele não quis: -"O que você quer, então? Quer ir para o restaurante?" -"Restaurante!?!" - lá fomos nós para o refeitório a quilo, que fica num prédio separado. Na volta, mais sobe-e-desce de elevador. Acabou por entrar em algumas salas de colegas e descobriu a porta que dá acesso à varanda, na sala de Virgínia e Tania, no quinto andar. Virgínia é nossa vizinha, e está acostumada com Gabriel no elevador de casa. Consegui levá-lo para o auditório, de novo. Quando começou a palestra sobre Sexualidade, estávamos na platéia e ele quis subir ao palco. Tentei impedir, mas a palestrante me disse que não a atrapalharia; a contragosto, deixei-o lá. Fiquei contrariado porque vimos tentando fazer com que Gabriel entenda que "tem coisa que não pode." De qualquer forma, Felipe, um coleguinha da Via Ponte, deu um toque engraçado na história. Enquanto a palestra corria, com Gabriel correndo junto, Felipe também subiu no palco. Ele tem microcefalia e algum retardo, mas se comunica bem e é muito curioso. Foi direto à mesa onde ficava o material das palestras: chamou-lhe a atenção um pênis de borracha, que ele pegou e ficou a observar, na frente de todo mundo. Risadas começaram a surgir na platéia, e Lúcia precisou ir tirá-lo de lá. Como Gabriel desceu também, aproveitei a deixa para nos retirarmos. postado por: Argemiro Garcia 4.11.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Segunda-feira, Novembro 01, 2004 Jornada PAE: I - a briga com o sindicatoPAE quer dizer Programa de Assistência Especial. É a assistência especial que a Petrobras oferece aos dependentes de empregados que tenham alguma necessidade especial. Há três anos, a empresa tem se preocupado em promover encontros dos assistidos, as famílias e as entidades prestadoras de serviços. A Via Ponte, escola de Gabriel, sempre participa. Este ano, a Jornada estava marcada para dias 27 e 28 de outubro. Acordei como sempre, preparei Gabriel. Mariene ia para o Encontro do Comitê da Bacia do São Francisco. Esperei. Esperei. Esperei. Seu Wilson, do transporte, não chegava. Liguei e tive a resposta: -"Argemiro, é que o carro aqueceu aqui na Barra. Daqui a pouco estou aí." -"Deixa que eu levo Gabriel, ele vai pra Petrobras, mesmo!"
Sem entender direito o que acontecia, vi Germínio, da diretoria do sindicato, que me chamava do portão lateral: -"Argemiro, você que está com o menino para a Jornada, pode entrar!" Já fui da diretoria do Sindicato, junto com Germínio. Hoje, sua esposa é diretora do sindicato dos jornalistas junto com Mariene. Além disso, eles têm uma filhinha com síndrome de Down. Mas eu saí da diretoria há tempos, protestando contra atitudes como essa, que considero autoritária; sempre defendi que o sindicato fizesse trabalho de base. E sempre fui contra a diretoria decidir à revelia da categoria. Aquela manifestação, com trancaço, não tinha sido aprovada em assembléia amplamente divulgada, no meu entender. Perdi as estribeiras e me pus a xingar, com o mais baixo calão que a minha nobre formação uspiana me permitia (A USP não é exatamente uma universidade em que se cultiva a língua solene...): -"Seus b...! Vocês não têm capacidade de organizar a categoria, vêm nos tutelar! Aqui ninguém é moleque!" Reclamei com o Geente Geral que, também irritado, me disse: -"Vá lá reclamar com eles!" Fui. Gabriel, segurando a manga da minha camisa, me acompanhava. No caminho, passei por Moisés Rocha, também diretor do sindicato, que se candidatou a vereador e não se elegeu: -"Seus b...! É por isso que você não consegue se eleger!" Ele riu e respondeu: -"Eu tive 3500 votos! Você não consegue nem metade disso!" E a adrenalina a me ferver o sangue. Chegamos, Gabriel e eu, à porta da Petrobras. Algumas pessoas me diziam que fora feita uma assembléia só de aposentados. As informações eram desencontradas e eu não tinha bom senso para saber o que acontecia. Pedi a palavra no microfone, mas Jorge França disse que ninguém ia poder falar. Fui para a frente do carro de som e abri o berro: -"A gente não é moleque! Esses caras não têm o direito de nos tutelar! Aqui todo mundo é pai de família!" e, para os diretores do sindicato: "É um absurdo! Ninguém aqui foi consultado!" Nisso, alguns colegas tentaram me acalmar. Explicaram que, às oito e meia, os portões seriam abertos. Diziam que aposentados tinham vindo de Aracaju fazer piquete. Gabriel falou: -"Entrar! Quero entrar!" -"Vamos entrar pelo fundo, então, Gabriel!" -"Nãããããããooo! Entrar! Petrobras!" -"Então, espera um pouquinho que eles já vão abrir o portão." LOgo, Germínio chegou: -"Pessoal, já vamos abrir os portões. Mas, antes, eu quero contar uma historinha." Foi a conta. Com Gabriel sempre agarrado em meu barço, caminhei para o portão. Cheguei em frente do primeiro que vi; para minha sorte, um baixinho: -"Eu voi entrar!" -"Não vai!" -"VOU!" e cheguei bem perto dele, encarando-o. Ele não vacilou: me deu uma cabeçada. Sorte que, baixinho, só me acertou o nariz, de leve. Juntaram outros aposentados que faziam o piquete terceirizado, como eu dizia: -"Fica usando teu filho!? Não pensa que não vai apanhar!" eu xingava de volta: -"Vai pra casa botar teu chinelo e fica na cadeira de balanço! Seus b...! Estalinistas! Ditadores! Bando de gorilas!" Mais um pouco, acho que teria apanhado. Alguns colegas - Nelson Araújo, Pitágoras - e um diretor do sindicato, Jorge França, interviram. Gabriel gritava. Fomos postos para dentro alguns minutos antes dos demais colegas. Foi só cruzar a catraca que Gabriel abriu um sorriso. Nada daquilo teve significado para ele. postado por: Argemiro Garcia 1.11.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Aniversário dobradoPassou tanto tempo que meu aniversário já ficou lá atrás. Dele, queria contar que Gabriel me botou para atendê-lo o dia todo: play ground, piscina, escrever, desenhar.Gabriela e Gabrielo chegaram com um mooonte de esfihas do Habib's (em superpromoção de dumping na Pituba, cada esfiha está por R$ 0,29 para quebrar o concorrente). Não tínhamos velinhas, mas usamos duas de "1", que tinham sobrado do aniversário de Gabriel. Para quem fazia 44 anos, cada uma ficou valendo por quatro... Ainda que reclamasse no começo, Gabrielzinho se postou na frente do bolo, todo animado, batendo palmas e cantando parabéns. Tivemos de correr. Leonardo ficou de um lado e eu do outro. É que Leo aniversariava no dia seguinte. Na hora de apagar a vela, Gabriel, que sempre queria apagar, mandou: -"Apaga, Miro! Apaga, Leo!" - sacou, danado, que a festa era nossa! postado por: Argemiro Garcia 1.11.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
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