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Eclipse da Lua, 2003.

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Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
Clique para entrar na
Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Quinta-feira, Outubro 21, 2004

O caminhão do Pateta!

Gabriel está com muito interesse em caminhões. Anos atrás, Mariene comprou uma coleção de livrinhos. Um deles era sobre carros e a última página era sobre a betoneira.
A porta do caminhão do Pateta!
na porta do caminhão do Pateta


O texto diz mais ou menos asism:

-A betoneira. Máquina de misturar concreto. Um grande tanque onde se põe cimento, pedras e água.

Era com esse livrinho que dávamos boas gargalhadas, na página do carro de corrida. Ficávamos os três na cama, Mariene, Gabriel e eu, que lia:

-"VRRU-UUUMMM!" - Gabriel ria e nós, junto, ríamos também.

De uns tempos para cá, Gabriel nos pega para fazer ditado. Ele nos põe para escrever suas frases. Invariavelmente, vem uma série de betoneiras:

No caminhão do Pateta, tudo colorido!
no caminhão do Pateta

-"A betoneira. Máquina de misturar concreto. Um grande tanque onde se põe cimento, pedras e água. Desenhar betoneira!" Além de escrever, temos de desenhar, também.

Surge ainda nessa história os caminhões do lixo, da Coca-cola, o da Kibon (sorvete). Muitas vezes, ele ordena:

-"Desenhar ORDEM E PROGRESSO! Retângulo verde! Losango amarelo! Círculo azul! Faixa branca! ORDEM E PROGRESSO!" enquanto vai nos dando as canetinhas nas cores certas.

Neste sábado, Gabriel pediu:

-"Kinder Ovo! Não é Kinder Ovo! É Kinder Rói!" Completei o jogo:

-"Não é Kinder Rói! É Kinder Joy! Só tem nas Lojas Americanas!"

-"Pop Cóóorn!" Explico: há um carrinho de pipoca no shopping, que fica ao lado das Lojas Americanas. Fomos, e ele se instalou na Byphone, onde ele é mascote, ao lado das Americanas. Deixei-o com os amigos e fui procurar o tal chocolate, vendido a um preço exorbitante, com uma fila enorme - claro que não comprei.

Ao fundo a moça que emprestou a mola ao Gabriel.
no caminhão do Pateta

Voltei e, ao ver que eu estava sem o chocolate, correu para fora, para passear. Entoru na Insinuante só para se sentar um pouco no sofá e logo saiu.

Mas, no Shopping Iguatemi, estava aberto à visitação o Motor home do Pateta, patrocinado pela VISA. Quis entrar no caminhão do Pateta:

-"Caminhão do Pateta! Quero caminhão do Pateta! Não quero caminhão do Pateta!"

"A roda do caminhão do Pateta!" Dá pra ver que batia as mãos, em movimentos estereotipados.
A roda do caminhão do Pateta
Uma das moças mora em nosso prédio e eu nem a conhecia, mas ela conhecia Gabriel - o que não adiantou nada: das 2 às 6 da tarde o motor home ficava fechado, enquanto o próprio Pateta posava para fotos com as crianças. Até que a fila não era grande, e Gabriel entrou logo (eu não quis fazer uso da prerrogativa de passá-lo na frente). Feliz, foi direto para a porta fechada do "caminhão" e se irritou de novo ao ver que não entraria. Não estava nem aí pro Pateta! Reclamou mais um pouco, gritou, me bateu, mas nesse dia eu não estava nem um pouco preocupado, diferentemente do dia anterior. Acabei convencendo-o a voltar para o carro e para casa, depois de muuuuuuuuita conversa.

De noite, o contrário: mais um monte de lábia para levá-lo ao shopping - e ele entrou no caminhão! Dessa vez, passei-o na frente, para poupar-nos de mais stress. Ficou meio decepcionado, mas foi bonitinho quando veio até a porta do trailer, cheio de badulaques e bugigangas para imitar o que o Pateta teria em casa, tudo colado nos móveis para as crianças não poderem pegar, e me pedir. baixinho:

-"Bate-bate..." Queria um par de objetos para poder soltar suas estereotipias!

Uma das moças, Juliana, se não me engano, conseguiu-lhe uma mola de plástico e ele se deu por satisfeito. Ficou quietinho, sentado no meio das outras crianças, batendo a molinha. Logo, enjoou e fomos embora.

postado por: Argemiro Garcia 21.10.04

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Caruru

Ainda no dia 15 à noite, saímos para um caruru da Associação dos Engenheiros Agrônomos da Bahia: Mariene, Gabriel, Pedro, Leonardo, William, amigo deles e eu.

Caruru é uma refeição de festa em Salvador. Tradicionalmente era feita para homenagear os orixás. O caruru, mesmo, é um cozido de quiabo. Mas a refeição toda inclui arroz branco, vatapá, feijão fradinho e xinxim de galinha (um cozido de frango temperado com leite de coco e azeite de dendê). Tem gente, inclusive, que se recusa a comer um caruru, mesmo que seja "profano", por questões religiosas!

Chegamos. Era perto do Campo Grande, no Bar Quintal, da Associação, ao lado do Passeio Público. Cadê que Gabriel quis descer? Na praça em frente ao Passeio fica um monumento de 1815, comemorativo da passagem do príncipe Dom João VI, todo escrito em latim. Só lembro da primeira palavra: JOANI. Mariene foi para o caruru muito bem escoltada pelo trio. Fiquei com o pequeno na praça.

Acontece que ficar em uma praça à noite, por mais bem iluminada que esteja, sempre preocupa. Nos bolsos, chave do carro, máquina fotográfica, carteira de documentos e algum dinheiro. Fui ficando ansioso, enquanto Gabriel apontava para o obelisco:

-"Qué isso aqui?"

-"Obelisco."

-"Qué isso aqui?"

-"Joâni."

-"Qué isso aqui? Eme!"

Li, como se escreve:

-"Eme, de, ce, ce, ce, xis, ve!" MDCCCXV - a data de inauguração do monumento, em algarismo romanos. Tentei explicar: "Olha, Gabriel: aqui está escrito 1815!" E, apontando: Mil, de é quinhentos, mais ce, que é cem, mais cem, mais cem, dá trezentos..."

-"Qué isso aqui? Joani." (sílaba tônica no "I"). Repeti, mas já ficava nervoso:

-"JOANI! Gabriel, vamos levar a chave do carro pra mamãe!"

-"NÃÃÃÃÃOOOOO!!!"

A queda-de-braço durou uns cinco minutos, até que resolvi tomar uma atitude: peguei-o pelos cabelos, na parte de trás da cabeça (se pego pelo braço, ele se joga no chão). Ele gritava, mas fomos para o bar. Surgiu um novo problema: o bar fica numa encosta, no quintal de um casarão. É preciso descer uma escada. Soltei-o, mas ele passou a gritar:

-"JOANÍ!!! EU NÃO QUERO JOANI! EU QUERO JOANI!"

Descemos as escadas e me debrucei em uma sacada, de onde se via o quintal. Mariene me avistou, e veio ter conosco:

-"Eu já vou ficar com ele!"

-"O problema não é esse. Eu só quero que você fique com as chaves do carro e a máquina, pro caso de sermos assaltados, não nos levarem embora!"

Então, subimos, deixando Mariene lá embaixo com as coisas - ele ainda gritando. Agora, eu procurava acalmá-lo:

-"Agora podemos ficar lá no Joani. Vamos!"

Ele gritou ainda uns cinco minutos, um pouco menos, talvez. Acabou com sua música tema de fim de piti:

-"O poder faz a gente enlouquecer, faz a gente fazer coisas, pra depois se arrepender..." - que ele aprendeu no www.charges.com.br, uma música para o senador ACM. Como mágica, se acalmou, ficando pela praça comigo ao seu lado.

Mais um pouco, chega Mariene com dois pratos de caruru. Quase fomos abordados por dois mendigos que tinham se deitado aos pés do obelisco de Dom João VI. Gabriel se sentou sobre o capô do carro e comeu um pouquinho. Mastigou todo o frango e o cuspiu no prato. Leo, Pedro e William chegaram e pude então descer para acabar meu prato.

postado por: Argemiro Garcia 21.10.04

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Sábado, Outubro 16, 2004

Palavrões e teoria da mente

Este post tem uns palavrões; se você não gosta de ler esse tipo de coisas, pule o texto de hoje.
Cheguei em casa, ontem, dia 15 de outubro. Mariene me chamou escondido para o quarto:

-"Gabriel estava escrevendo com o normógrafo, e escreveu Tomando cu! Daí, eu falei para ele: 'Gabriel! Como você escreve isso! O que teu pai vai dizer!' Ele, rapidinho, amassou a folha, dizendo:"

-"Amassa! Joga no lixo!"

E me mostrou o papel, que ela tinha guardado. Clicando aqui você vê a figura...

Importante foi ele conseguir antever que poderia tomar uma bronca, antevendo minha reação: foi capaz de se colocar no meu lugar!

postado por: Argemiro Garcia 16.10.04

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Quarta-feira, Outubro 13, 2004

Puxando prosa


Ontem, dia 12, feriadão de Nossa Senhora Aparecida e Dia das Crianças, Gabriel veio pedindo:

-"Veste sunga, pai!"

Voltamos á piscina do prédio - ficamos da uma e meia às cinco e meia da tarde, o que me rendeu uma insolaçãozinha leve.

As brincadeiras eram as mesmas de domingo: corríamos de mãos dadas, caindo na água aos berros, mergulhamos, ele escorregava.

Lá pelas tantas, vem Lucas, nosso vizinho de uns quinze anos de idade que tem síndrome de Down. Brincamos bastante, mas Lucas, aos poucos, vai ficando agressivo. Imita as brincadeiras dos garotos de sua idade, querendo "brincar de luta", empurrar Gabriel para dentro da água, afundar nossas cabeças na água - e não gosta de ter chamada sua atenção. Quando começou a escurecer (em Salvador, escurece cedo), Mariene desceu com a toalha. Voltei para casa, avisando a Gabriel que ia tomar um banho quente e que ele devia fazer o mesmo. Mais uns minutos, chegaram os dois para o "almoço".

Mas ele não se dava por satisfeito, e tanto exigiu que acabamos por descer de novo. No play ground, uma família batia papo: pai, mãe, filhos e avó. Gabriel chegou perto, puxando prosa:

-"Boa tarde!"

A família respondeu em uníssono:

-"Boa noite!" - Gabriel não se deu por satisfeito, repetiu seu "Boa tarde" e se afastou, dando suas batidinhas no peito e na nuca. Deu umas voltas e retornou:

-"Qual o nome?" - desta vez, apontando vagamente para a senhora; eles não entenderam e deram o nome da menina:

-"Renata!" Discretamente, o menino olhou para o pai e fez um gesto característico: rodou a mão em volta da orelha, com o indicador apontado para sua cabeça - o gesto tradicional para maluco.

O pai começou a explicar que não, que Gabriel era apenas diferente. Aproximei-me e expliquei o que era essa diferença. Falei de autismo, da dificuldade em se comunicar, da vontade em conversar que ele tem. A senhora da família, Dona Gerusa, contou que conhece uma família que tem um filho autista, já rapaz - e comentou que Gabriel está bem melhor do que o seu conhecido. Gabriel se dirigiu a ela algumas vezes, dando-lhe "Boa noite, Renata" - acertou seus ponteirinhos. Mas viu algumas crianças com bicicletas e pediu:

-"Bicicleta!" Respondi:

-"Mas, Gabriel! a bicicleta está com o pneu murcho!"

-"Bicicleta!"

-"A bicicleta está quebrada." - ao que ele comentou, bem baixinho, quase inaudível:

-"Tá quebrada." E, depois, aos gritos: -"BICICLETA!!"

Subimos. Ele aos berros. Mariene e eu lhe mostramos a bicicleta, com os pneus murchos, o banco roído pela Marquesa e a manopla pintada de guache pelo Salvador Dali da casa. A resposta?

-"Bicicleta! IARH! IARH! BICICLETA!!!"

Pedro, a pedido da mãe, pediu pelo MSN quem teria no prédio uma bomba para encher os pneus. Dinho, o filho de nosso síndico, Fernando, tem. Foi Dôra, sua mãe, quem nos atendeu.

Enchemos os pneus, agradecemos a ela e descemos. Acha que Gabriel queria andar de bicicleta? Queria o pai pedalando, com a elegância de um urso de circo, para ficar em pé na garupa!

Mas Mariene e eu tínhamos outros planos. A partir de agora, ele vai ter de pedalar (com a gente segurando) até pegar o jeito de andar.

Como disse o pessoal da Comunidade Virtual Autismo no Brasil, precisamos insistir.

postado por: Argemiro Garcia 13.10.04

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Terça-feira, Outubro 12, 2004

Uma frase a mais, uma brincadeira nova


Neste domingo, dia 10 de outubro, Gabriel nos surpreendeu mais uma vez.

A semana inteira foi sossegada; carro quebrado, a preguiça tomou conta dele: me botava para fora de casa se queria alguma coisa, sem querer me acompanhar ao Hiperbompreço - olha que moramos a menos de 500 metros do supermercado!

No domingo, depois do almoço, Gabriel veio pedindo:

-"Sunga!"

-"Tá, Gabriel, já vai!"

-"Sunga! Veste sunga!" - vestido, continuou a pedir, agora apontando para mim:

-"Sunga! Veste sunga! Veste sunga, pai!" - pronto! Descemos ao PG.

Na piscina, um rapaz ensinava uma garotinha a nadar. Gabriel apontou:

-"Qué isso aqui?"

-"Quem, Gabriel?" - ele apontou de novo e, desta vez, a pergunta mudou:

-"Qual o nome?"

Bom, claro que fiquei superfeliz! Ele conseguiu diferenciar, na pergunta, a pessoa do objeto. Ele já distingüía mas, desta vez, um esforço a mais trouxe a frase nova, que ele usou mais umas três vezes. Fomos para peerto do rapaz, para eu saber a quem ele se referia:

-"Quem você quer saber o nome, Gabriel?" - de perto, apoontou o dedo na direção do rosto do rapaz e lascou:

-"Qué isso aqui?"

-"Ele quer saber seu nome!"

-"Cláudio!" - e Gabriel saiu cantando:

-"Cláudio não lava o pé, não lava porque não quer..." - o pessoal da família já conhece Gabriel, só expliquei que ele queria saber o nome.

Mas as novidades não pararam por aí. Brincando dentro da água, ele se saiu com mais essa:

-"Monstro! Roáááááár! Mergulha!" - não me fiz de rogado. Passei a brincar de "monstro" com ele. Gritava, saía de dentro da água para morder sua cabeça, corria atrás dele.

Mais um pouco, Ângelo, um amigo dos meninos, apareceu com seu violão. Gabriel, que agora estava no alto do escorregador, fixou o olho no rapaz, mas só ficou rondando. Logo chegaram Pedro, Leonardo e uma tropa de amigos.

-"Pai, a mamãe pediu para você subir um pouco."

-"Vocês fiquem, então, brincando com Gabriel."

-"Tá, pai!"

-"Entra na água, então!"

-"Tá!"

Henrique, outro rapaz do prédio (é difícil chamar os "meninos" de "rapazes"), deve ter sentido o drama e tomou a iniciativa de jogar Leo na piscina - juntos, Henrique e eu o pegamos e ele foi para a água.

A rapaziada, então, se pôs a brincar de jogar uns aos outros. Gabriel ria, enquanto não era com ele. Mas, quando Luís e Leo o pegaram, se pôs a gritar. Precisei entrar na história - claro que para ajudar a jogá-lo. Com o pai segurando, o medo passou e ele voou para dentro da piscina.

Achando que dariam atenção a Gabriel, subi, mas uns quinze minutos depois a porta se abria e Gabriel entrava:

-"Piscina! Descer!"

Não tem jeito. Irmão mais velho não brinca com irmão mais novo, mesmo.

Descemos, os três, Mariene, Gabriel e eu.

Com os grandes já fora da piscina, muitas crianças voltaram. Tanta gente da sua idade por perto deixou Gabriel excitado, e ele ficava dando voltinhas em torno da piscina, com pulinhos e batendo a mão na nuca e no peito. Como essa estereotipia é muito esquisita, e as demais crianças estranham, Mariene e eu ficamos desviando sua atenção, para ele diminuir esses movimentos. Deu certo, mas ele não consegue entrar na brincadeira. Algumas meninas o chamavam, para lhe devolver seus batuquês - que é como chamamos quaisquer objetos que ele use para bater no corpo e que, naquele dia, eram duas castanhas de uma árvore da pracinha.

Como a piscina do predio é redonda, as crianças seguram nas bordas e vão dando voltas, todas no mesmo sentido, até formar uma correnteza bem forte. Tentei umas três vezes entrar com Gabriel no meio dos outros para ajudar a fazer a corrente, mas ele não gostou da coisa.

Então, dentro da água, fizemos a brincadeira da panela de pressão: eu o seguro no meio da piscina e falo, bem ritmado:

-"Panela de pressão, pra cozinhar..." - e ele responde:

-"Mendoim!"

-"Isso! Amendoim! Panela de pressão, pra cozinhar amendoim! Tchuc Tchuc Tchuc Tchuc Tchuc " - e fico a rodá-lo, umas duas voltas. Depois, recomeçamos:

-"Panela de pressão, pra cozinhar..."

-"Aipim!"

-"Aipim! Legal! Panela de pressão, pra cozinhar aipim! Tchuc Tchuc Tchuc Tchuc Tchuc..."

-"Panela de pressão, pra cozinhar..."

-"Milho!"

-"Milho! Legal! Panela de pressão, pra cozinhar milho! Tchuc Tchuc Tchuc Tchuc Tchuc..."

Cozinhamos batata, carne, frango, canja, sopa...

O verão vem chegando e as brincadeiras na água, as velhas e algumas novas, reaparecem - para todos.

postado por: Argemiro Garcia 12.10.04

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Segunda-feira, Outubro 11, 2004

Aperta o verde! Confirma!


Pilililíu! E Gabriela votou!
Domingo, dia 3, era dia de eleição. Acordamos meio tarde, e Gabriela veio nos buscar. A família toda de vermelho, saímos de vermelho-Pelegrino, com bottoms e adesivos dos nossos vereadores. Leonardo reclamou do mico e Gabriel não se dispunha a sair de casa:

-"Gabriel, vamos votar!"

-"NÃÃÃÃÃOOOO!"

-"Vamos, Gabriel: aperta o 1, aperta o 3 e confirma!" - ele sorriu:

-"PILILILIU!"

Apertados no carro, bandeiras pra fora, fomos primeiro para a Escola Girassol, onde Mariene vota. Lá chegando, Gabriel se pôs a gritar:

-"SORVETERIA! SORVETERIA" - não teve jeito. Resolvemos deixar Mariene votar - ele nem quis ver, como fez há dois anos atrás - e nos mandamos para a Barra, para a sorveteria Capri, a dos hot dogs. Antes, tivemos o prazer de ver uma pesquisadora do IBOPE entrevistando eleitores! Mais difícil que ver cabeça de bacalhau!

Foi difícil encher a barriguinha de Gabriel... (Barriguinha? Eu disse barriguinha? Rá! Rá!) De lá, saímos para Brotas, onde Gabriela vota: e tome mais protestos de Gabriel! Mas, desta vez, aquietou-se quando entramos na Escola. Bebeu água no bebedouro e foi assistir a irmã votar. Acompanhei, enquanto Mariene, Leonardo e Pedro ficavam esperando. A sessão estava vazia e demoramos pouquinho.

Por último, eu... Voltamos para perto de casa, para o Colégio Nobel, onde voto. Nem para me ver votar ele quis entrar na seção. Ficou brincando nas escadas. Ainda quis tirar chocolate em uma máquina automática - pegou, mas os irmãos é que comeram.

Sopa de feijão, para tentar encher essa barriga!

Gabriel ainda quis ir para o Hiper, onde foi brincar nos tapetes da Nestlé - Ninho Soleil, como ele diz. Ficamos, Gabriela e eu, conversando e acompanhando-o pelo mercado; parece que a fome era grande, mesmo, porque o baixinho ainda atacou uma tigela de sopa de feijão da Sopastéis. Mariene, Leo e Pedro foram para casa.

Depois de mais um tempão por ali, voltamos para casa. Gabriela tinha planejado assistir às apurações no Farol da Barra, mas Gabriel se negou:

-"EU NÃÃÃÃOOOO!" - quando decidimos ficar por aqui mesmo, no conforto das televisões e da internet, resolveu ser do contra:

-"SAIR! QUERO SAIR!"

-"Agora, não, Gabriel. Somos nós que queremos ficar em casa! Não dá, né, Baixinho!" - e teve que se conformar. Gabriel, hoje em dia, está conseguindo administrar bastante suas frustrações.

Assistimos, acompanhando por internet, telefone, televisão - Gabriel Pinheiro, o Gabrielo, nosso genro, estava cobrindo as eleições para a Band; Gabriela não resistia e de vez em quando ligava para ele.

Foi assim que acabamos a noite decepcionados por ver nossos candidatos perderem, dessa vez: Gilmar, meu candidato, ficou com a quarta suplência, Vânia, em quem Mariene votou, ficou com a primeira. Nelson, por 3 mil e poucos votos não foi para o segundo turno, sendo passado para trás pelo Cézar Borges, do PFL de ACM. Não foi, ainda, desta vez.

postado por: Argemiro Garcia 11.10.04

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Terça-feira, Outubro 05, 2004

Sábado de sol


No stand da Nestlé, Gabriel brinca com Carol e Lara.
Stand da Nestlé
Sábado, dia 2 de outubro. Gabriel acordou e se pôs a me atazanar para que fôssemos à...

-"SORVETERIA! SORVETERIA"

Desisti de mexer com o micro e me preparei para sairmos. Ana chegou - como quase todo dia - atrasada e perguntou:

-"Seu Miro, o senhor comprou material de limpeza?"

Minha idéia era ir com Gabriel à Lapa, procurar normógrafos. Gabriel usa essas réguas vazadas com letras, ou normógrafos, para escrever. No post do dia 16/7 deixei o relato O Escritor, contando como foi que essa história começou. Acontece que ele prefere réguas transparentes, porque consegue ver o que já escreveu e, assim, alinhar as letras - e a regüínha transparente estava quebrada (Mariene comprou uma nova, já). Aproveitei, então para pedir a Ana para me acompanhar ao Hiperbompreço. Fomos, então, Gabriel, Ana, sua irmã Daiana e eu.

Gabriel foi no caminho reclamando:

-"Sorveteria! Sorveteria! Ônibus! Quero ônibus! Andar de ônibus!" (Nosso carro está com um rolamento quebrado, e não tenho encontrado tempo para levá-lo ao mecânico).

Chegando ao Hiper, Gabriel disparou em direção ao stand da Nestlé. Deixei-o lá, para preocupação de Ana:

-"O senhor vai deixar ele aí?" - Deixei e fomos atrás do sabão, detergente, bombril...

Já na fila do caixa, uma senhora que trabalha como repositora do supermercado veio falar comigo:

-"Faz tempo que não vejo o senhor! Venha ver o meu menino!" - e chamou-o. Seu nome é Edvaldo, se não me engano. Ele tem uma fisionomia característica, mas não sei do quê. Ela disse que é "síndrome de Nuni"; ainda soletrei, e ela confirmou. O menino é quietinho, está atrasado na escola, mas se comunica bem. Na internet, a síndrome de Nunes se refere a lactação sem gravidez - com certeza, não tem nada a ver com o garoto!

Ana e Daiana voltaram para casa e fiquei tomando conta de Gabriel de longe. Nisso, encontro o Afonso, assessor do vereador Gilmar - 13610 -, meu candidato derrotado - fazer o quê?! - Ele tem um bom trabalho com pessoas deficientes, mas não vai voltar para a Câmara. Aproveitei para pedir uma camiseta para votar a caráter. Conversamos muito sobre o PT; Afonso fôra colega de Mariene, quando os dois assessoravam o deputado estadual Zé das Virgens. Gabriel veio pedir:

-"Venha, pai! Coxinha!" - mas pedi que esperasse e continuei a conversa. Gabriel desistiu de comer no bufê do Hiper e sumiu; eu já sabia onde fôra. Afonso ficou de passar em casa e fui atrás do pequeno.

Lá estava ele: na praça de alimentação. Compramos pão com manteiga e, depois, lasanha a quilo - da qual ele comeu só a metade e sumiu de novo. Eu já sabia onde estava, no entanto: voltou para o stand da Nestlé.

Levei-o para o pula-pula, mas ele ficou pouco. Depois, o Dom Quixote Hair Cut - sob protestos, claro!

-"Vamos cortar o cabelo, Gabriel!"

-"Eu nãããããooo!" - engrossando a voz e fechando a cara.

Sentei na cadeira enquanto ele apontava para a escada que leva ao mezanino da loja, onde trabalham as manicures:

-"Majirel! Subir no Majirel!" - explico: dois cartazes dos xampus Majirel estavam afixados na parede da escada. Por uma dedução lógica, a escada ganhou o nome; afinal escadas têm cartazes indicando para onde vão, não é?

Nem foi preciso insistir muito; ele veio a contragosto, mas veio. Bravo, me deu umas cabeçadas na testa, mas Beth, sua cabeleireira oficial, concordou comigo que as pancadas estavam mais controladas. Acabado o corte, Majirel nele: lá se foi para o andar de cima!

Depois, voltamos para casa, de novo sob protestos.

Já à tardinha, saímos para dar uma volta. Mariene, que ficou em casa revisando um texto do Comitê de Defesa do Rio São Francisco, conseguiu assistir à reportagem do Jornal da Band sobre a Comunidade Virtual Autismo no Brasil.

Voltamos para casa às dez da noite. Dormi como um leitão - roncando pesadamente. Só lembro de Mariene me acordando para virar para o lado.

postado por: Argemiro Garcia 5.10.04

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Segunda-feira, Outubro 04, 2004

Mais conhecido que Ronaldinho

Sexta-feira, Mariene me ligou:

-"Miro, você já pode sair? Estou no Hiper com Gabriel há duas horas! Saímos para ir à Rita, mas ele pediu para entrar aqui e não quis mais sair!"

Fui encontrar com eles. Mariene, que não suporta frio e já tinha sofrido muito com as correrias pela sessão de margarinas e manteigas, me pediu para ficar com ele.

Entrei com Gabriel, enquanto Mariene foi conversar com Dôra, uma das baianas de acarajé. Dôra também tem um menino autista, o Felipe, e tivera uns problemas no dia anterior.

Comigo, Gabriel se espraiou pelo Hiper. Foi para a peixaria, enquanto eu buscava as compras: ração para os gatos, comida, material de limpeza. Então, ele sumiu.

Nada preocupante: bastou dar uma procuradinha e lá estava ele, num stand da Nestlé, onde duas moças atendiam as crianças com brincadeiras.

Quando entrou na área da Nestlé, as moças ficaram preocupadas, pois ele não respondia nada. Na loja fica um locutor, microfone sem fio na mão, anunciando as ofertas do dia. Foi ele quem explicou:

-"O pai dele está por aí. Todo mundo na loja conhece ele. Ele não fala, mas o pai está por aí."

Quando eu apareci, e o rapaz me apontou, elas relaxaram. Falei que Gabriel é autista, dei o endereço do Canto de Anjo, claro, e expliquei alguma coisa sobre autismo. E brinquei que, se for preciso, o locutor me chamaria:

-"Pai do Gabriel, ele se encontra na sessão de leite tetrapack!"

Sossegado, Gabriel se pôs a perguntar:

-"Qué isso aqui?" - e ficou contente com os nomes das duas, Carol e Lara.

Foi Carol quem se interessou mais pelo caso - até já fez uma visita ao blog e deixou um comentário. Estudante do primeiro semestre de Fisioterapia na UCSal (Universidade Católica do Salvador), conversamos muito. Havia crianças pequenas, apenas, o que não inibe Gabriel, que foi perguntando:

Mas Gabriel logo me mandou rodar:

-"Fala tchau, pai!" - e deixei-o mais um tempo com as moças. Fui pagar as compras, depois de enrolar mais um pouco - e lá estava Gabriel do lado de fora dos caixas.

Uma promoção da Marilan pedia que comprássemos dois pacotes de biscoitos para dar direito a um tempinho em um pula-pula. Mas Gabriel chorava que queria sorveteria - e, como estamos dando-lhe limites, tivemos que dizer muitos Nãos. Do pula-pula, nem quis ouvir falar!

Fomos nos encontrar com Mariene, que ainda conversava com Dôra, e voltamos para casa. A choradeira continuou por mais uns 40 minutos, até que sossegou.

Dôra e Felipe


Mariene comentou que Felipe tinha ficado muito nervoso esses dias - acabou machucando Dôra e um vizinho.

Felipe tem 13 anos, mas é um garotão - o Negão da mãe, como diz Dôra.

Felipe fala um pouco menos que Gabriel: sabe pedir as coisas, dizendo o nome delas. Pede:

-"Leite Condensado! Coco!" - e faz uma panela de beijinho, que come toda. (Filho de baiana tem que ser bom cozinheiro, não é?)

Esses dias, Dôra levou-o a um atendimento na Caixa d'Água, um SAP (Serviço de Atendimento Psicossocial. Ela estava cheia de esperança, mas não pOde inscrevê-lo porque moram em Itapuã, do outro lado da cidade.

Além disso, a irmã de Felipe levou umas amigas para casa e elas ficaram irritando-o.

Tudo isso deve ter acumulado sua irritação até que explodiu. O resultado é que foi levado ao Hospital Juliano Moreira, onde foi medicado com neurolépticos e voltou para casa.

Conversando, Mariene tentou ajudar Dôra a entender os porquês da irritação do menino e, claro, emprestar um ombro amigo.

postado por: Argemiro Garcia 4.10.04

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Sexta-feira, Outubro 01, 2004

Sangue nas mãos!


Voltava para casa, ontem à noitinha, a pé, pensando na vida. Ali pelo meio do Itaigara, em frente àquela que foi a Escola Aplicação (nada a ver com a Universidade), hoje comprada pelo Colégio Mendel, reparei no meio da rua: um gatinho "adolescente" acabara de ser atropelado e, com a coluna quebrada, se contorcia todo. Um carro quase acabou de esmagá-lo, mas acabou só por aumentar seus ferimentos.

Andei até o meio da rua e, preocupado em não ser ferido, chuteio-o para fora da rua. Ele voou e aterrisou na calçada. Peguei-o, fui até um poste e acabei de sacrificá-lo.

Com a mão suja de sangue, voltei para casa. Chegando, sem falar nada, para não impressionar Gabriel, apenas mostrei a mão para Leo e fui ao banheiro lavar-me. Não contava ocm a capacidade de observação de Gabriel. Curioso, veio atrás de mim, pegou minha mão e perguntou:

-"Qué isso aqui?"

-"É sangue de um gatinho que foi atropelado por um carro."

Ainda reparou no sangue que manchara minha calça. E me deixou com a água e o sabão.

postado por: Argemiro Garcia 1.10.04

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