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Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
Clique para entrar na
Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Terça-feira, Setembro 28, 2004

Família à beira de um ataque de nervos


O dia começou mal. Esperei até oito horas o "Seu" Wilson vir buscar Gabriel, que já prontinho, de farda, estava a cochilar no sofá. Tocou o telefone, era da Via Ponte, avisando que o carro dele tinha quebrado. Gabriel passou a manhã em casa. Rotinas se quebravam...

Para piorar, o patetão aqui se esqueceu de pagar duas contas de luz. Está certo que a conta de agosto não foi colocada na caixinha de correio, mas eu nem me liguei que a conta não tinha sido paga. Sempre me prometo montar uma planilha de ocntas a pagar e nunca a atualizo. Para piorar, tive exame médico periódico na sexta-feira e Mariene não conseguia me localizar. Quando voltei para a sala, o recado: "Mariene quer falar com você!"

-"Oi, Mariene!?"

-"Miro, você pagou a Coelba?"

-"Paguei... acho."

-"A Coelba cortou a luz." - já era hora do almoço. Fui para casa e nada de achar a conta de agosto: nem paga, nem sem pagar. Voltei para o trabalho e fui ao posto de serviço do Banco do Brasil. Paguei, mandei religar. Mas...

No começo, Gabriel entendeu. Porém, sem ter o que fazer, quis pôr uma fita no vídeo. Das duas às quatro da tarde, Mariene e Ana apanharam, com beliscões, puxões de cabelo e cabeçadas. Mesmo com a luz religada, ele não conseguia se acalmar. E, de sangue quente, resolveu pedir o livro CRIARTE, que compramos quando ele freqüentava a Educarte, em 1999! Das cinco às sete da noite voltou a ficar nervoso: mais gritos, agressões...

Cheguei em casa para pegar o fim do ataque de nervos. Procurei o bendito do livro, mas nem tinha por onde começar: todos os cantos da casa tinham sido vasculhados por Mariene e Ana. Mais uns quarenta minutos de show e Gabriel aceitou tomar banho. Começou a se acalmar; convidei:

-"Gabriel, vamos no shopping ver se a gente acha o CRIARTE?" - enquanto isso, Mariene rodava a internet para tentar localizar o tal livro, e nada!

-"Fala tchau, Miro!"

-"Você não vai comigo? Vamos pro Iguatemi!"

-"Tchau, Miro!"

Rodei as livrarias do shopping: Civilização Brasileira e Distribuidora de Livros Salvador; a Siciliano não vende livros didáticos. A vendedora da Civilização me disse a editora.

Tocou o celular:

-"Miro, Gabriel está pedindo Fanta. Aproveita e compra mais cigarros, que os meus acabaram."

Passada a tempestade, tudo se normalizou.

postado por: Argemiro Garcia 28.9.04

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Domingo, Setembro 26, 2004

Criatividade dá a professor prêmio do Estado

| O Estado de S.Paulo | 10/02/2004 | Mandado pela minha irmã, Silvia |

Heitor é meu primo, gente! Parabéns, cara!

Dar aulas de química numa escola onde não há laboratório de química é um desafio com que o professor Heitor Moura Erhard aprendeu rapidamente a lidar. Volta e meia, ele aparece na sala de aula da Escola Estadual Padre Anchieta, no Brás, zona leste, com caixas de papelão debaixo do braço, sais, reagentes, material reaproveitado do lixo, coisas compradas às vezes com seu dinheiro. "Tem de usar a criatividade para fazer os alunos aprenderem a pensar", diz Erhard, de 43 anos.

Químico formado pela Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, ele foi um dos professores escolhidos pela Secretaria de Estado da Educação este ano para receber o bônus máximo como reconhecimento do trabalho em classe.

São R$ 6 mil (ainda sem os descontos do Imposto de Renda), que serão depositados hoje em sua conta-salário. Isso significa mais de quatro vezes os R$ 1.270 que Erhard leva para casa todo mês para dar 32 horas/aula por semana a 16 turmas - de dia e à noite.

A secretaria levou em conta o número de faltas dos professores, seu engajamento em projetos da escola, o número de alunos atendidos e se seu trabalho contribuiu para reduzir a evasão escolar. Criado em 2000, o bônus será pago a todos os mais de 170 mil professores e 18 mil gestores da rede.

Os valores variam de R$ 1.200 a R$ 6.000 (para os docentes) e até R$ 7.000 (para os gestores).

Colega de Erhard, a professora de matemática Laurinda da Conceição Miranda, de 48 anos, também recebe hoje o bônus máximo. Por iniciativa própria, Laurinda criou no ano passado um projeto de reforço na escola para tirar dúvidas dos alunos. Também participou de trabalhos conjuntos com professores de outras matérias e não teve uma falta sequer ao longo do ano.

No magistério desde 1979, ela tem um salário líquido de R$ 1.451. Se já pensou em mudar para uma área mais rentável? "Não. Estou na profissão por amor. Tenho compromisso com os alunos e me empenho para ajudá-los a ter sucesso."

A professora ainda não sabe direito o que vai fazer com o bônus, mas deve aplicar na reforma de sua casa. Erhard pensa em fazer o mesmo. Casado e pai de três filhos - todos alunos da rede pública -, ele começou a dar aulas em 1983. Parou e voltou a lecionar algumas vezes. Há cerca de dez anos está na rede pública. Em 2000 foi efetivado. "O ensino público está melhorando, mas é preciso mais investimento." Enquanto isso não vem, ele continuará a dar as aulas com criatividade e improviso. Até agora deu certo.

Criatividade dá a professor prêmio do Estado - só para assinantes
http://txt.estado.com.br/editorias/2004/02/10/ger011.html

postado por: Argemiro Garcia 26.9.04

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Quinta-feira, Setembro 23, 2004

Atrás do caminhão do lixo, só não vai...


Pois é. Gabriel pediu - de novo - para acompanhar o caminhão de lixo. Foi sexta-feira, dia 17, véspera da Olimpíada Inclusiva. Lá fomos nós, Mariene, Gabriel e eu, acompanhar detidamente o recolhimento de todo o lixo da rua.

De tão feliz - excitado, mesmo - Gabriel pulava e precisamos dar-lhe muitas broncas para que não avançasse para o meio da rua.

Mas o caminhão de lixo foi embora e, com um pouco de insistência, voltamos para casa.

No domingo...

Passeando de ônibus


...não é que Gabriel decidiu, já de noite, nos torrar a paciência?

-"PASSEAR DE ÔNIBUS! SORVETERIA CRAPI! NÃO É SORVETERIA CRAPI! É SORVETERIA CAPRI! SANDUÍCHE HALLS!"

-"Você quer ir para a Sanduíche Halls ou para a Sorveteria Capri?" - pensou, pensou...

-"Creperia!" - ao lado do ponto de ônibus, na Avenida Paulo VI, abriu uma creperia. Já estávamos no ponto e ele, que não é bobo, quando viu a placa, tratou de querer inspecionar a novidade:

-"Tá bom. Então a gente vai pra creperia e depois volta pra casa, tá?" - logo desistiu da idéia, e optou pelo passeio mais longo:

-"Sorveteria! Ônibus da BTU!" - logo estávamos a caminho da Barra. Lá chegando, Gabriel parou extasiado em frente à estufa de salsichas, onde elas ficam rodando dentro de uma vitrine aquecida. Em cima, escrito HOT DOGS.

-"É por isso que ele pede hot dogs para vir aqui!" - a gente sabia dos cachorros-quentes, mas não tínhamos nos ligado que estava escrito no plural!

Abraçando o mundo


Decidimos voltar a caminhar com Gabriel e levá-lo para passear na pracinha. Afinal, ninguém agüenta ir toda notie ao supermercado, não é?

Terça-feira, dia 2a, Pedro foi conosco - Gabriel, Marquesa e eu - para a praça. Minha intenção, mesmo, era caminhar o bairro todo; Pedro queria fazer ginástica; Marquesa queria correr atrás dos outros cachorros e Gabriel queria...

-"PASSEAR DE ÔNIBUS!"

-"Não, Gabriel! Eu não trouxe dinheiro!"

Aceitou o argumento. Ainda pediu fiado uns bombons Serenata de Amor - até cantou uma música falando de serenata. Enquanto Marquesa corria, Pedro e eu o empurramos no gira-gira - eu nunca o tinha visto tonto, mas ele saiu rodopiando. Ficou completamente sem chão!

Dali, fomos rodar o bairro. Subimos uma escadaria para a rua de cima; Marquesa e Pedro correram na frente. Gabriel apontou para umas árvores:

-"Qué isso aqui?"

-"Embaúba!"

-"Qué isso aqui?"

-"Ah, essa daí eu não sei!"

-"Qué isso aqui?" - percebi que apontava para o tronco:

-"Isso aí é o tronco da árvore." - deu-se por satisfeito.

Rodamos mais um pouco. Lá na frente, Gabriel abraçou uma árvore com força. Achamos graça. Abraçou outra; desta vez, Pedro e eu o ajudamos. A seguir, o abraçado foi um poste, mas não permitiu que participássemos. E logo quis ir para casa. Tinha uma explicação, e descobrimos quando chegamos:

-"Tou com a barriga doeeeeindo!"

postado por: Argemiro Garcia 23.9.04

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Segunda-feira, Setembro 20, 2004

Cachorrinho Bravo


Gabriel e o cachorrinho bravo no CEASA do Rio Vermelho.
Gabriel e o cachorrinho bravo.
Sábado passado, dia 18, a Via Ponte, escola de Gabriel, promoveu a sua III Olimpíada Inclusiva. Foi no Clube Baiano de Tênis (o mesmo onde Falcão, o cearense de sandálias, se apresentou).

Pedro tinha uma excursão da escola; Mariene, um seminário do sindicato. Deixei-os nas suas respectivas atividades e parti com Gabriel para o Clube, que fica na Graça, pertinho da residência de ACM.

Paramos o carro e Gabriel desceu feliz. Camisa nova, vermelha, da olimpíada. Entrou confiante no clube e saiu zanzando no meio do pessoal; entramos no ginásio e ele desceu para a quadra. Algumas pessoas tentavam passar a mão em sua cabeça, mas ele, como de costume, se esquivava. Deixei-o à vontade e fui conversar com uma amiga, a Rosário, mãe de Magno.

Quando ligaram o som - ensurdecedor até para mim - Gabriel saiu do ginásio e veio até mim, pedindo:

-"Sorveteria Capri!" Tentei argumentar, tirar a idéia de sua cabeça. Que nada:

-"Sorveteria Capri! Qual a letra? Agá! Ó! Tê! Dê! Ó! Gê! Ésse!" - decifrou?

-"Não, Gabriel! Vamos ficar por aqui! A sorveteria Capri está fechada!" - começaram os gritos:

-"Sorveteria Capri! Róti dóguis!" Entendeu? Quando ele quer ir para a sorveteria Capri, que fica na Barra, pede "hot dogs".

Não deu jeito. Consegui falar com Lúcia, a diretora da escola, para reclamar que o som estava muito alto, e fomos para a Barra. Claro que, às 8 da manhã, a sorveteria estava fechada. Claro que ele ficou nervoso. Mas aceitou me acompanhar. Voltamos para o carro e levei-o a Ondina, na barraca da Speed Lanches. Vendo os liquidificadores, ficou contente e pediu:

-"Pão com mantêêêiiigA!" (subindo de tom na última sílaba, como costuma fazer).

Barriga cheia, com o pão e um suco de polpa de abacaxi, seu preferido, tentei voltar para o clube. O som permanecia alto; ecoava pela vizinhança. Gabriel se postou na portaria do clube e não aceitou entrar. Tentei por uns cinco minutos e desisti. Fomos para o CEASA do Rio Vermelho. (Para quem não é da Bahia, o CEASA daqui é um mercadão; os paulistanos o achariam muito parecido com o Mercado da Lapa, de Pinheiros ou do Parque Dom Pedro).

Rapidamente ele pulou do carro e foi para uma loja de animais de estimação. Botou os olhos num cachorrinho cocker spaniel em uma gaiola, sorrindo muito. Ainda saiu de perto e me fez comprar um pacote de cocadinhas,que vêm numa caixinha quase do tamanho de uma caixinha de fósforos. Era para descarregar suas estereotipias: ficou batendo uma cocadinha na outra.

Daqui a pouco, saiu-se com essa:

-"Você sabe que não pode, viu, cachorinho bravo!" - adaptando a fala do pai de Nemo no filme Procurando Nemo. Depois, ainda inventou de chamar o bichinho de Calindo:

-"Qué isso aqui? Calindo!"

Pior é que minha bexiga já estourava! Ele pediu um sorvete Sem Parar da Nestlé (aqueles de potinho); aproveitei e convidei-o para comer arroz com feijão num restaurantezinho freqüentado pelos comerciantes das barracas. Mas antes insisti muito:

-"Gabriel, vamos com o papai até o banheiro, que eu quero fazer xixi!"

-"Nããããoooo! Eu nããããoo quééééro!"
´
-"Anda, Gabriel! Não vou deixar você aqui, sozinho!" - depois de muita "discussão", aceitou me acompanhar. Mas demorou menos que eu e me largou "falando" sozinho. Antes de me preocupar demais, pensei: "deve ter voltado para o restaurante." Dito e feito. Ele tinha uma referência certa, e pude encontrá-lo.

Avisei a moça que atendia:

-"Meu filho é deficiente. Sabe o que é autismo?" - Não sabia, mas tinha visto o filme do Bruce Wyllis, Código para o Inferno. Ajudou a explicar. E expliquei também que ele precisava receber a comida logo, que poderia gritar um pouquinho e que ainda não sabia usar a faca para ajeitar a comida (o que quer dizer que come com o garfo e com a mão).

Tudo bem, a comida viria logo. Mas Gabriel queria o que tinha lido no cartaz do prato do dia Pernil na chapa.

Um pouco mais de reclamações:

-"Pernil na chapa! Quero pernil na chapa!" - mas, quando vieram arroz, feijão e frango caipira cozido, ele não se furtou a comer.

O pernil nem acabou de fritar na chapa, Gabriel já ia para o carro. Aproveitei para comprar algumas polpas de fruta - delire de inveja, povo do Sul! Por aqui, um saquinho de polpa sai por RF$ 0,22! - e pedi para embalar o pernil numa quentinha.

Foi perguntando no carro:

-"Cadê Ana?" - ao que eu tinha de responder:

-"Ana está em Castelo Branco!" - mas Ana estava em casa, almoço feito, e ele ainda beliscou mais um pouquinho.

postado por: Argemiro Garcia 20.9.04

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Domingo, Setembro 19, 2004

Lição de casa

lição de casa de Gabriel
Aconteceu no domingo passado, dia 12/9. Mariene foi botar Gabriel para fazer a lição de casa. Ele protestou, reclamou... sentamos um de cada lado dele.

Conseguimos que ele respondesse as questões usando o normógrafo. A frase, pela ordem em que escreveu, é Eu não vou deixar.

Ainda pegamos um livrinho de histórias que a escola mandou. Página a página, o fizemos ler:

-"Que está escrito aqui, Gabriel?" - a pulso, ele lia.

Era a história do Curupira, que assustava um caçador malvado.

Ao menos desta vez, fez a lição, ainda que deixando registrado um protesto.




postado por: Argemiro Garcia 19.9.04

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Quarta-feira, Setembro 15, 2004

Uma questão filosófica - ou religiosa?

Mensagem enviada para a lista [autismo] da Comunidade Virtual Autismo no Brasil

Nosso genro, Gabriel Pinheiro, o "Gabrielo", é espírita que aprofunda muito o seu estudo. Eu sou um cético, agnóstico... existem muitos adjetivos que me podem ser imputados. :-)

Trocamos algumas idéias sobre a questão do carma, do Gabrielzinho, da vida. Conversávamos que, na relação que mantemos com Gabriel, talvez o professor seja ele, e não nós. Talvez fôssemos nós que tivéssemos de aprender: paciência, persistência, esperança...

Por que falo disso? É para explicar a frase que joguei no ar, "do ponto de vista espírita, acredito que tudo teria uma relação de karma". Minha compreensão do carma vem bem ao encontro do que Márcia e Monica colocaram: existe um "contrato" firmado em outro plano, entre as pessoas, que se propõem a cumprir tarefas para poder se desenvolver e, assim, a nossa vida é uma proposta que nos fazemos antes de nascer. Quem diz que, na minha relação com Gabriel, não teria sido ele que aceitou, como uma de suas tarefas na sua longa jornada de evolução, vir nos ensinar? Não poderia ser ele o mais evoluído, dedicando-se a nos orientar? Um mestre que aceitou viver numa situação de privação para servir de guia para os demais, colocando problemas para serem resolvidos? Não teria eu, quem sabe, aceitado passar por tudo isso, confiando que Gabriel estaria aqui, me pondo em xeque dia após dia, de forma que eu pudesse evoluir?

Desculpem estar fugindo tanto do centro da discussão central da lista, mas é que, muitas vezes, vejo as pessoas buscando explicações que remetem à culpa, seja em nossa vida atual, seja em vidas anteriores. As relações entre as pessoas são mais complexas; porque não seria entre seus espíritos? Então, de repente, se mudamos o enfoque, podemos ver nossos filhos não como espíritos que pecaram e vieram expiar seus erros, mas como seres mais evoluídos que aceitaram a função de nos orientar, como tutores, nos colocando desafios que temos de superar.

Como falei no começo da mensagem, não sou espírita. Sei que há uma lista, a esauluz@yahoogrupos.com.br que se dedica a discutir a relação entre espiritismo e autismo. Não a freqüento. Talvez, lá, existam mais respostas, não sei. Minha contribuição não tem como ir além disso.

postado por: Argemiro Garcia 15.9.04

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Sábado, Setembro 11, 2004

Como é seu nome?


Cheguei ontem do trabalho, Mariene estava em atividade sindical, rodando as redações para discutir o Conselho Federal de Jornalismo. Pedro pediu ajuda para estudar, mas Gabriel pediu para sair; brincava:

-"Quero melança" e continuava: "não é melança, é melancia!"

Pegamos o carro. Propus:

-"Vamos pro Hiper, Gabriel?" - e ele:

-"Hiperí..."

-"deal..." - completei o nome do Hiperideal, supermercado que fica em Jaguaribe, já perto de Itapuã.

Já no Hiperideal, muito feliz, Gabriel corria de um lado para o outro. Acabou se concentrando na bancada de frios, onde funciona uma fatiadora de queijos. Ele gosta de ficar olhando a máquina trabalhar. Veio me dizer:

-"Máquina de cortar queijo fez..." - respondi:

-"Tchoc! Tchoc! Tchoc! Tchoc!"

Um senhor de terno-e-gravata, um broche com as bandeiras do Brasil e Portugal, veio falar comigo, rindo:

-"Meu filho também brinca assim." Comentei:

-"Sim, mas o meu é autista."

Ele pensou que eu estava brincando, mas expliquei a situação. Seu nome é Flavio Cardial, representante comercial de uma importadora de produtos médicos. contou que conhece um outro menino autista, mas aquele é mais comprometido. E ficou surpreso com Gabriel.

Expliquei as características que lhe dão o diagnóstico de autismo: as estereotipias, a dificuldade de se comunicar e de fazer amizades, a hiperatividade...

-"Quer ver?" Chamei-o:

-"Gabriel, vem cá." - e perguntei - "Como é seu nome?"

Gabriel apontou (com a mão mole; ele não aponta com o dedo indicador) para Flavio e disse:

-"Moço!" - insisti:

-"Não! O nome de você."

-"Gabriel!" Eu não coube em mim, de contente! Emocionado, expliquei ao novo amigo que era a primeira vez que ele respondia essa pergunta!

Trocamos cartões. Ele ficou de me mandar qualquer coisa que descobrisse sobre autismo. E eu, ali naquele supermercado com Gabriel, ficava com os olhos marejados, pensando nele a cantar Caçador de Mim:

-"Longe se vai, sonhando demais..."

postado por: Argemiro Garcia 11.9.04

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Sexta-feira, Setembro 10, 2004

O Grito


Dia 7 de setembro foi dia de comemorar e protestar. Mais uma vez.

Lá fomos nós, Mariene, Gabriel e eu, para a Arquidiocese de Salvador, participarmos do Grito dos Excluídos. Gabriel enveredou pela Cúria Metropolitana atrás de água. Encontramos um copo e só pudemos sair depois que ele matou sua sede. Depois, rua.

De início, ele não parecia interessado em acompanhar a marcha; fez menção de voltar para o carro, parado em uma rua lateral, no bairro do Garcia. Mas depois, aceitou ir para o Campo Grande, disparando como se fosse militante do MST (o MST não caminha, corre nas passeatas; deve ser costume de invadir fazendas debaixo de repressão).

Mas ele queria mesmo era comer, porque tinha saído de casa sem tomar café. Entrou em uma padaria e se aboletou. Pediu picolé, croissant (que não tinha), pão com manteiga, Fanta. Dali, atacou ainda uma pastelaria. Depois, deixando o GRtio dos Excluídos para trás, arremeteu pela Avenida Sete (de Setembro) e só foi mesmo parar na Rua Chile, quando ouviu uma criança chorar. Se antes ele gostava de ver pessoas chorando, agora se irrita, e tentou nos dar cabeçadas nos braços. Mas, também, logo sossegou; sossegou, mas voltou à disparada.

No Terreiro de Jesus ficamos preocupados: uma cama elástica, com fila, estava montada. E se ele quisesse ir para o brinquedo? Foi ridiculamente hilária a cena de nós dois, Mariene e eu, cercando-o para que não visse o trampolim. Não viu e desceu para o Pelourinho, parando na matriz da Sorveteria Cubana. ACabamos a jornada no próprio Largo do Pelourinho, onde ele parou para tomar o sorvete que comprara. Fiquei impressionado: ele leu, a mais de vinte metros de distância, os dizeres da lata de lixo, algo como "Mantenha a cidade limpa". Atravessou o largo e jogou o copinho, ants de entrar no carro. Voltamos para o Garcia e para casa.

postado por: Argemiro Garcia 10.9.04

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Gabriel enrolado na toalha.

Peladão

Gabriel não é exatamente uma pessoa envergonhada. Não importa quem esteja na sala, se ele vai tomar banho, sai nu pela casa - e deu para teimar em ficar assim, peladão. Claro que os irmãos não gostam, e reclamam. Nós sempre lhe damos um short, que ele põe, na maioria das vezes, sem protestar.

Neste domingo, dia 5 de setembro, eu estava abaixado na varanda do apartamento, me dedicando à nobre arte de peneirar cocô de gato na areia sanitária, quando senti um cutucão no ombro. Perguntei um - Quê é?! meio mal humorado e recebi um novo cutucão. Olhei para trás e não pude conter o riso: Gabriel estava enrolado na toalha, segurando as pontas e dava indicação de que queria que eu a prendesse.

Claro que eu fiz isso, e o resultado pode ser visto na foto ao lado.

Leo me contou, depois, que foi ele quem, outro dia, vestiu Gabriel asism, enrolando-o na toalha. O baixinho gostou.

postado por: Argemiro Garcia 10.9.04

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Domingo, Setembro 05, 2004

Noite de comício


Nosso programa de ontem, sábado dia 4/9, foi o comício da companheira Moema Gramacho, candidata do PT a prefeita da cidade de Lauro de Freitas, na Grande Salvador. O toque especial do comício era o recital de Artur Moreira Lima.

Saímos cedo, com Gabriel pedindo zilhões de coisas: sorvete, sorveteria da Ribeira, "róti-dorgui" (dentro da brincadeira de jogar com as palavras). No caminho, propusemos passar na ASSUFBA (Associação dos Servidores da UFBa), onde nossa amiga Zoraide é assessora de comunicação. Para complicar mais as coisas, a bateria do carro arriou - coisa que já vinha ameaçando há semanas. De qualquer forma, eu já trazia a nova bateria no porta-malas. Foi só conseguir uma chave de boca e substituí-la. Gabriel, contente de estar em um lugar novo, nem chiou, nem ajudou.

De lá, saímos para a casa da Zoraide, que mora na Barra, bem de frente para o mar. Também desta vez, Gabriel seguiu feliz. Zoraide é irmã do falecido deputado estadual Paulo Jackson que, por quatro legislaturas, foi considerado o melhor parlamentar a Assembléia baiana. Sua irmã Zildi teve uma doença degenertativa na infância e vive sobre uma caminha há mias de 50 anos. Adora ver Gabriel, abrindo um sorriso e balbuciando algumas palavras. Gabriel, por sua vez, também gosta dela e fica pulando em volta, de vez em quando dando-lhe um beijo. Mas ficou arrumando desculpas para me pôr para fora da casa. Talvez tenha concluído que eu o chamaria para sair e, querendo ficar por lá mesmo, ficou com mais pedidos que mulher grávida, como comparou um amigo. Primeiro, pediu pão com manteiga:

-"Miro! Quero pão com manteiga!" - Mariene riu e brincou:

-"Só se seu pai for comprar na Perini!"

-"Perini!" - ele respondeu. Lá fui eu à delicatessen. Voltei com o pão e o jornal, para ver a reportagem sobre o Fórum Permanente de Defesa do Sâo Francisco, de que Mariene e Zoraide fazem parte. E Gabriel, depois de comer, inventou mais uma:

-"Sorvete! Sorveteria Capri! Napolitano!"

Pronto! Mais uma! Fui comprar o sorvete. Reclamei do preço, mas fazer o quê? Sorveteria em região de turista! Gabriel comeu o sorvete e, ates que pedisse outra coisa, nos preparamos para sair. Zoraide e Mario, foi buscar sua sobrinha Marília. Nós fomos direto a Lauro de Freitas.

Na praça da Matriz de Santo Antonio de Ipitanga, Gabriel tirou as sandálias e se pôs a correr. Mariene foi procurar os companheiros enquanto eu ficava com ele. DAqui a pouco, reencontramos Zoraide, desta vez com a sobrinha Marília. Idalina, sua irmã, estava às voltas com a organização do comício. Artur Moreira Lima ainda não tinha chegado.

Quando Gabriel viu o trailer do pianista, achou-o parecido com um vagão do metrô e passou a pedir:

-"Metrô! Quero metrô!" - queria subir no palco. E para controlá-lo? E o medo de que se pussesse a gritar? Começou o recital. Sentei no chão e consegui que Gabriel se sentasse no meu colo. Mariene foi conversar com Sobral, assessor de Moema na Assembléia Legislativa. Foi a solução: como o trio elétrico estava vazio, acabamos, Gabriel e eu, assistindo o recital de lá de cima.

Sentia um frio na barriga, cada vez que ele se aproximava da borda do trio, que deve ter cerca de 4 metros de altura; felizmente, nada aconteceu de grave. Acabado o recital, Artur Moreira Lima fez um apaixonado discurso, pedindo apoio dos presentes à eleição de Moema e dos candidatos do partido, lembrando que não se mudam 500 anos de História em apenas dois, e explicando o porquê ele só faz apresentações para o PT - gratuitas. Uma forma bem diferente de fazer comício, sem dúvida. (Mas, claro, depois dos discursos haveria uma apresentação de Arrocha).

Ainda levamos Gabriel para brincar numa árvore, um grande flamboyant ao lado da igreja, enquanto no trio se fazia a apresentação oficial do site de Moema, a Menina de Vermelho.

Na saída, tentamos sapear a saída de Artur Moreira Lima, mas Gabriel ficou um pouco irritado, querendo voltar para o carro. Zoraide ficou à porta do trailer, para conversar com o pianista sobre o Rio São Francisco. É que ele levou, no ano passado, seu projeto Um piano pela estrada a todas as cidades ao longo do Velho Chico.

postado por: Argemiro Garcia 5.9.04

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