Canto de Anjo |
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Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
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Terça-feira, Agosto 31, 2004 Arôis!A gente gosta de brincar com as palavras, para provocar a imaginação do Gabriel. Umas duas semanas atrás, ele pediu polpa de abacaxi. Eu tinha chegado em casa, cansado, as costas doendo bastante. Ele veio para mim: -"Miro! Polpa de abacaxi!" Subentendi que ele queria ir para o Hiper. Perguntei: -"Você quer ir por Hiper, Gabriel?" -"Nãããããooo! Miro!" - e apontou para a porta do apartamento. Achei graça: -"Você está me mandando sair?! Não quer ir comigo?" Ficou no meu pé: -"Polpa! Polpa de abacaXI..." - levantando o tom na última sílaba. E eu, enrolando. Mais um pouco, ele se saiu com essa: -"Não é pouca de abacaxi! É polpa... PÊ-Ó-ELE-PÊ-Á!" - e soletrou. Desisti, e fui - sozinho - comprar a tal da polpa. Na quinta-feira, dia 26, eu estava com ele no Hiperbompreço (como sempre). Foi minha vez de dar o troco. Já fazia uns dias que eu vinha pirraçando. É que ele às vezes pede assim: -"Polpa de a..." - e eu: -"aaaa... bacate!" -"Não é polpa de abacate! É polpa de a..." -"baxaqui!" -"Não é polpa de abaxaqui! É polpa de a..." -"Abacaxi!" Pois, como eu contava, estávamos no Hiper. Sei lá por que cargas d'água ele resolveu não andar. Ficou encarapitado no carrinho - sempre pega carrinhos com banquinho de bebê. Muita gente fica olhando; fazer o quê? Como outras pequenas manias, aos poucos ele vai abandonar essa também. -"Bom, Gabriel, vamos comprar arôis?!" -"Não é arôis! É arroz!" - mas gostou, porque começou a fazer seus próprios jogos de palavras: -"Arúcar! Não é arúcar! É açúcar!" - e seguimos por aí, trocando as letras de posição. Não me lembro mais quantas e quais palavras usamos, mas o jogo foi divertido para nós dois. postado por: Argemiro Garcia 31.8.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quarta-feira, Agosto 25, 2004 Voltando aos poucosJá fazia tempo que não escrevia no "Canto de Anjo". Problemas de saúde e de falta de tempo. Tinha ido ao Rio fazer um curso. Voltei a Salvador na sexta-feira, dia 13 de agosto. No sábado cedo seguimos para Aracaju, de carro; saímos às 6 e chegamos às 10 e meia. Estavam no carro: Mariene, sua mãe, Gabriel, Milena (nossa amiga e estudante de Psicologia) e eu. Viagem tranqüila. Gabriel adora viajar. Mas, em Aracaju, na beira do rio, começou: -"Barco! Quero barco! Andar de barco!" - mas não estava muito irritado; insistia, sem ficar muito alterado. Fomos ao Hotel Quality, ver como estava o Seminário de Arteterapia e Autismo, promovido pela AMAS. Mal deu para cumprimentar as pessoas: a insistência pelos barcos aumentava. Decidimos procurar nossa hospedagem. Deixando Milena no hotel, fomos ao Shopping Riomar, procurar um telefone (nossos celulares estavam sem bateria). É que Valquíria, minha colega, nos pôs em contato com seu cunhado, Dr. Henrique, pediatra. Ele veio nos encontrar e seguimos para Mosqueiro, em sua casa às margens do Rio Vaza-barris. Gabriel adorou tanto a casa que deixou os barcos para depois. O DR. Henrique ficou impressionado. Em muitos anos de profissão - cerca de 35 mil pacientes! - só tinha visto UM autista! Gabriel era o segundo, e ele ficou bem impressionado com o desenvolvimento de nosso moleque. Conversamos muito, e lhe demos de presente um CD-rom com o filme Os Diferentes Graus do Autismo, da Fundação Veronica Bird. Bucho cheio, voltamos ao Quality - e, de novo, ouvimos: -"Barco! Quero barco! Andar de barco!" Como queria apresentar Gabriel ao Dr. Walter Camargos e a Eliana, Helder e Breno, fui procurá-los. Com um celular carregado, foi possível ligar para Hélder, que veio nos receber na porta do hotel. Inconfundível! É a cara do filho! Um abraço, e cadê que Gabriel saía do carro? Insisti: -"Venha, Gabriel! Vamos ver o Dr. Walter!" -"Eu nããããããooo!" -"Vamos ver o Dr. Walter!" - e tirei-o do carro, levando-o no colo por uns metros. Ele pulou dos meus braços e voltou correndo para o carro, rindo. Aproveitei o jogo: -"Ah! Seu moleque! Vamos ver o Dr. Walter!" - ele ria, e peguei-o no colo mais uma vez. Corri na direção do saguão, mas ele voltou correndo e rindo. Dentro do carro. chamava com a mão e dizia: -"Dr. Walter!" Pronto! O jogo estava criado; e minha coluna começava a sofrer, sem que eu percebesse. Mariene pediu para eu não irritá-lo, mas expliquei que estávamos brincando e que eel estava gostando. Dito e feito. Mais umas duas corridas e estava entrando na sala onde Eliana, Breno e Walter conversavam. Gabriel ria e Walter veio brincar: -"Ô, Gabriel! Eu vi você nas fotos do seu pai! Eu vou fazer cócega no seu pé!" - Breno ria, Eliana ria. Mas Gabriel logo se cansou e perguntou pela amiga: -"Milena!" -"Ela está aqui." - Apontei para o salão principal. Ele entrou, comigo atrás. Apontei: "Aqui!" Todo contente, foi até Milena. Depois, seguiu para a frente do auditório. Leonardo Ferreira, de Brasília, dava uma palestra. Leonardo é, talvez, o mais famoso autista brasileiro. Pelo menos, é famoso exclusivamente pela sua condição de aspérguer. Acompanhado de Ana Maria Bereohff, sua psicóloga, comparece a muitos eventos para falar de sua vida. Fiquei preocupado que Gabriel o distraísse e cochichei no seu ouvido: -"Vamos ver o Dr. Walter!", mas ele gritou: -"Eu não quero mais!" - Fiquei superorgulhoso. Ele acrescentou o mais direitinho! Não insisti. Cansado daquela sala com tanta gente séria, saiu e foi brincar. No saguão, pegou a escova de dentes da bolsa da mãe e, com cuspe (blárgh!) começou a pintar o corrimão da escadaria. Depois, a porta de vidro. Como havia crianças neurotípicas por perto, bagunçando, deixei-o à vontade. Uma pessoa veio comentar comigo que não devia deixá-lo brincando junto à porta automática, porque poderiam reclamar. Bom... Gabriel brincou até que sáimos do hotel e ninguém reclamou. Ora, porque vou me antecipar? Uma criança ficar passando de um lado para o outro de uma porta automática não é o fim do mundo. Tem coisa que não pode, Gabriel sabe e repete a toda hora. Mas, afinal, tem coisa que pode, não é? postado por: Argemiro Garcia 25.8.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
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