Canto de Anjo



Eclipse da Lua, 2003.

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Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
Clique para entrar na
Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Terça-feira, Abril 27, 2004

Dois andantes numa noite escura


Na sexta-feira, dia 23 de abril, Gabriel pediu para comprar bala:

-"Bala! Quero bala!? Bala de maçã verrrde!?..." (haja sinal gráfico para tentar reproduzir sua entonação meio cantada e seus "erres".)

Fomos ao Hiperbompreço, a pé. Demos umas voltas, mas as balas de maçã verde estavam em falta. Como queria procurar o livro O Estranho Caso do Cachorro Morto, chamei-o para irmos ao Iguatemi, onde compraríamos as balas nas Lojas Americanas e eu poderia rodar as livrarias. Ele topou, mas quis passar na Praça de Alimentação do Hiper.

O Hiper tem duas áreas de alimentação: dentro do supermercado há uma rotisserie, onde a gente pode comprar a comida para consumo imediato. É onde trabalha Oleane, por exemplo, que já conhece Gabriel de longa data, e onde ele gosta de comer coxinha - e onde eu gosto de comprar coxinha. É que o preço é bem menor e... sabe como é, né? A praça de alimentação propriamente dita fica do lado de fora dos caixas, como é comum, hoje. São lojas que apenas alugam o espaço do próprio Hiperbompreço. Ali funciona a Sopastéis, a Casa do Pão de Queijo, o McDonald's e um restaurante a quilo. Todo mundo já conhece Gabriel, sabe o que é autismo e se diverte com suas gaiatices.

Nessa noite, Gabriel pediu uma fanta, dois pães de queijo e um micro-ondas. - Opa! Um micro-ondas? - É isso mesmo. Depois que, dias atrás, comeu lazanha da Sadia esquentada no micro-ondas da BR Mania (a loja de conveniências dos Postos Petrobras), em Patamares, Gabriel passou a pedir um forno de micro-ondas. Nesta sexta, inspirado, ele cantou:

-"Foi na loja do Mestre André, que eu comprei um micro-ondas.
Ruuuuuum! Um micro-ondas!
Ruuuuuum! Um micro-ondas!"


As moças das lojas acharam muita graça no pedido e na minha argumentação:

-"Ah, não, Gabriel! Micro-ondas é muito caro. Só depois de agosto eu posso pensar em comprar um." (Nosso micro-ondas pifou há anos. Leonardo estava na fase de cientista e quis derreter um espelho. Derreteu o aparelho.)

Eu comprara alguns chicletes para ele no supermercado e fomos caminhando para o shopping, que estava bem vazio.

Tenho alguns traumas com as Lojas Americanas. Não que tenha tido problemas sérios lá. É, vamos dizer assim, a fama. Não esquecemos, aqui em casa, os episódios de preconceito racial que envolveram a rede. (Só para lembrar, uns anos atrás uma garota negra tinha comprado um caderno, mas a etiqueta de segurança não fôra removida. Quando ela passou pelos sensores anti-roubo, o alarme disparou; ela foi levada à "salinha" e sofreu constrangimento. Felizmente, a empresa foi processada e, pelo menos, os "danos morais" foram ressarcidos. Mais do que o dinheiro que a garota recebeu, conforta saber que a Justiça puniu os culpados.

No nosso caso, porém, fico sempre preocupado com que Gabriel sofra algum constrangimento, porque é incapaz de se explicar. Para piorar a situação, Gabriel tem mania de sair comendo os chocolates. Já lhe ensinamos para que venha trazer os papéis, que vamos guardando numa cesta, em lugar bem visível. Pois não é que, uma vez, na mesma loja em que estávamos entrando, um segurança, um senhor magro e de cabelos brancos, veio na minha direção, com "cara de mau"? Quando olhou dentro da cesta, vendo que os papéis dos Sonhos de Valsa estavam comigo, para pagar, me disse algo como:

-"Pensei que você não ia pagar." - Fiquei muito ofendido, indignado, mesmo e guardei esse episódio como um exemplo da grosseria das Lojas Americanas.

O terceiro trauma foi o que aconteceu em dezembro de 2000. Estava à venda um espremedorzinho de laranja desses de plástico, que a gente usa rodando a cuia da meia-fruta com a mão. Gabriel cismou com o apetrecho. Enquanto eu ficava na fila, ele ia nos caixas e passava o novo brinquedo em frente dos leitores de código de barras. Foi só eu me distrair com um menino de rua que me pediu para comprar salgadinho e Gabriel sumiu! Desapareceu, escafedeu-se! Saí correndo, acionei os seguranças da loja e do shopping. Dois rapazes, vizinhos nossos e gêmeos idênticos me viram em desespero, conversando com os guardas. Meia hora depois, um deles pelo rádio do segurança com quem eu esperava notícias veio: Gabriel estava em casa. Ele veio sozinho - moramos perto do Shopping Iguatemi, nem é preciso atravessar rua alguma. Mas foram os piores minutos da minha vida.

Pois bem. desta vez, entramos na loja e Gabriel não quis me acompanhar até a fila. Fiquei com o coração na mão, por causa de todos aqueles motivos. Não é que o Segurança-de-Cabeça-Branca foi tentar bronquear com Gabriel, que se esticava nos sensores anti-roubo? Gritei:

-"Fala pra esse cara não falar com meu filho!" - uma moça não entendeu e riu. Fiquei ainda mais irado. E Gabriel, numa boa, foi embora. Larguei compras, peguei meu dinheiro e saí, aos berros:

-"Não é pra esse imbecil falar com meu filho!" - o homem ficou me olhando, intrigado e indignado.

E Gabriel passou direto até pela By Phone, a loja de celular que ele adora - é quase o mascote dos funcionários. Parou na Livraria Siciliano, onde ele pediu "águas", mas a lanchonete estava fechada. Fomos à rotisserie Perini. E, para compensar o estresse da Loja Americanas, consegui: ele comprou um copo de água! Primeiro, ele pediu de novo:

-"Águas!" e respondi para entrar na fila. Com a melodia da propaganda do Red Bull ("Red Bull te dá asas!"), cantei:

-"Quero águas!" - e ele riu, corrigindo:

-"Red Bull te dá asas!"

Mas, na hora dele comprar, deu os R$ 0,70 em moedas e pediu, exatamente como ensinei:

-"Quero águas!" - cantando.

A moça me perguntou:

-"Água?" - fiz que sim com a cabeça, ela cobrou e deu a ele o tíquete. No balcão, outra mocinha pegou a ficha e foi lá para dentro. Voltou com a água, entregou-lhe e ele foi, todo importante, bebendo sua água.

postado por: Argemiro Garcia 27.4.04

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Quarta-feira, Abril 21, 2004

Quando falta energia


Ana, no desenho da avó.
Desenho de Ana, feito pela Vovó Nenê.
Dia 12 passado, uma segunda-feira, a administração do Condomínio tinha avisado que faltaria energia, por conta do conserto no transformador de um dos prédios. Preocupada com Gabriel ficar nervoso com a "quebra de rotina", Mariene ligou para a Escola Via Ponte, para pedir que o mandassem mais tarde - mas houve alguma confusão e, lá pelo meio-dia, toca o interfone, avisando que ele chegara.

Mais preocupada ainda, ela pediu a Ana que fosse buscá-lo na garagem. Antes mesmo dela acabar de calçar o sapato, Gabriel chegou, esbaforido, vermelho e sem mochila ou lancheira - e, claro, sem dar explicações. Passam-se mais uns minutos, chega um dos faxineiros com a "bagagem". O que aconteceu? Simples. O rapaz ofereceu-se para trazer suas coisas até em casa. Como disse o Dr. Salomão uma vez a respeito de um paciente, "ele é autista, mas não é bobo". Deixou as coisas com o moço e subiu as escadas - os nove lances - correndo.

No mesmo dia, sem poder descer para o PG (play ground), Gabriel se pôs a pintar o mural que Mariene afixou na parede do corredor. Mais um pouco, pegou a avó para ajudá-lo e pediu-lhe - pediu, não; mandou - que desenhasse Ana. Pôs ainda Mariene e a própria Ana para desenhar.

Família mobilizada


Dia 17, a fonoaudióloga Dra. Camila Cardoso, no Simpósio Baiano de Autismo, contou que, na noite anterior, tinha visto um pai com seu filho, que aparentava ter uns cinco anos. O menino tinha vários sintomas de autismo, mas corria feliz pelo supermercado. Foi até as frutas, pegou dois limões e saiu batendo. Bom, com a história dos limões, não tive mais dúvida. Éramos nós. Alguém ainda comentou que, afinal, o pai saiu num horário mais tarde, quando tem menos gente na loja. Ah, se soubessem! Foi ele que pediu:

-"Supermercado!" - fomos ao Hiper, mas ele protestou:

-UÁÁÁÁRH! SUPERMERCADO! - perguntei, então:

-"É o Hiper? O Extra? O Hiper Ideal?" - Foi assim que nosso caminho cruzou o da Dra. Camila.

Mas, se ela me citou como exemplo de pai só porque nos viu passeando no Hiper Ideal, no dia 16, imagino se soubesse quantas vezes a família inteira se mobiliza por causa do baixinho...

No dia 5 de abril, Ana faltou. Mariene precisou sair e deixou Gabriel com Leonardo (15 anos) e Pedro (14 anos):

-"Lá embaixo!" - e os três desceram para o PG.

-"Rua! Frutare!" - e Leonardo subiu para pegar dinheiro.

-"Passear de ônibus!" - lá foram Leo e Pedro levar o irmãozinho cricri para passear. Espertos, pegaram um ônibus que dá a volta no bairro e pára no Hiper. Acabaram gastando todo o dinheiro que tinham com pão-de-queijo. Ligaram para a mãe, que teve de sair da palestra que assistia. Eu participava de um simpósio e, quando saí, liguei para o celular de Mariene, convidando-a para irmos à inauguração do Projeto Caminhos Geológicos da Bahia. De volta, ela me chamou para ir buscá-los no Hiper. Beeem mais tarde, saíamos com Gabriel de cabelo cortado no Dom Quixote Hair Cut.

Dia cheio


Hoje, 21 de abril, feriado, nosso dia começou com Pedro querendo ir ao Mercado Modelo para procurar um pingente na forma de rato - ele usava um ratinho de metal de um velho chaveiro de minha coleção pendurado no pescoço, mas o perdeu. E, agora, quer um novo. Gabriel correu se trocar para sair conosco. Antes, porém, ele veio com um curativo Salvelox na mão. Ficou olhando o infinito, pensando, até que me disse:

-"Prateleira!"

-"O que foi com a prateleira, Gabriel?" - e ele fez um movimento brusco, simulando uma testada na prateleira.

-"Coitado! Bateu a cabeça na prateleira? Pode botar o curativo!" - Todo contente, ele pregou o salvelox na testa.

No Mercado Modelo, foi impossível acompanhar Pedro: Gabriel se pôs a dar gritos horríveis, recusando-se a nos seguir. Entrou na loja de um pintor de quadros e se jogou no chão quando tentei pegá-lo no colo. Depois, seguiu para a passarela que dá acesso ao segundo piso. Pedro foi obrigado a rodar as lojas sozinho atrás do ratinho e, logo, com os ouvidos tampados, Gabriel saiu para a rua. Tivemos de voltar para casa. Pedro ficou uma arara, de raiva, e Mariene se ofereceu para voltar conosco ao Mercado.

Dessa vez, Pedro e Mariene ficaram no Mercado e Gabriel quis... tomar sorvete de flocos na Sorveteria Cubana! Pegamos o Elevador Lacerda e ficamos esperando na Cidade Alta (o Mercado Modelo, na Cidade Baixa, fica em frente ao Elevador.)

Quando a mãe e o irmão chegaram, Gabriel aceitou descer. O rato? Bom, Pedro ficou de levar um desenho para os hippies, para tentarem fazer um novo em Durepóxi.

No caminho para casa, Gabriel já pediu:

-"Ouro Branco! Coxinha!" - senha para irmos ao Hiper. Deixei Mariene com Pedro em casa e fomos passear no supermercado. Passou um tempinho, Gabriela me ligou e foi se encontrar conosco.

Enquanto acompanhávamos Gabriel, conversávamos sobre como ele é conhecido na cidade. No supermercado, nas sorveterias...

Passei as compras enquanto Gabriela levava o irmão para comer a tal coxinha e, sob os protestos do pequeno, voltamos para casa:

-"Gabriel, agora vamos para casa." - e ele respondia, engrossando a voz:

-"Eu não vou! EU NÃO QUERO! UÁRH!"

Já faz tempo, traçamos nosso caminho das pedras: atender todas as vontades dele, enquanto fosse para reforçar-lhe o uso da voz. Ele pedia "Sonho de Valsa", ou "Hiper" e a gente corria atender. Era motivo de alegria ver que Gabriel, mais e mais, aprendia a pedir. Mas sabíamos também que teríamos de dar-lhe limites. Era uma opção: naquele momento, mais importante era ajudá-lo a falar. Agora, essa etapa passou e vamos forçando-o a negociar conosco. Valéria Llacer reparou a condição e nos aconselhou fazer exatamente o que já tínhamos estipulado: dar limites. É isso que temos feito, e tem dado resultado: os pitis têm sido mais curtos; duram menos de uma hora, hoje (se isso é consolo!).

Chegamos, enfim, a casa; Gabriel foi no carro da irmã e subiu na frente. Mal cruzei a porta, porém...

-"Ouro Branco!" - e eu não tinha comprado o danado do bombom!

-"Ih, Gabriel! Esqueci de comprar. Não tem Ouro Branco. Depois a gente compra, tá?" - nas próximas três horas, ele lembrou várias vezes do chocolate, mas apenas pedindo: -"Ouro Branco!"

Foi muito legal, ainda, quando ele chegou para a Vovó Nenê e cantou um trechinho de música (em negrito, o que ele cantou; o resto, em itálico, é para ajudar a reconhecer a música):

-"Gosto muito de você / (só você me faz feliz...)" - e, depois, repetiu sem cantar, como se tivesse precisado buscar na música o "embalo" para falar:

-"Gosto muito de você, Vó!" - duas vezes!

Quando Gabriela estava quase indo embora, resolvi temperar uma carne de carneiro que comprara na promoção (temos que aproveitar, né?). Gabriel lembrou de outra vez que temperei uma carne injetando vinho com uma seringa e pediu:

-"Injeção! Injeção no osso! Injeção no pernil! Quer dar injeção! Pic!"

Fizemos assim, então: fui à locadora devolver Meu filho, meu mundo e Gabriela levou o irmão para comprar a seringa. Encontrou-me na locadora, conversando com nossa vizinha Ana sobre como Gabriel está melhor. Quando os meus dois filhos chegaram à locadora, Gabriel vinha com a sseringa na mão, pedindo:

-"Pernil! Injeção!" - e passamos no Hiper para comprar um pedaço de pernil e, claro, os Ouro Brancos.

Mas o dia não tinha acabado, ainda! Era dia da coleta de lixo...

Caminhão do lixo

As manias mudam, mas giram em torno de máquinas, o mais das vezes. Gabriel não pára na rua para observar um animal, por exemplo - à exceção dos cavalos, ou de algum cachorro muito bravo que esteja por trás de grades; não é como eu, que vou reparando em todo bicho, planta ou mineral que me cruze o caminho. Agora, máquinas!? Durante a reforma do PG, que durou mais de seis meses, queria descer todo dia, para ver a betoneira funcionando (era uma daquelas portáteis). Com a sua nova onda de onomatopéias, está nos pondo toda hora para imitar sons (neste caso, inclui as vozes dos animais):

-Olha a betoneira! RRRRR! - ele pede, e a gente repete:

-Betoneira faz... ROÓ ROÓ ROÓRRRÓOOO!

-Olha o caminhão do lixo! Caminhão do lixo fez...

-RUUUURRRRR! PÓFT! PI... PI... PI... - é o sinal sonoro de que o caminhão vai dar marcha à ré.

Mas a paixão não se restringe a imitar os sons.

Quando chegamos em casa, já de noite, o caminhão de lixo estava fazendo a coleta na nossa rua. Falei:

Olha o caminhão do lixo!
Olha o caminhão do lixo!
-"Olha, Gabriel! Gabriel, olha! O Cargo! Olha o caminhão de lixo! Vamos lá ver!" - ele desceu às pressas, e correu para o portão. Liguei para pedir a Mariene que pegasse as compras na garagem; Gabriel me esperava na portaria. Liberei:

-"Gabriel, pode sair!" - ele correu pela rua, eu atrás:

-"Espera... Olha se vem carro! Pode atravessar." - todo feliz, chegou do lado do caminhão, no prédio do outro lado da rua. O motorista, que já nos conhece, me cumprimentou com um aceno de cabeça e levou o caminhão para o depósito de lixo do nosso condomínio. Gabriel disparou atrás.

Ficamos quase meia hora com Gabriel batucando duas batatas que trouxera do supermercado. Perigosamente, ele insistia em ficar do lado dos lixeiros, que jogavam os sacos para dentro do caminhão, correndo o risco de levar um caco de vidro na cara, na hora em que os trabalhadores prensavam o material. O cheiro acre do chorume ardia no nariz, e ele perguntava:

PIC! Temperando a carne.
PIC! Temperando a carne.
-"Qué isso aqui?"

-"Pisca-pisca!"

-"Qué isso aqui?"

-"Farol!"

-"Qué isso aqui?"

-"Cargo! Ford! dois-zero-dois-zero-quatro-nove!" - tudo eu tinha de nomear ou ler.

O lixo foi todo recolhido. Expliquei para o pessoal em volta - os lixeiros e os catadores de latinha - o problema de Gabriel enquanto ele ia para casa. Então, a pulso, dei-lhe um banho; ele queria dar injeção na carne, mas só foi tratá-la depois de limpo. Injetou vinho à vontade; Mariene ajudou -o com o sal e o alho e ele mesmo pôs a peça no forno que a mãe acendera. Quando fomos ver, tinha usado a própria bandeja de isopor do Hiper. Felizmente, o plástico não derretera ainda e pudemos trocar a bandeja por uma assadeira de alumínio.

Enfim, o dia ia chegando ao fim!

postado por: Argemiro Garcia 21.4.04

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Sábado, Abril 17, 2004

Pintando o quadro



Como já contei, Mariene pregou folhas de papel na parede para Gabriel exercitar seus dons de artista plástico.

Ele pega o pincel, o potinho de tinta guache e começa:

-"Ó o Gabriel pintando quadro! Chlop! chlop!"

Pronto! Temos que pegar a máquina fotográfica e retratá-lo.

Outro dia, depois de muito berreiro do artista, a tia Rosilda conseguiu acalmá-lo fazendo um pincel com uma bucha e um cabinho. Ontem, não teve jeito. Ele queria esponja de tinta - e não descobrimos o que seria isso. Mesmo fazendo novo pincel com uma bucha de lavar louça, ele não deixou de reclamar.

Bom, está aí. O nosso Picasso em ação.

postado por: Argemiro Garcia 17.4.04

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Quinta-feira, Abril 15, 2004

A tarde de domingo azul


Comendo casadinho em frente ao elevador, na Cidade Alta.
Foi neste domingo, dia 11. Rosilda voltava a Sâo Paulo pela BRA - eita companhia atrapalhada! Mudaram o horário duas vezes: anteciparam para as 9 horas da manhã e, depois, atrasaram para 1 hora da madrugada da segunda-feira. Com isso, embora frustrada, a tia resolveu curtir uma última tarde que, se não foi em Itapuã, foi em Salvador...

No parque das estátuas do Solar do Unhão.
Saímos a passear depois do almoço, sem Leo nem Pedro. Primeiro, claro, a Sorveteria Cubana. Chegamos no estacionamento e Gabriel nem deu bola para os sorvetes: foi direto para o elevador.

Já percebemos há muito tempo que Gabriel mapeia os lugares. Primeiro, fica na porta; depois, vai para um lado e o outro, pela calçada. Por último, vai ampliando seu raio de investigação, sempre voltando ao ponto de origem. Pequenininho, já fazia isso em Central, terra de Mariene. Primeiro, estacou na porta da Vovó Nenê. Depois, passou a ir até a esquina e voltar. A seguir, a outra esquina. Em seguida, virou a rua... Uns dias depois, escureceu e ele se perdeu. Sorte que uma mulher conhecia a foto de Gabriela quando era pequena, da sala de Dona Nenê.

Foi assim com o Elevador Lacerda.

De primeiro, ficava na sorveteria. Passou a descer e subir. Aventurou-se até a rua, na Cidade Baixa. Neste domingo, avançou até o Mercado Modelo. Eu, claro, preocupado em manter contato com Mariene. Pior é que Gabriel estava descalço e, ainda, quis um sorvete que derreteu todo - uma melação! Quando eu já me preparava para teimar e levá-lo para cima, chegam as três.

Mariene aproveitou para comprar uma sandália num camelô-artesão e passou sua havaiana para o teimoso.

Subir foi fácil: prometemos que iríamos à praia, mas fomos ainda ao Solar do Unhão, mostrar o lugar a Rosilda. Antigo engenho de açúcar do tempo colonial, à beira-mar, hoje é o Museu de Arte Moderna, numa paisagem magnífica. Tivemos gritaria: Gabriel já queria escalar as pedras da encosta e descer ao mar. (Por sinal, muito convidativo). Passamos ao plano de emergência:

-"Praia! Quero praia! Por que você não vai pra praia? Uáááárh!"

-"Claro que vamos pra praia! Vamos, claro! Praia de Boa Viagem! A belle de jour!"
(Nessa hora, nem importava que Alceu Valença cantou a praia pernambucana...)

Chegamos em frente à Igreja do Senhor dos Navegantes. Mariene ficou à sombra com a mãe. Gabriel correu para a áuga. Ele tem adorado ficar em pé sobre pedras onde quebram as ondas. Foi assim, por exmeplo, em Porto de Sauípe, no carnaval. Mas Boa Viagem não tem pedras, diria você... Não?

Há umas pedras, a uns 40 metros da praia, se tanto, no meio da água. E lá foi Gabriel. Rosilda desesperou; sorte que Mariene e sua mãe não viram - é que Mariene se afogou quando menina, num episódio em que sua irmã do meio faleceu. A família é traumatizada com água, enquanto Gabriel... bem, ele adora água.

Pulei na água, confiante que o alcançava em poucas braçadas. O problema é que a pedra era pequena e Gabriel descobriu coisa mais interessante: os navios no meio da Baía. Cadê que eu o convencia a voltar? Comecei a estudar uma forma de pegá-lo por trás e arrastá-lo. Sorte que ele aceitou meus argumentos de que os barcos estavam longe e voltou à areia.

Voltou, mas não sossegou. Correu para uma saída de um antigo cano de esgoto, desativado mas fedorento, que se projetava sobre a areia. Ali as ondas batiam e ele podia curtir o mar. O tempo passou, passou... Só conseguimos voltar para o carro com o sol baixo. Encontramos Mariene encolhida na sombra da igreja, com o vento batendo, e sua mãe com ar desamparado, querendo ir embora.

Ainda deu para fotografar Gabriel na água, com a fatídica pedra ao fundo, dois garotos em cima dela.

De noite, na hora de levar a tia ao aeroporto, Gabriel fez questão de ir e voltar no banco da frente - e, ainda, tombá-lo para poder se esticar melhor:

-"Deita! Deita!"

postado por: Argemiro Garcia 15.4.04

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Terça-feira, Abril 13, 2004

O dentão está doeeendo!


Sábado de aleluia, Gabriel nos puxou para mais uma incursão pela cidade:

-"Sorveteria!"

Rosilda e Mariene não se dispuseram a sair; chamei Pedro e Leonardo, mas só o segundo topou o passeio. E lá fomos os três, em busca da sorveteria.

-"Alicate do dente!" - e, depois: "Cubana!" Foram as únicas coisas que Gabriel falou, ao se sentar no banco de trás do carro.

A Praça Castro Alves estava tomada por um evento Gospel; desde a Avenida Sete (de Setembro) já víamos o pessoal passando com roupa de ir ao culto, mas não me lembrei do que estava acontecendo. Precisamos desviar.

Voltamos para o Campo Grande e, depois, tomamos o rumo do Politeama e de Nazaré. Descemos, para passar por trás do Fórum Rui Barbosa e... errei o caminho! Gabriel começou a ficar nervoso:

-"Sorveteria! Uáááárh!" - e se pôs a bater a cabeça no encosto do meu banco, e no vidro da janela.

-"Espera um pouco, Gabriel! Temos de dar a volta, o caminho está fechado. Nós estamos indo pra sorveteria!"

-"Uáááárh!"

Acabei por achar o caminho certo. Saímos no Pelourinho, Terreiro de Jesus, Praça da Sé. Estacionamos em frente ao Elevador Lacerda, na Cidade Alta (A Sorveteria Cubana fica bem do lado do elevador) e, enquanto Gabriel ficava debruçado sobre o freezer, espiando os sorvetes, Leo me acompanhou até o caixa. Feito o pedido, cadê Gabriel?

-"Não sei, pai. Acho que foi pro elevador." Olhei bem na direção oposta, para verificar se ele não estava pendurado na balaustrada que dá de frente para a Baia de Todos os Santos, uns 80 metros abaixo, e fui para a bilheteria do Lacerda, onde ele já estava, com um sorrisão. Descemos até a Cidade Baixa.

Das nossas visitas anteriores à Cubana, Gabriel tomava um sorvete e, depois, descia o elevador, subindo logo em seguida. Desta vez, no entanto, quis ir até a rua, atravessou a primeira pista, até os pontos de ônibus e se sentou na cadeira de um vendedor de churrasquinho. Cadê que eu tirava ele de lá?

-"Gabriel, vamos?! Leo está nos esperando lá em cima! Olha!" - e apontava para cima. A resposta?

-"Uáááárh! Eu não vou!"

-"Gabriel, vamos subir!"

-"Eu não quero! Você quer lingüiça?"

-"Não, Gabriel! Vamos subir! O Leo ficou sozinho, coitado!"

-"Eu não! Eu não quéééééro lingüiça!"

Não sei se ganhei ou perdi. Comprei o churrasquinho e ele aceitou subir de volta. Quando chegamos ao alto do elevador, Leo já tinha tomado seu sorvete, e metade do sorvete de Gabriel. Ainda pediu um pedaço da lingüiça, mas Gabriel respondeu:

-"Nãããão! É de meniiiiinooo!"

-"Você vai ver quando você vier me pedir coisa!" - tentei argumentar:

-"Leo, a gente tem que ficar contente! Ele agora já entende que, se te der um pedaço do churrasco dele, fica sem!"

-"Tá! Ele está é muito egoísta!" - não dobrei a opinião de Leo; ele continuou reclamando (muito embora tenha tomado metade do sorvete do irmão).

Como eu tinha ligado para Gabriela, que tinha me dito que estava indo nos visitar, chamei Gabriel:

-"Gabriel, vamos para casa? Você quer mais alguma coisa? Quer mais alguma coisa, Gabriel? Gabriela e Gabrielo vão lá pra casa, você quer ir pra lá?"

Ele não reclamou de nada. Mas ainda disse:

-"Dente!" - enquanto futucava a boca. Fui verificar e vi que, de fato, um dente estava mole. Ele me pôs a forçá-lo, mas deu um pulo quando empurrei o dentinho com mais força - e ficou ele mesmo cutucando.

Voltamos para casa e Gabriel logo foi perguntando:

-"Gabriela? Cadê Gabrielo?"

-"Eles ainda não chegaram, Gabriel!"

-"Talharini!" - fui para o fogão, na minha receita de macarrão rápido: refogo cebola e ponho um pouco de água na panela. Quando a água ferve, completo com leite e ponho o macarrão. Quando está quase pronto, misturo o extrato de tomate e está pronto.

Foi quando Gabriela e Gabrielo chegaram. Estressado, comi um pouco de macarrão, às pressas, o que me aumentou a azia de uma gastritezinha que de vez em quando me dá o ar de sua graça. E Gabriel se pôs a pedir a piscina. Já passava de nove horas, mas ele insistiu, só para ver que o portão principal estava trancado, acompanhado de Gabriela, Gabrielo, Leonardo e eu. Gabriela ainda fez umas fotos do irmão pulando o portão e descemos para a portaria do condomínio. Enquanto os quatro conversávamos sobre a AMA-Ba e a irmã Dulce (Gabriela mantém o website das Obras Sociais da Irmã Dulce), Gabriel, daqui a pouco, vem:

-"Dente! Cadê o dente?! Fez CHOC!" Contente, Gabrielzinho mostrava o dente e a janelinha nova. Sozinho, deitadinho no banco, forçou tanto o dentinho que este caiu. Ainda o perdeu, mas Gabrielo encontrou-o. Pudemos, então, subir, para exibir o troféu para a mãe e a tia.

postado por: Argemiro Garcia 13.4.04

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Domingo, Abril 11, 2004

A pintura continua


Gabriel continua pintando: as paredes da casa, do prédio, a rua. Mariene me pediu para comprar folhas de papel grandes, que ela colou na parede do corredor para diminuir o trabalho na hora de limpar. Nem nos importamos tanto com isso, mas Leonardo já andou reclamando. Bom seria se pudéssemos fazer como Priscilla, que deixa a arte do seu Leo pela casa. Mas temos os outros filhos, que têm o direito deles, também.

Quinta-feira à noite, Gabriel se pôs a pedir:

-"Colador! Quero colador! Comprar colador!" - no entanto, não descobrimos o que sria o tal colador. Fomos ao Hiper:

-"É isso, Gabriel? Colador é isso?" - e mostrávamos pincel, tinta guache, cola plástica, fita crepe. Nada. Acabamos desviando sua atenção, e ele se acalmou. No dia seguinte, no entanto...

-"Colador! Quero colador!" - e Mariene recomeçou sua busca. Rosilda sugeriu que seria um rolinho de pintura. De repente Gabriel se saiu com essa:

-"Bruxa de tinta."

-"Aaaah! É isso?" Era. Mariene pegou, então, uma bucha de lavar louça. Sua irmã, Rosilda, preparou um pincel com um pedaço de esponja e um espetinho de churrasco. E acabou a bronca.

Amigos


Sábado de aleluia, ontem, dia 10. Mariene e eu passamos a manhã com a diretoria da AMA-Ba. De tarde, em casa, Gabriel desceu para a piscina do condomínio (vantagens de Salvador: pleno outono, quase 30º).

Mariene desceu para acompanhá-lo; daqui a pouco interfona:

-"Miro, desce e traz a máquina!"

Gabriel brincava com Lucas. Lucas é nosso vizinho, tem 14 anos e síndrome de Down. Foi bonito ver os dois brincando na água. Gabriel estendia a mão para o amigo e ambos mergulhavam - caíam, na gíria da garotada.

Os outros garotos, dentro da água, acompanhavam a bagunça dos dois e jogavam bola, cuidando para não machucarem os dois. Se não brincavam junto, se respeitavam. Lucas joga bola com a meninada, mas Gabriel só consegue brincar com os mais velho, que aceitam lhe dar alguma atenção. Ele não interage muito, só fica pedindo que façam alguma coisa com ele: jogar na água, mergulhar junto...

postado por: Argemiro Garcia 11.4.04

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