Canto de Anjo |
EU Blogs: "Meu filho" "Meu Sol Bernardo" Crônica Autista Disdeficência Rogério
Sites: Lista Autismo Manifesto por dignidade Anjos de Barro Casa da Esperança (CE) Codinome Aspie Programa Especial Vida e Arte David Valente Fala Menino! CRADD (RJ) Mão Amiga (RJ) Neurodiversity CORDE autismconnect Rio Vermelho Profissionais: Dr Walter Camargos Dr Schwartzman Dra Margarida Windholz Dra Gikovate Dra Padovan Adoção de animais: Gatinhos de Salvador OSG |
Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel
Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004 PraiaSábado de carnaval, decidimos ir para a praia, fugindo um pouco da muvuca. Fomos no rumo do Litoral Norte. Primeira parada, Costa de Sauípe. A porteira, com sotaque de paulistana, nos explicou: -"Até 1º de março os day pass estão sendo suspensos. Normalmente, o senhor pode estar visitando o condomínio, é só estar pagando o day pass. Se o senhor quiser, pode estar indo até o receptivo, e estar pagando dez reais..." -"Não, obrigado, vou estar indo embora." - ugh! assassinaram o português. Sabendo, então, que o Costa de Sauípe era nesse esquema, fomos para Porto de Sauípe. Hospedamo-nos na Pousada Maresia. Almoçamos lá pelas quatro da tarde. Gabriel chegou pedindo: -"Arroz! Feijão! Farofa!" - pedi para a moça adiantar o seu pedido, enquanto esperávamos nossa moqueca de peixe. De lá, fomos para a praia que fica na foz do Rio Sauípe: Gabriel adorou as pedras (para quem gosta de Geologia, arenitos costeiros de praia, beach rocks) e queria ficar em pé, com as ondas batendo embaixo. Embora se tratasse de pedras baixinhas, o risco de cair era grande; tentamos tirá-lo de lá de várias maneiras - cheguei a lhe dar uns tapas. Mariene acabou ficando ao seu lado, tomando conta, enquanto fui brincar um pouco com Pedro. De noite, já na pousada, Gabriel amou o quarto, bem simples mas amplo. Tomou banho (sozinho, como sempre) e se esparramou na cama. Abraçou-se com o irmão, beijou a mãe, fez caretas, cantou. Fui com Pedro comprar algo para lanchar - trouxemos torradas, manteiga e refrigerante. Comer na varanda foi outra aventura, um sorrisão de Gabriel a mais. Dia seguinte, piscina a manhã toda. Fechamos a conta e, seguindo a dica do colega de Geo-USP Gustavo, o Torrinha, que por acaso estava por lá, fomos a Massarandupió- uma praia de nudismo que tem uma área de "vestismo", também. Aliás, nem arriscaríamos levar Gabriel a uma área de naturismo; seria muito difícil explicar-lhe porque ele poderia ficar nu apenas naquela praia. Gabriel, numa ousadia só, avançava na água, sumindo na distância e nos obrigando a ficar atrás dele o tempo todo. Tirá-lo da praia não foi fácil. Felizmente, Massarandupió tem um riachinho que serve de área de descompensação. Voltamos para casa como se ele tivesse passado o domingo na rede, descansado. Segunda, carnaval, fomos para a Barra sem Pedro, que preferiu ficar em casa. Chegamos tarde, cerca de cinco horas, para fugir do sol. Gabriel se meteu no mar e ficou até mais de oito horas. A água morna, uma brisa fria, me pus a espirrar, mas ele só respondia UÁÁÁÁRH! EU NÃO QUERO! a qualquer tentativa de tirá-lo da água. Os trios elétricos passavam na avenida e nós na areia. Ainda fomos ao Bompreço da Barra, comprar alguma coisinha para comer - e tivemos que esperá-lo passear por um bom tempo entre os freezers de laticínios. Na casa de Zoraide, nossa amiga que mora de frente para o carnaval, Gabriel se espalhou. Olhava pela janela, com os ouvidos tampados, comia alguma coisinha, corria para os quartos. Já de madrugada, voltamos para casa - a AMA-Ba ia ter reunião na manhã da terça-feira gorda... Chegamos - atrasados - às dez da manhã na sede da Associação, levando Marquesa conosco. Fiquei na reunião e Gabriel com Mariene, no quintal. Daqui a pouco: -Miro! Vem cá! - Mariene me chamava. Gabriel queria manteiga, mas só tínhamos trazido pão. Fiquei tomando conta dele, que tentava se auto-agredir com socos na cabeça e cabeçadas na parede. Deitei-o na rede e consegui que se controlasse. Fomos almoçar em casa. Gabriel pedia: -Sorveteria! - logo percebemos que ele tentava nos manipular. Há uma sorveteria na Barra que ele passou a freqüentar nestas minhas férias. Ele usava a sorveteria como desculpa para que o levássemos à praia. De novo à tardinha, voltamos para a Barra e o mar. Nem cheiro de sorvete! Gabriela conseguiu um convite para que fôssemos ao camarote da Vogue (ela trabalhou na produção do Carnaval da Band). Toca, então, esperar que Gabriel dormisse... Dez horas, onze, meia-noite... -"Gabriel, a Mamãe e o Papai vão sair, tá? Você fica com Pretinha?" - Pretinha é a irmã de Zoraide. - Não é que ele ficou? Ainda acordou uma vez, com um trio que passou na rua. Perguntou: -"Cadê Miro?" -"A Mamãe e o Papai saíram um pouco." Virou pro lado e voltou a dormir. postado por: Argemiro Garcia 26.2.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004 Pizza
A zoada dentro da loja era incômoda. Gabriel, numm gesto típico, tampava os ouvidos. Quando a pizza chegou, e o rapaz veio com o cortador, a alegria de Gabriel, vendo a pizza ser cortada, foi indescritível! Só vendo! Depois, ele ainda saiu na frente - Mariene seguiu-o, me deixando a pagar a conta. Só fui encontrá-los bem depois, na Loja da Vivo, operadora de celulares, que ele também adora; o pessoal já o conhece, e está entendendo muito de autismo. postado por: Argemiro Garcia 19.2.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Terça-feira, Fevereiro 17, 2004 Banana BoatAnte-ontem, domingo dia 15, fomos passear meio sem destino: Mariene, Pedro, Gabriel e eu. Chovia na direção da Baía de Todos os Santos e, assim, fomos para o Litoral Norte. Era tarde, e chegamos a Guarajuba lá pelas 2 horas. Demos uma volta pelo lugar, pois não o conhecíamos ainda (ficamos muito tempo sem carro, né?). Voltamos na direção da Estrada do Coco - e Gabriel pediu: -"Kibon! Sorveteria!" - parei em frente a um restaurante muito simpático, com uma bandeira da Kibon. Ele entrou, parou em meio às mesas, depois de espiar para dentro da geladeira, saiu e se pôs a andar na direção da praia. Logo entendi: ele tinha visto uma sorveteria da Kibon numa pracinha; eu também tinha visto, mas alimentava a esperança de que ele aceitasse o sorvete em outro lugar. Desisti. Chamei-o de volta para o carro; ele veio sob protestos (-"UÁÁÁÁÁRH!") e fomos, enfim, encarar as guloseimas. Gabriel misturou sorvete de cajá com abacaxi e maracujá, cobrindo tudo com calda de chocolate... Acabou e decidiu ir à praia. Ficamos em Guarajuba, mesmo - a praia é ótima! Mal parei o carro, Gabriel disparou na frente e tive de correr para acompanhá-lo, enquanto Mariene e Pedro ficaram para trás, fechando o carro; na água, ele se mostrou bem ousado, enfrentando as ondas, que são um pouco fortes, e a profundidade, indo até onde não lhe dava pé. Passa um pouco, vem Pedro:
-"Pai, vou te dizer só uma coisa: banana boat!" Pegamos Gabriel, que protestou um pouquinho, mas eu soube seduzi-lo: -"Vamos, Gabriel, andar de barco: barco-banana!" - a palavra barco teve um efeito mágico. Ele se encarapitou nas minhas costas e nos mandamos para onde o brinquedo estava ancorado. Logo, ele subiu - e quem tiraria ele de lá? Nem o colete salva-vidas o incomodou muito. Demos uma volta de dez minutos. De princípio, pedi para que fossem devagar. Percebendo que Gabriel estava gostando, fiz sinal para que acelerassem e, depois, para que nos derrubassem. Caindo na água, a mais ou menos qinze metros de profundidade, Gabriel achou graça, mas ficou com um pouco de medo. Com a minha ajuda, voltou para o banana-boat. O problema foi quando o passeio acabou: chamamos Mariene para nos acompanhar, mas, no período de espera, Gabriel abriu o bocão e, além de chorar muito, meteu uma cabeçada na cabeça da mãe, que estava sentada na areia ao meu lado. Mesmo com a dor e a tonteira (a cabeçada foi forte!), Mariene não desistiu e nos acompanhou na segunda volta. Na gravidez de Gabriel, também andamos num banana-boat em Rio das Ostras, perto de Macaé (RJ). De volta a Salvador, pegamos Leo em casa e o deixamos com Pedro comendo num restaurante; é que Gabriel pediu: -"Beiju! Quero beiju!" - ameaçando dar novo show.
-"Onde tem beiju, Gabriel? É no Hiper?" -"Eu acho que é no Hiper, Miro." -"Gabriel, vamos pro Hiper?" - ele deu uns socos na própria perna e, aí, "lembramos": -"Ah, Miro! Tem beiju no Aeroclube!" Depois de comer (é, apesar de tudo, ele queria mesmo o beiju), Gabriel seguiu na direção dos brinquedos. Muita choradeira por ficar na fila e uns bons arranhões nos meus braços. Mariene tinha saído para tomar café e nos encontrou quando Gabriel já balançava nos elásticos do Space Jump. Chato foi que, enquanto estávamos na fila, uma senhora se aproximou, olhando com muito estranhamento para Gabriel e seus gritos e cabeçadas (ele gritava "Eu não quero brinquedo!"); perguntei a ela: -"Posso lhe ajudar?" - ela ficou ofendida; eu não estava exatamente calmo. Ora, em vez de se dirigir a mim, vinha com uma cara de que-horror! Ainda falei: -"É autismo." - e ela disse que sabia... Sua irmã também entrou na conversa, dizendo algo como "Eu também tenho um filho especial", mostrando seu menino. A verdade é que a postura não era do tipo Posso ajudar; estava mais para Que horror! - tanto que ela confessou que pensava que eu queria obrigá-lo a ir no brinquedo. Bom, não importa; quando abriu vaga no Space Jump, Gabriel foi pendurado no estilingão e riu, riu, riu... Até vomitar beiju. Saiu meio tonto, pedindo piscina bola. Respondemos com um não e ele, surpreendentemente, aceitou sem protestos. Tivemos de passar no restaurante (Picuí Rural, na Praia do Corsário) para recolhermos Leo e Pedro. Nessa hora, Gabriel desabou no parquinho do lugar. Em casa, logo tratou de dormir. postado por: Argemiro Garcia 17.2.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004 MergulhandoGabriel adora nadar, adora mergulhar. Ele aprendeu a nadar sozinho, praticamente. Eu o segurava no colo dentro da piscina, contava:
No dia 31 passado, fomos à AMA-Ba, Mariene, Gabriel, Pedro e eu; Rita, a presidente da entidade, e sua família estavam lá. Seu marido Marcus, dentro da água, usava o aspirador da piscina e máscara de mergulho e seu filho Vinícius segurava nele, rindo, rindo de felicidade. Entramos na água, Pedro, Gabriel e eu.
postado por: Argemiro Garcia 11.2.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004 IntolerânciaNa noite de ante-ontem, sábado, Gabriel saiu, com Marquesa atrás. Eu estava no quarto quando Mariene me avisou; desci em seguida, deixando-a trabalhar. Chegando ao portão do prédio, Marquesa corria de um lado para o outro, na frente dos carros que entravam. Gabriel apenas olhava, batendo dois limões. Uma senhora tentava falar com ele: -"Venha, menino! Saia daí! Você vai se machucar!" - e, como Gabriel não lhe respondia, deu-lhe as costas e entrou pela garagem do condomínio, resmungando: "A gente fala com ele, nem responde! Vai acabar se machucando!" Peguei Marquesa no colo e falei com a mulher: -"A senhora não conhece meu filho, não é?" - mas ela mal olhou para mim e seguiu entrando pela garagem do prédio. Insisti: -"A senhora não mora aqui há muito tempo, não é?" - ela, então, me respondeu, em tom nervoso: -"Eu não moro aqui!" -"É por isso que a senhora não conhece Gabriel. A senhora sabe o que é autismo?" -"Não, não sei!" -"O meu filho é autista, é deficiente. Ele tem dificuldade muito grande em se comunicar e..." -"Eu sei o que é um autista! Sou pedagoga! Eu não sabia, me desculpe." - então, me irritei: -"Se a senhora é pedagoga, devia ter pecebido que Gabriel é autista. Ele tem várias características bem definidas e..." - ela me deixou falando sozinho. postado por: Argemiro Garcia 2.2.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Domingo, Fevereiro 01, 2004 Pequenas mentirasPara quem não tem filho autista, pode parecer estranho, mas temos comemorado a nova habilidade de Gabriel: está se mostrando um grande mentiroso. Explico: de acordo com o Dr. Simon Baron-Cohen, os autistas não têm teoria da mente. Enquanto as demais crianças percebem, lá pelos três anos de idade, que outras pessoas pensam e sentem diferentemente de si mesmas, um autista não desenvolve essa percepção espontaneamente. Para mentir, é obrigatório saber que o seu interlocutor não sabe tudo aquilo que você sabe e, assim, poderá acreditar na inverdade que você está contando. A capacidade de mentir apareceu em Gabriel há mais ou menos um ano atrás. Percebemos quando ele estava brincando com Ítalo, o filho de Ana. Ítalo se fechou no quarto e Gabriel puxou Gabriela pela mão, olhou para ela, bateu na porta e disse, engrossando a voz: Ítalo! É Argemiro! - e olhou para Gabriela, como se esperando que ela fizesse a mesma coisa. Ou seja, Gabriel estava mentindo! Estava mostrando já ter entendido que Ítalo não estava sabendo o que havia do lado de fora do quarto. De lá para cá, Gabriel cada vez mais começou a mentir - sempre pequenas mentiras. Quando quer ir ao Hiper, muitas vezes pede: - Coxinha! e, lá chegando, nem se abala com a lanchonete. Outras vezes, pede um sorvete: -Frutare! e, ao chegar na banca que vende sorvetes Kibon, começa a fazer birra para pegar um ônibus e dar uma volta. Na sexta-feira retrasada, dia 23, estávamos na locadora Vídeo Hobby do Itaigara. Ele pediu: -"Coxinha de catupiry!" e, então, levei-o à loja de conveniências vizinha. Ele, simplesmente, entrou, olhou para as dúzias de coxinhas expostas na vitrine e soltou: -"Não teeeem coxinha de catupiry!" Ficou óbvio: queria ir ao Hiper. Reparamos que Vinícius, filho da presidenta da AMA-Ba, Rita Brasil, tem um comportamento semelhante. Quando ele está proibido de entrar na piscina da AMA-Ba, chega bem na beiradinha da água e fica se debruçando. De repente, Tchibum! - cai... Nescau para MarquesaNesta sexta-feira, dia 30, Gabriel se fechou na cozinha com o liquidificador. Bateu leite com Nescau, como ele diz, e ainda fez uma limonada com alho (ugh!). O Nescau, ele logo trouxe para oferecer à sua filhote, a Marquesa, que enfiou o focinho no copo e, feliz da vida, tomou tudo. Já o limão com alho, ela cheirou, cheirou e, claro, nem provou. Acabou, ainda, dando remédio para todo munndo: tomei um comprimido de maracugina, assim como Pedro; Marquesa só lambeu o remédio. postado por: Argemiro Garcia 1.2.04 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
|