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Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
Clique para entrar na
Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Sexta-feira, Outubro 31, 2003

Jornada na Petrobras


A Jornada PAE - 2003 vem ocorrendo desde anteontem, quarta-feira, dia 29. O stand da AMA-Ba ficou ao lado da entrada do auditório.

Juliana canta Noite de Luar


Fizemos contato com profissionais e com outras entidades, como o INESPI-EVOLUÇÃO e a Sociedade Pestalozzi. A apresentação de Felipe, portador de miopatia que dançou belíssimamente emocionou todos que a assistiram.

Gabriel esteve na Petrobras na quarta-feira, com a Escola Via Ponte: alguns colegas vieram me contar que o viram no restaurante, aos gritos:

-QUERO ALMOÇO! QUERO ALMOÇO!!!!

Minha palestra foi bastante elogiada. Agradeço a todos que mandaram fotos: Giovana, Cristina, Roseli, Barbosa, Maria Alexandra... Esqueci de alguém? Mariene vai colocar a apresentação, em Power Point, no website da AMA-Ba.

A apresentação de Juliana foi outro momento emocionante: ela está muito feliz com esse sucesso todo. Cantou Balada de um Louco e Noite de Luar, esta de sua autoria.

Hoje, sexta-feira, a Escola Via Ponte vai apresentar a peça Coração de Cristal no Teatro ISBA, em Ondina - por isso, não houve atividade na escola. Bobeamos e acabei preparando Gabriel para ir para a escola. Como o transporte não veio, liguei e percebi que tinha de levá-lo à Petrobras. Ele passou a manhã toda pulando pelo auditório, pelo hall dos elevadores e andando pelos corredores do subsolo. Na hora do coffe break ele quis pegar o elevador - fomos até a sala da secretária do Gerente Geral - ela queria conhecê-lo. Quando a zoada acabou, voltamos.

postado por: Argemiro Garcia 31.10.03

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Segunda-feira, Outubro 27, 2003

Jornada do PAE


O PAE (Plano de Assistência Especial) da Petrobras estará realizando sua Jornada de 29 a 31 de outubro em várias unidades da empresa. Aqui na Bahia, participarão várias entidades, mostrando os trabalhos que vêm realizando. O tema da Jornada, este ano, é Filho especial: será que custa? As famílias atendidas foram convidadas a posar para o material de divulgação. No nosso caso, a foto ficou assim:

Mariene, Gabriel e eu.


Buscar o Leo!


Nesta segunda-feira, Leonardo foi dormir na casa do amigo Luís - levou o uniforme e tudo! Quando deu nove horas...

-Buscar o Leo! Vamos buscar o Leo!

-Hoje o Leo não foi para a academia, Gabriel! - Leonardo venceu a primeira luta de que participou, no campeonato que aconteceu no domingo e acho que se deu o direito de uma folga.

-Buscar o Leo!

Só ficou sossegado quando pegamos o carro e fomos até o prédio de Luís; Mariene chamou Leonardo, que veio até onde estávamos e deu um beijo no irmãozinho, explicando que ia dorrmir na casa do colega. Só então tudo ficou calmo.

postado por: Argemiro Garcia 27.10.03

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Sexta-feira, Outubro 24, 2003

O canal da Mancha


O irmão do grande colega e amigo Pérsio atravessou o Canal da Mancha a nado. Percival, o nadador, é o nono brasileiro a fazê-lo. Não é um atleta profissional. Ao contrário, é um executivo em São Paulo e trabalha 12 a 14 horas por dia. Mesmo assim, traçou para si mesmo uma meta a conquistar e construiu seu sonho. É ele quem diz:

- O que leva um nadador ao outro lado é a cabeça - a sua determinação - e não os braços. Você não pode deixar de acreditar nem mesmo por um instante.

Não há como não comparar as duas tarefas: levar um filho até sua independência não pode ter vacilações. Em particular se esse filho precisa de algo a mais da gente.

Não há falsa esperança - toda esperança é verdadeira; pode até não se concretizar. Mas o que conta, hoje, é o sonho. O medo de ser feliz nos engessa. Toda felicidade um dia acaba. E, de novo, surgirá outra. Sempre.

O Canal da Mancha - via Imbloglio.
Mais um brasileiro atravessa o Canal da Mancha.

postado por: Argemiro Garcia 24.10.03

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Febre e preocupação


Ante-ontem, quarta-feira, a Via Ponte mandou Gabriel de volta para casa, porque estava com muita febre. Isso, de fato, não me preocupa muito; Mariene, como é normal numa mãe, fica toda derretida. Febre, para mim e meus filhos, costuma ser alta e o organismo reage logo. De fato, era uma gripezinha. Dois dias de molho na cama e ele já melhorou.

Mas Mariene vinha me cobrando outra coisa. No dia anterior, eu tinha ligado para Ramona, a pró de Gabriel, porque não temos acompanhado o desenvolvimento dele como fazíamos antes. É que, antes, ele estava numa escola perto e eu ia buscá-lo todos os dias. Agora, não tem sido possível.

Ramona me disse que ele já começou a escrever, com uma letrinha linda e prometeu que ia mandar alguns dos trabalhinhos para vermos. Na verdade, eu já tinha percebido, num cartão que a Escola mandou no Dia dos Pais (e que eu acabei deixando de comentar aqui).

A preocupação é: será que estamos fazendo tudo que podemos? Será que está faltando algo? Será que nosso trabalho para montar a AMA-Ba vai trazer retorno para Gabriel? Ou devíamos canalizar nossos esforços para ele?

Tenho medo de que nos envolvamos demais com a Associação e deixemos Gabriel para segundo plano. Há quem caia nessa armadilha - que não deixa de ser uma fuga. Em primeiro lugar, queremos investir na melhoria de vida do Gabriel. Como poderíamos ajudar alguém sem ajudar sequer nosso filho?



Ontem, por sinal, Gabriel ficou irritado. Mariene ia viajar a serviço do mandato do deputado Zé das Virgens e ele se pôs a pedir Ouro Branco. Estávamos preparando nosso jantar. E fizemos com que ele esperasse. Reclamou, chorou... mas conseguiu agüentar a ansiedade. Ontem, a vitória foi da paciência.

postado por: Argemiro Garcia 24.10.03

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Terça-feira, Outubro 21, 2003

Nuvens e trovoadas


Domingo de tarde, ficamos os dois passeando pelo PG. Depois do almoço...

Depois do almoço, Gabriel pegou um CD do Ursinho Puff (Winnie the Pooh) em inglês, que a Abril, numa trambicagem - digo, numa jogada de marketing -, vendeu como se fossem exercícios de inglês. Nem se deram ao trabalho de traduzir!

O CD não rodava. Fiquei meia hora - 32 minutos, para ser exato - tentando de todas as formas: lavei o CD, limpei o driver, reinicializei o micro umas três vezes. O som não saía. As imagens congelavam. E Gabriel gritava, batendo a cabeça em todo canto:

- Copiáite! Copiáite! Qué copiáite! Copiáite acabou! Fazer xixi no copiáite!

Ele me pegou pelos cabelos e me tascou umas quatro cabeçadas na testa - tentei dar uma de Gandhi, mas acabei dando uma de Popó: dei-lhe uns bons tapas. E ele:

- Fazer xixi no play! - botou o pinto pra fora e começou a mijar. Mais chineladas.

Deu umas cabeçadas na estante do micro que quase foi tudo para o chão - mais bronca - arrastei o sofá para o outro canto da sala.

O difícil é que, no meio desse stress todo, a gente tem que manter a calma para resolver o abacaxi: por que é que o programa não está rodando?

Até que tomei a decisão difícil: desinstalar e reinstalar o danado do CD. Não é que funcionou?

Com a cara inchada de tanto choro e grito, meio desconfiado, mas feliz, Gabriel se sentou no micro e pediu:

-Copiáite! e eu, clicando daqui, clicando dali, cheguei ao green ballon, cliquei em good bye e a tela começou a mostrar os créditos (o copy right). Tudo voltou à santa paz.

Nem parecia que mais uma tempestade tinha devassado nossa casa.

postado por: Argemiro Garcia 21.10.03

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Festa às pressas, aeroporto e asma

Ivalda, fonoaudióloga que tem ajudado na construção da AMA-Ba, trouxe Ursula Heymeyer, professora da USP e pedagoga da AACD de São Paulo nesta sexta-feira. Ela falou para um grupo de estudantes de TO, de fono e para mães e pais de autistas.

Sua opinião vem ao encontro da nossa: autismo não é doença, é condição e, como tal, devem ser criadas condições para que o autista compreenda o mundo à sua volta e nele possa se situar.

Ao final da palestra, Juliana Paraíso fez uma apresentação musical: primeiro cantou Bete Balanço, de Cazuza. Em seguida, cantou uma música de sua autoria e, por último, entoou Balada de um Louco: Mais louco é quem me diz; eu sou feliz...

Passei no Hotel Pestana para pegar Mariene, que fôra para uma palestra da ministra Marina Silva. Voltamos para casa, para encontrar Gabriel agitado:

- Corta o bolo! Corta o bolo!

Mal nos deixou cantar os parabéns. É que eu fazia 43 aos - idade difícil - número primo, sem graça, e já passei do prazo de validade. Cada vez me convenço mais e mais que o projeto de Deus para o homem não previa mais do que 40 anos.

Sábado, levamos Dona Nenê, a mãe de Mariene, ao aeroporto - ela foi a São Paulo. Gabriel se pôs a passear e nem se despediu da avó, que fez a melhor viagem da vida - seu último vôo fôra há mais de 40 anos. Ele adora os elevadores do aeroporto e ficava subindo e descendo, com um de nós acompanhando; na vez de Mariene, ele quis uma coxinha e, como ela estava sem a bolsa, precisou trazê-lo até onde eu estava com Pedro. Na volta, ele se pôs a reclamar. Um casal que passava intrigado fez cara de espanto quando eu lhes disse, simplesmente: autismo!

Mariene, dali, foi para o Encontro de Mulheres do PT, enquanto voltei para casa com os meninos. Aproveitei para dormir um pouco, porque o ciático voltou a doer - cortei os analgésicos que estavam me deixando lerdo. Gabriel e eu, então, dormimos até meio-dia e meia.

Passamos a tarde sem grandes aventuras; Gabriel ficou comigo na cama, ditando palavras que eu escrevia. Até consegui pegar sua mão e escrever algumas palavras!

postado por: Argemiro Garcia 21.10.03

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Quinta-feira, Outubro 16, 2003

Grandes Autores


Dez poetas: João Sampaio, eu, Loreta e Carlos Valadares, Luis Flávio do Prado Ribeiro (no fundo, de azul), Rose Rosas (de vermelho), Goulart Gomes (de chapéu), Djalma Filho, José Inácio Vieira de Melo (no fundo, de vermelho) e Vladimir Queiroz.
João Sampaio, eu, Loreta e Carlos Valadares, Luis Flávio do Prado Ribeiro, Rose Rosas, Goulart Gomes (de chapéu), Djalma Filho, José Inácio Vieira de Melo e Vladimir Queiroz.
Ontem, enfim, fizemos o lançamento da Antologia Poética I do Grupo Cultural Pórtico - mas não se engane: esse é o quadragésimo segundo livro do grupo. Ainda que não sejamos nenhuma fênix, estamos ressurgindo das cinzas, depois de ficarmos um bom tempo só publicando livros individuais. (Cá pra nós, no Brasil o que costuma ressurgir das cinzas é batata-doce, o Paulo Maluf e o ACM.)

Fomos todos. Mariene, Leonardo, Pedro e Gabriel aterrisaram no Pastel Mel - sei lá eu com o que forraram os seus buchinhos... -, enquanto eu já entrava no Shopping Cultural Grandes Autores.

É assim que ele faz seu teatro: UÁÁÁÁÁÃÃÃÃ RÃ RÃ RÃ!
UAAAAA-RA-RA-RA
Gabriela chegou em seguida, com Gabrielo. Autógrafos, fotos, parabéns. Fomos bem prestigiados por amigos e por outros poetas de Salvador; estava tudo muito legal (se quiser ler um dos poemas, confira o post do dia 14/10). Mais um pouco, Gabriel veio, trazido por Leonardo; deu uma volta, parece que não gostou da zoada, e voltou para a lanchonete. Quando descobriu a máquina na mão da irmã, resolveu posar de radical. Esxplico: ele gosta de ser fotografado dando cabeçadas nas paredes e fingindo que está chorando:

-UÁÁÁÃÃãã-RÃ RÃ RÃ! UÁÁÁÃÃãã-RÃ RÃ RÃ!

Reunimos os dez poetas para uma foto histórica, já no escuro: a força caiu na região toda, do Rio Vermelho à Barra. O pessoal da livraria decidiu trancar uma porta lateral e, por isso, fiquei meio irritado. É que Gabriel queria ficar lá fora. Como já chegavam as nove horas, voltamos para casa.

Em casa, ainda, ele quis brincar um pouco no micro, gravando alguma coisinha e digitando textos no Talk Any. Pediu Nescau e, no final, foi se deitar.
Pelo jeito, ele ficou intrigado em ler um nome tão parecido com o seu... Gabriel Garcia.
Gabriel e euMariene, Gabriel e eu

postado por: Argemiro Garcia 16.10.03

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Quarta-feira, Outubro 15, 2003

Eu disse...


Gabriel usa muito o nome dos colegas da sua escola Espaço Via Ponte para fazer seus jogos de palavras. Eles estão sempre presentes nas musiquinhas, por exemplo.

Ontem, como Ana não foi trabalhar novamente, Mariene ficou retida em casa. Gabriel quis descer para o PG - e não teve como convencê-lo a deixá-la arrumar a casa. (Nas terças-feiras, ele vai à Via Ponte apenas pela manhã).

Começou, então a soltar suas frases:

-Dominique, eu te amo! - e Mariene respondia, ecolalicamente:

-Dominique, eu te amo!

-Clara, eu te amo!

-Clara, eu te amo!

-Clara, eu te amo!

-Mamãe, eu te amo! - parece que ele não gostou da intervenção:

-Eu disse Clara, eu te amo!

postado por: Argemiro Garcia 15.10.03

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Terça-feira, Outubro 14, 2003

Cadê mamãe?


Ontem, dia 13, Ana faltou ao serviço. (Hoje também.) Assim, Mariene também faltou - fazer o quê? A Via Ponte deu feriado adiantado por conta do Dia do Professor e Gabriel precisava dela.

De noite, ela foi a uma reunião no SINDAE. Gabriel e eu levamos Leonardo para a Academia e Mariene para o Sindicato - era uma reunião do Movimento Paulo Jackson - pela Defesa das Águas e pela Revitalização do São Francisco.

Chegando em casa, meu ciático latejando, Gabriel disse, enrolando:

-'ncês!

-O quê, Gabriel?

-Pão francês!

Fomos para o Hiper e aproveitei para comprar mais analgésicos. Voltando apra casa, ele perguntou:

-Mamãe?

-Ela está no SINDAE.

Começou a chorar. Eu disse:

-Daqui a pouco, vamos buscá-la. Vamos buscar a mamãe no SINDAE, tá bom?

-Buscar mamãe?

Consegui enrolar, dando-lhe pizza (desculpa, Geórgia, mas a dieta sgsc está loooonge...). Deu 9 horas e fomos buscar Leo. Gabriel se senta no banco de trás e pede:

-Bota o cinto! - a porta do lado esquerdo vai travada, mas ele é esperto e sabe que a porta direita fica livre. Além disso, já destravou a porta umas duas vezes, antes de batê-la. Aprendeu só de nos observar.

Pedi:

-Pega o cinto e faz cloc! - e ele fez direitinho.

A Academia de Tae-kwon-dô estava fechada, mas pegamos Leo e Luís no caminho. No carro, passei-lhe o celular e ele avisou Mariene que íamos buscá-la - depois de deixar o amigo em casa.

O SINDAE (Sindicato dos Trabalhadores em Água e Esgoto no Estado da Bahia) fica no bairro dos Barris, pertinho da Biblioteca. Paulo Jackson foi seu presidente - o melhor deputado que a Bahia já teve. Quando chegamos à porta do sindicato, Mariene já nos esperava e um sorriso iluminou o rosto de Gabriel. Leonardo vinha perguntando sobre a vida na Universidade - especialmente as eletivas de Educação Física, querendo saber se dá para fazer tae-kwon-dô na Faculdade. Mariene sentou atrás, com Gabriel e foram brincando.

Mais tarde, com a perna doendo, fui dormir. Armei-me de paciência. Mariene queria assistir Um Lugar Chamado Notting Hill, com Julia Roberts e Hugh Grant. Gabriel queria botar o vídeo dA Bela e a Fera. A porta do quarto abriu e a luz foi acesa na minha cara:

-Fazer xixi no quarto!

-Faz xixi no banheiro, Gabriel!

-Fazer xixi no vídeo!

-Fazer cocô no quarto!

-Abre porta!

-Tá, abre a porta, apaga a luz e fecha a porta!


Lá foi ele torrar a paciência de Mariene. Meia dúzia de elogios entre os dois e lá vem ele de novo. A porta do quarto abriu e a luz foi acesa na minha cara:

-Fazer xixi no quarto!

-Faz xixi no banheiro, Gabriel!

-Fazer xixi no vídeo!

-Fazer cocô no quarto!

-Faz cocô no banheiro, Gabriel!

-Comer fita!

-A fita vai estragar...

-Abre porta!

-Tá, abre a porta, apaga a luz e fecha a porta!


Na terceira vez, desrosqueei a lâmpada. Ele abriu a porta e, quando percebeu que a luz não acendia, acendeu a do banheiro. A cena se repetiu, com pequenas diferenças; por exemplo, pedi-lhe que apagasse a luz do banheiro. Acho que, depois disso, desmaiei. Não sei mais o que aconteceu. Mas, pelo humor da Mariene quando ela foi dormir, a briga foi feia.

Hoje, preparei tudo e o levei para o carro do Seu Wilson. E Ana não veio trabalhar de novo.

postado por: Argemiro Garcia 14.10.03

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Lançamento Literário


Dia 15, quarta-feira, o Grupo Cultural Pórtico estará lançando mais uma Antologia, com os poetas: Carlos Valadares, Djalma Filho, Goulart Gomes, João Augusto Sampaio, José Inácio Vieira de Melo, Loreta Valadares, Luiz Flávio do Prado Ribeiro, Rose Rosas, Vladimir Queiroz e eu, Argemiro Garcia. A festa será das 18 às 21 horas no Shopping Cultural Grandes Autores, Avenida Ademar de Barros, 88, em Ondina - Salvador, claro!

Segue uma palhinha, de minha autoria:
Cheiro de sal

Em algum lugar na infância
o mar me cheirou salgado;
não havia esgotos ou sargaço,
apenas a espuma branca,
a água fria
e a areia de grãos finos.
Tempo! O tempo voa veloz,
como gotas salgadas escorrem
na pele dos meninos.
Meus meninos brincam na água.
Meus meninos andam na água.
Meus meninos passam na água.
Não há o que os segure crianças,
ainda que o queira.
Minha vida segue com eles.

Se você quiser muito adquirir esse livro, sinta-se à vontade. Ele está à venda por um precinho módico. Ajude estes pobres poetas a produzir seu trabalho... Mande-me um e-mail dizendo "Quero comprar a Antologia Poética I do Pórtico".

postado por: Argemiro Garcia 14.10.03

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Segunda-feira, Outubro 13, 2003

Dia da Criança


Ontem, domingo 12 de outubro, fomos ao Hotel Fazenda Kantagalo, que fica no acesso a Camaçari, saindo do Aeroporto 2 de Julho. Gabriel, assim que chegamos, se pôs a gritar:

-Avoador! Avoador! - biscoito de polvilho, por aqui, se chama avoador (talvez por causa da marca).

Não teve jeito. Como Gabriela e a família do Gabrielo já estavam por lá, deixamos Mariene, sua mãe, Leo e Pedro e saímos - Gabriela acompanhou a mim e Gabriel. Decidimos ir ao Bompreço de Lauro de Freitas, perto do Aeroporto.

Gabriel, no caminho, pediu:

-Fazer xixi no banheiro! - e eu:

-Calma, Gabriel, estamos chegando. Ele deu uns gritos, ameaçou me bater, mas agüentou bem.

Comprados os biscoitos e mais um pacote de Sonho de Valsa e Ouro Branco, voltamos.

A tarde foi mais ou menos tranqüila; os três meninos brincaram na piscininha - Gabriel vinha me chamar toda hora para entrar com ele, mas isso aconteceu depois que uma mafiazinha de quatro menininhas o agrediu: justo a menorzinha deu-lhe um empurrão. A disputa era uma jacuzzi minúscula cheia de sabão em pó. Como ele só é valente com a gente, precisou de guarda-costas daí pra frente. Meu ciático é que passou a reclamar mais.

Gabriela e Gabrielo deram um Bob Esponja que fala para o xarazinho. Leo e Pedro, já adolescentes, tiveram de se contentar com a festa.

Na volta, os três moleques dormiram em volta da avó, no banco de trás. Em casa, Gabriel me chamou:

-Escovar o dente! - seu sinal para irmos dormir. Deitamos juntos na cama de casal, mas ele saltou fora mal eu comecei a cochilar e convenceu a mãe a ir ocm ele para o PG.

Mariene me contou que, no Play Ground, Gabriel cantou umas inversões. Ele troca o sim pelo não e vice-versa. Desse jeito, saiu algo como:

-Mãezinha do céu,
eu sei rezar,
só quero dizer
que não quero te amar.

Azul é teu manto,
b'anco é teu véu...
Mãezinha, não quero
te ver lá no céu...


Eu já tinha visto ele fazer coisass assim com outras músicas. Ficamos contentes: ele está buscando trabalhar a linguagem, não?

[Gabriela pegou emprestada uma máquina digital de muita memória.
Quando descarregar, vamos ter uns filmezinhos para botar por aqui.]

postado por: Argemiro Garcia 13.10.03

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Sexta-feira, Outubro 10, 2003

O contador de histórias


Gabriel continua firme com suas historinhas. Ontem, depois de gravarmos Sapo Jururu e Cai cai, balão no micro, descemos os dois para o portão do condomínio. Ele começou, enquanto batia dois limões:

-Pum! Verônica caiu! Canta! - e eu respondia:

-Pum! Verônica caiu!

-Verônica quebrou a boca! Canta! - e eu:

-Verônica quebrou a boca!

-Cachorro mordeu a costa de Verônica!

-Cachorro mordeu a costa de Verônica!

-Canta! - e eu tinha de botar a memória para funcionar e lembrar de tudo:

-Pum! Verônica caiu!
Verônica quebrou a boca!
Cachorro mordeu a costa de Verônica!


Subimos para tirar do fogo a sopa que Pedro pedira. Mariene ligou para que fôssemos buscá-la; já eram umas oito e meia e ela estava na Assembléia, adiantando um boletim do mandato do Zé das Virgens; em casa está difícil usar o computador antes de Gabriel dormir. Ainda passamos para pegar Leo na Academia. Na volta, Gabriel pediu:

-Or'banc! - só eu consegui ouvir, e tentei negar:

-Ah, não, Gabriel! Estou cansado e...

-OURO BRANCO!

-Mariene, você e Leo descem. Pedro, você vai comigo ao Hiper?

postado por: Argemiro Garcia 10.10.03

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Quinta-feira, Outubro 09, 2003

Utilidades de uma prancha de body boarding


O hábito de Gabriel bater objetos - mania, mesmo - nem sempre é inócuo. Ontem à noite ele pegou um vidrinho, talvez de óleo de amêndoas, talvez de ácool absoluto, e se pôs a batê-lo contra um limão. De repente, como era de se esperar, o vidrinho quebrou.

Mariene reclamou:

-Viu, Gabriel? Eu falo pra você que é perigoso! Agora, dá licença que eu vou recolher. Não vem pra cá!

Eu, como já caía de sono - por causa do meu nervo ciático, estou dormindo mal pra burro - fui deitar. Do quarto, escutei Gabriel pedir alguma coisa. Mariene foi me contar:

-Olha como ele é espertinho: está pedindo a prancha. - a velha prancha de body boarding que Gabriela comprou há 15 anos atrás.

De manhã, a prancha estava no chão, em frente à televisão. Fiquei imaginando Gabriel dando seus pulinhos em cima da prancha para não furar o pé nos caquinhos de vidro.

postado por: Argemiro Garcia 9.10.03

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Quarta-feira, Outubro 08, 2003

Comida chinesa


Pedro, Gabriel e eu fomos buscar Mariene em uma reunião no CREA-BA (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia). Na volta, ainda passamos pela academia de Leonardo. Assim, estávamos os cinco na rua - e decidimos pegar alguma coisa numa entrega de comida chinesa.

Na porta do restaurante Yan Ping, na Avenida Paulo VI, Gabriel pulou do carro e foi entrando. Não teve jeito, ele queria comer por lá, mesmo. Até que todo mundo aceitou a idéia, mas não esperávamos outro piti.

Gabriel, nem bem sentou, começou:

-Arroz! Arroz! ARROZ!

Para mostrar ainda mais seu descontentamento, ainda pegou um copo, desses tipo taça, com pezinho, e começou a batê-lo na mesa. Não passou da segunda porrada, estilhaçou-se todo.

Pedro veio cochichar se eu não tinha um folder da AMA-Ba para entregar; Mariene e eu já pensávamos em pegar a comida e ir para casa. Seguindo os pedidos de Mariene e o conselho de Priscilla, na lista autismo no Brasil, eu falava baixinho, o mais calmo que conseguia:

-Gabriel, tenha paciência, precisa preparar a comida... - e explicávamos ao maitre que ele é autista, que nunca se comportou assim em restaurante, etc, etc.

Muito solícito, o maitre providenciou que trocássemos de mesa e fez que o arroz chegasse em questão de minutos - ao mesmo tempo em que a ladainha se ampliava:

-Frango! Frango! Fazer xixi no frango!

Veio o frango xadrez também rapidinho e Gabriel se acalmou. Foi Mariene quem encontrou a explicação:

-É claro! Ele está acostumado com o Yan Ping do shopping. Lá, é só pegar a comida; aqui, tem que esperar!

Nem bem comeu, Gabriel foi ao banheiro, lavou a mão e ficou junto ao aquário, vendo os peixinhos dourados. Como eu já tinha jantado em casa, fiquei com ele, que falava:

-Água! Olha o peixe! Peixe! Barriga! Costa! Pedra! Árvore! Pé!

Explico: Os peixinhos são muito barrigudos, e o aquário é enfeitado com pedrinhas e com três blocos de rocha que se parecem com troncos de árvore. E, para ele, expliquei:

-Peixe tem nadadeira, Gabriel!

Pedro e Leo também se conformaram e acabaram de jantar. Saímos de lá com o maitre sugerindo que, numa próxima vez, poderíamos telefonar antes para que a comida já estivesse pronta quando chegássemos.

Pois não é que o danado do Gabriel ainda quis comer pão e Nescau, em casa?

E aí, Geórgia, como tiramos o glúten desse menino?

postado por: Argemiro Garcia 8.10.03

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Terça-feira, Outubro 07, 2003

Cara de bravo


Estou arrebentado desde o sábado retrasado, quando levamos Gabriel ao Aeroclube para brincar no Space Jump. Então, quando Gabriel pediu, ontem à noite, Ouro Branco, tentei argumentar:

-Eu estou com dor na perna, Gabriel. Come brigadeiro! Eu enrolo!

Ele contraiu as sobrancelhas, tentando fazer um sobrecenho. Mostrei a Mariene:

-Olha a cara de bravo dele! e completei, para ele:

-Sua cara de bravo está ótima, Gabriel, mas eu estou com dor!

Ele ameaçou dar uns gritos, falando bem rápido:

-Ouro Branco! - algo como: O'rbanc!

Aceitei ir logo ao supermercado, já com a condição de voltarmos logo. É que estou com o nervo ciático inflamado, depois dos esforços do Space Jump. Faz parte, não é?

postado por: Argemiro Garcia 7.10.03

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É barra


A médica de Pedro recomendou-lhe fazer barra para perder a barriga de menino - sabe como é: chegando a adolescência, fica a vontade de parecer mais elegante. Tivemos de comprar uma barra, porque ele não aceitou fazer barra em público. Juntamos dois interesses. Desde quando Mariene fez o curso do Método Doman tínhamos a intenção de comprar o equipamento; no sábado, Mariene foi com Pedro ao Comércio e fez a compra.

Veio a brincadeira. Peguei Gabriel no colo e o levantei até a barra. No começo, deixei-o pendurado, e ele não agüentou muito. Depois, comecei a levantá-lo, como se ele mesmo fizesse barra - sem contar. Quando chegou à quinta, ele disse:

-Cinco! e continuou:

-Seis!

-Sete!

-Oito!

-Nove-dez! - não agüentava mais... Quer dizer: ele estava contando, mas não dá para dizer que ele associa completamente a contagem com o que ela significa.

Isso aconteceu, também, no domingo, comprando polpa. Ele ficou em frente ao freezer, apontando rapidamente os saquinhos. Pedi:

-Quer polpa? Pega cinco polpas de abacaxi!

Gabriel contou:

-Um, dois, três, três, quatro, CINCO! - e, no cinco, pegou três polpas de uma vez; como contou o 3 duas vezes, acabou pegando oito. Parece, mesmo, que não tem tanta compreensão do significado da contagem.

AMA-Ba


Saí mais cedo do trabalho na sexta-feira para participar da Assembléia Geral Extraordinária da AMA-Ba. Recomendo a quem estiver criando uma entidade desse tipo que já faça tudo de acordo com a lei da OSCIP.

Peguei Mariene em casa e seguimos para a associaçào. É sempre emocionante vermos crescer uma entidade pela qual tanto trabalhamos. Já estavam por lá: Rita, Karina, Ângelo e Inês - com seu filho Saulo -, Barbosa... Marília e Raquel tinham dado uma saidinha. E mais um bom número de mães, tias, irmãs e primas que ainda não conhecemos. Nós, homens, éramos a minoria.

Aprovadas as mudanças, a ata e o novo Estatuto ser"ao encaminhados ao Cartório. Como OSCIP será muito mais fácil negociarmos parceria com órgãos públicos.

Shows de domingo


A bem da verdade, o fim-de-semana foi muito estressante.

Tivemos muitos shows - e pai de autista sabe o que isso significa.

Foi o show de sábado à noite para irmos ao Hiper comprar camarão: estávamos na casa da tia de Mariene, onde ele não gosta de ir.

Foi o show de domingo cedo para acharmos a fita da Bela e a Fera - 1 hora e tanto!

Ficamos com uma dúvida: o fim do show é quase instantâneo. Será que ele acha que seus protestos fazem parte da comunicação? Que, sem eles, não conseguirá as coisas que quer?

Historinha


Gabriel, no domingo, ditou:

MAGOOU O BRAÇO.
MARRIE ATACOU O BRAÇO DE LUCAS.
LUCAS CHOROU.
ELIANA FICOU BRAVO COM A MARRIE E DEPOIS BRIGOU.


Escrevi no Talk any! (usando dois ss para a palavra braço, de forma que a pronúncia saísse correta). Agora, ele já consegue juntar as frases para compor uma história.

Sonhos e pesadelos


Mariene teve um sonho que, para interpretar, não é preciso ser psicólogo junguiano:

Estávamos num caminhão, Mariene, Gabriel e eu. A estrada era numa montanha, tipo aqueles filmes feitos nas cercanias de Los Angeles, com penhascos áridos. De repente, o caminho acabou e eu joguei o caminhão para fora da estrada. Caímos numa ribanceira, com o mar batendo lá embaixo, e ficamos os três num pequeno platô. Nisso, Gabriel se afastou e alguém disse que ele podia se perder. Fomos, então, Mariene e eu tentar alcançá-lo. As pedrinhas caíam abismo abaixo...

Fácil de entender, não é?

postado por: Argemiro Garcia 7.10.03

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Sexta-feira, Outubro 03, 2003

Dieta

Para quem não sabe, estamos tentando implantar a dieta sem glúten e sem caseína que, segundo algumas pesquisas, melhoraria o desempenho de um autista.
Compramos uma marmita térmica, para mandar cuscuz no lanche.

Segunda-feira, parecia que tudo daria certo: banana frita, banana cozida, cuscuz, beiju. Ramona, a pró, falou para Mariene que ele só beliscou um pouco de cada coisa.

A semana foi passando assim, até que, na quarta-feira, Gabriel simplesmente não comeu...

Então, confirmamos que vai ser preciso diminuir o trigo e o leite, primeiro - não dá para simplesmente cortar.

Ah! ontem, ele me pediu:

-Ovo! - mas não era a panqueca especial o que queria (Gabriel gosta de massa de panqueca com cebola misturada. Já fazemos assim: Ovo, água, polvilho -goma de mandioca- e sal. Assim, tiramos o glúten e a caseína.)

Pegou a tigela de fazer bolo e disse:

-Ovo! Açúcar! - e eu:

-Não, Gabriel, primeiro a margarina.

Fui colocando os ingredientes enquanto ele misturava. Não quis Nescau:

-Nãããããoooo! e reclamou do fermento:

-Nãããããoooo!

A avó tentou ajudar, raspando a tigela. E foi Gabriel mesmo quem abriu a porta do forno e colocou o bolo. Mas depois pediu:

-Pão francês! e tivemos de ir ao supermercado.

postado por: Argemiro Garcia 3.10.03

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