Canto de Anjo



Eclipse da Lua, 2003.

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Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
Clique para entrar na
Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Segunda-feira, Setembro 29, 2003

Era um domingão...


Gabriel foi acordar Mariene levando Marquesa: ficou um tempão beijando a cachorrinha e mexendo com a mãe. Quando ela me chamou para ver tanto dengo com o bichinho, ele pediu:

-Mendoim!

Antes que a gritaria começasse, levei-o para o Hiper: além do amendoim, compramos outras coisas para a casa, uma pinça, dessas de pegar carne em churrascaria e uma marmita térmica - a idéia é avançar na dieta sgsc (sem glúten sem caseína). A pinça, em particular, vem da necessidade de treiná-lo no uso do lápis. Serve para trabalhar o movimento de pinça dos dedos. No dia anterior, ele tinha usado uma dessas pinças para pegar onze pedaçoes de peixe - que ele contou, um a um, ao pôr no saco.

Lá pelas tantas, Gabriel pediu:

-Fazer xixi no banheiro! - e lá fomos nós. Na saída, ele se adiantou coisa de três metros. Uma fiscal nova na loja o viu sozinho e o abordou:

-Com quem você está? Ele, depois de alguma insistência, olhou-a e não disse nada; prosseguiu batendo dois limôes. Fui seguindo-os e observando. Depois de mais umas tentativas, ela pegou o rádio e falou alguma coisa com o controle central - continuando a segui-lo até a peixaria, no fundo da loja.

Corri para o carrinho, peguei fôlderes e a procurei:

-Isso aqui vai te ajudar a entender o que aconteceu.

-Ah! Ele é autista? Pensei que estivesse perdido. Falei com a central que tinha encontrado um menino andando sozinho e não tinha ocnseguido fazer contato.

-Eu segui vocês para ver o que você ia fazer. Gabriel é muito conhecido na loja. Obrigado pela sua preocupação.

Na saída, Gabriel ainda pediu:

-Polpa de abacaxi!

-Vai lá e pega cinco polpas. - e lhe dei um saquinho. Não é que trouxe as cinco polpas?

Levei Leo para uma festa e, quando voltei, Mariene e Gabriel estavam no Play Ground - ele pedia sunga. Acabamos por ficar na piscina, os dois, enquanto ela subia para acabar o almoço. Surgiu nova brincadeira. Ele pediu:

-Panela de pressão! Peguei-o dentro da água e falei:

-Panela de pressão, pra cozinhar batata! ch ch ch ch ch... e fiquei rodando-o até dar uma volta:

-Panela de pressão, pra cozinhar aipim! ch ch ch ch ch...

-Panela de pressão, pra cozinhar amendoim! ch ch ch ch ch...

-Panela de pressão, pra cozinhar feijão! ch ch ch ch ch...

-Panela de pressão, pra cozinhar carne! ch ch ch ch ch...

-Panela de pressão, pra cozinhar... o que, Gabriel?

-Carne!

-ch ch ch ch ch...

-Panela de pressão, pra cozinhar... o que, Gabriel?

-Batata!

-ch ch ch ch ch...

-Panela de pressão, pra cozinhar... o que, Gabriel? Me ajuda!

-Frango! - às vezes, ele parava, pensando... então, eu ajudava:

-Feijão! ch ch ch ch ch...

Mariene se dedicava a uma faxina da casa; no final da tarde, estava com a coluna arrebentada. Gabriel pediu, então, a fita Cerimônia de Casamento, de Robert Altman - estava cheia de formigas! Sem percebermos, ele colocou no vídeo e sujou todo o cabeçote. Mais choro, mais gritos. Baixou a paz celestial, depois de tanto stress nos últimos tempos, e os dois conseguimos abrir a fita e limpá-la (A fita é rescaldo da nossa falida locadora...)

Pensa que acabou? Ele ainda quis a fita Abracadabra, com Sarah Jessica Parker, Kathy Najimi e Bete Midler - essa, não temos mais. Depois de quase uma hora de novo show, achamos que os vizinhos iam acabar reclamando e fomos buscá-la na Video Hobby. Chega, né?

postado por: Argemiro Garcia 29.9.03

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Pula, pula, sobre-e-desce

Parte 1.Manhã.

Sábado. Acordei cedo para me encontrar com o pessoal da AMA-Ba no Ação Global, que acontecia no Parque da Cidade. Eu tinha preparado uma apresentação do Power Point com alguma coisa sobre autismo e sobre a associaçào - e tinha que gravá-la no micro velho (Pentium 120).

Leo e Pedro iam para a Feira de Ciências do Colégio Nobel - Pedro, irritado com o irmão, se pôs a reclamar; Gabriel chegou a acordar.

O micro menos velho (Duron 700) está todo esquisito, com vírus a dar com pau... porque com anti-vírus não está dando resultado. Acabei saindo de casa tarde, lá pelas 8 horas.

Um oficial da PM não me deixou entrar na área do Parque e precisei dar a volta na avenida, para fazer o retorno. Depois de uns cinco minutos, quando já tinha mobilizado Adriana e Marília, pude entrar e estacionar mais perto. Instalada a rede elétrica, montado o micro, troquei umas palavras com Marília e saí para o Nobel, ver o trabalho de Pedro (Leo estava de monitor das turmas de robótica) - mal pude cumprimentar o Barbosa, que tinha acabado de chegar, tão agoniado eu estava.

Ainda passei no Hiperbompreço, para pegar dinheiro no caixa eletrônico e comprar pães e presunto para alimentar as feras. Já estava saindo do supermercado, eram umas 10 e tanto, Ana ligou: Pedro reclamava minha presença.

Cheguei ao Colégio, bati um papinho com os meninos e vi as apresentações; nisso, Mariene ligou - tínhamos combinado irmos junto à Feira. Vou, não vem, vou, não vem: fui para casa buscá-la e a Gabriel; chegamos atrasados, mas Pedro, Leo e os colegas estavam fazendo um piquenique com os pães e a coca-cola que eu tinha levado.

O professor de robótica elogiou muito o Leonardo: foi seu braço direito; o trabalho da equipe de Pedro estava bonito: um mural com um bonito mosaico representando um pôr-do-sol e mosaicos menores, com bandeiras do Brasil e da Bahia. O tema era Pitágoras e seu teorema, Tales de Mileto e Escher - geometria, em geral.

Depois do almoço, fomos os três, Mariene, Gabriel e eu, para o Ação Global.

Parte 2. Uma tarde à parte.

Chegamos. Ao lado do portão, duas camas elásticas. Mariene foi para a barraca da AMA-Ba e eu fui com Gabriel para a fila. Ele ficou nervoso, se pôs a chorar e gritar:

-Não é pra cama elástica! Eu quero! Eu não quero! Eu não quero! Algumas pessoas da fila me sugeriram pedir para passá-lo na frente. Os atendentes da Plim Plim até que foram solícitos. Ele pôde pular na cama dos pequenos sozinho - as outras crianças ficavam olhando, sem entender. Acabou o tempo e ele queria mais - como o rapaz não confiava que ele ficasse acompanhado - medo que batesse em alguém, acho -, tirei-o e tentei a fila dos grandes. De novo, a mocinha permitiu que ele ficasse uma rodada - e, de novo, ele quis mais. Tentei argumentar, mas com ele gritando era difícil. Não achei que as mães da fila estivessem contra mim; ao contrário, percebi em muitos rostos solidariedade, mas a atendente teve medo de nos deixar ficar mais tempo. Eu tentava explicar:

-Ele é autista, fica muito nervoso... A gente está com uma barraca aí... Até que estourei:

-Quer saber o que mais? Você não está entendendo, vou te explicar: ele não consegue entender! Venha Gabriel! Um, dois, três, anda! Agora!

Saí meio zonzo e com o coração a mil, com ele de cavalinho. Fui até a barraca da AMA-Ba. Mariene perguntou o que tinha havido, contei. Ela achou que eu não devia ter dito aquilo... e sugeriu que fôssemos ao Aeroclube Plaza Shopping, onde há uma cama elástica.

Dentro do carro, sabendo que íamos ao Aeroclube, Gabriel se acalmou e, lá, brincou na piscina de bolinhas, no carrossel, no pula-pula do Titanic, nos carrinhos. Quando foi para a cama elástica... Não ficou dois minutos. Primeiro, queria que eu entrasse junto, o que não era permitido. Depois, viu o Space Jump - um estilingão com borrachas de bungee jump. Ficou mais de meia hora, feliz, feliz.

Ainda fez menção de dar novo show quando voltamos ao Parque da Cidade, mas dessa vez conseguiu aceitar que não poderia ir para as camas elásticas.

postado por: Argemiro Garcia 29.9.03

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Sexta-feira, Setembro 26, 2003

Pai Herói?


Gabriel sabe pirraçar os outros: ontem, estávamos todos cansados (menos ele). Resolveu, então, impor sua vontade e colocar uma fita bem na hora da novela Kubanakan. Mariene e Pedro foram para o quarto e eu fiquei insistindo, para mostrar-lhe que a vontade das outras pessoas existe:

-Bota na novela, Gabriel!

-UÁÁÁÁÁÁRRRHHH! Bota fita!

-Novela!

-Fita!

Falei:

-Tá bom, fica com sua fita, mas fica sozinho. E fui para o outro quarto, buscar um livro. Na volta, lá estava ele, pinto pra fora, fazendo xixi na sala. Tomou duas chineladas e o obriguei a pegar um pano de chão e enxugar a obra.

Nem chiou, nem ficou amuado. Parece até que se divertiu com a coisa. E começou a dizer o nome de outra fita:

-MEU PAI HERÓI! MEU PAI HERÓI!

-Ah! Agora é pai herói, é? Pois não tem pai herói! E não vai fazer xixi no chão!

Tinha uma risadinha muito marota no canto de sua boca, com certeza - não chorou e nem fez birra; logo arrumou outra coisa para me pirraçar. Eu, me fazendo de bobo, peguei o livro e me pus a ler. Mais tarde, começou a pedir ovo, pois queria fazer um bolo - só precisei intervir para dar-lhe os ingredientes que pedia e garantir que a margarina entraria antes do açúcar e que o fermento não ia ficar de fora.

Ainda pediu brigadeiro, Nescau, pão... e foi dormir tarde.

Mariene e eu estamos com o projeto de avançar mais um pouco na dieta sem glúten e caseína. Assim que comprarmos uma marmita térmica, ele vai substituir o pão por cuscus.

postado por: Argemiro Garcia 26.9.03

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Quinta-feira, Setembro 25, 2003

Serenata


Ontem, chegando da escola, Gabriel foi dormir (segundas, quartas e sextas, ele fica até as 5 da tarde na Via Ponte).

Eu estava em uma reunião da AMA-Ba - a diretoria está reformando o estatuto para nos cadastrarmos como OSCIP.

Cheguei cansado - e fui correndo levar Pedro ao seu novo curso: nin-jutsu. Ai de mim se não levar; a chantagem pega feio: você só dá atenção para o Gabriel!

Mais tarde, bem mais tarde, quando fomos dormir, Gabriel foi fazer serenata: acendeu a luz na nossa cara e ficou cantando, cantando... eu, desmaiado, só sei que nada sabia. Mariene foi quem me contou, hoje.

Congresso em Portugal

http://www.appda.rcts.pt/congresso/

Muito legal o lema do 7º Congresso da Autisme - Europe: O sonho comanda a vida.

postado por: Argemiro Garcia 25.9.03

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Terça-feira, Setembro 23, 2003

AI AI AI AI AI


Estou prestando mais atenção nas conversas com Gabriel. Ainda ontem, fomos levar Silvia ao aeroporto - Gabriela, Pedro, Gabriel e eu.

Gabriel entrou e foi pedindo:

-Bob's!

Com memória excelente (memória de autista?), está bem por dentro do lugar. No balcão, quis:

-Sorvete branco! - e esperou quase cinco minutos para sermos atendidos. Ficou um pouco irritado, mas agüentou bem e foi se sentar em uma mesinha próxima da lanchonete. Quando a irmã lhe perguntou se queria se sentar em outra mesa, com ela e a tia, a resposta foi um gutural

-NÃÃÃÃÃOOOO!

Tomado o sorvete pela metade, deixou o resto com a tia e foi brincar perto do elevador, comportadinho.

Mais tarde, outra conversa dessas foi em casa. A cachorrinha Marquesa estava na minha cama e Gabriel queria se deitar nela. Veio até a sala:

-Vem! e, quando eu cheguei ao quarto: Bota no sofá!

Dá para percuma sutil evolução na comunicação, não?

Mas ele tem um outro tipo engraçado de falar. Repete frases prontas, à exaustão. Uma dessas frases, eu pensava que era dele mesmo:

-AI AI AI AI AI! Pum! Bateu a bicicleta...

Hoje, conversando com o colega Marcos Silveira, lembrei a que se refere a frase. Ano passado eu, trabalhando no Rio, fui correr no calçadão do Leblon. Quando vi que o sinal estava fechado para os carros, corri, sem olhar para trás e ouvi:

-AI AI AI AI AI! e... Pum! Bateu a bicicleta por trás de mim. Embolei com a ciclista, foi ela, eu, a bicicleta... E Gabriel se lembra e fica repetindo a frase, de vez em quando.

postado por: Argemiro Garcia 23.9.03

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Segunda-feira, Setembro 22, 2003

Conversando um pouquinho


Para a terça-feira, 16, a Espaço Via Ponte marcou um passeio de três dias para a Fazenda Villa Rial, produtora de laticínios. Dispensamos o transporte do Seu Wilson e fomos levar nosso filhote nós mesmos. Rá! Não teve jeito: chorou e gritou: NÃÃO!!!! tanto que o levamos para casa. Seu Wilson nos seguiu e tentamos, ainda, fazer com que Gabriel entrasse no seu carro lá em casa, mas não teve jeito. Também, justo na semana que a avó chega a gente tenta mandá-lo para passear?

No dia seguinte, fomos todos levar Gabriel ao consultório de musicoterapia de Rita: Mariene, Silvia e eu. As duas foram tomar café enquanto esperei chegar o carro. Ele não se interessou em ver a mãe e a tia: subimos logo para o terceiro andar mas, na saída, até aceitou esperar enquanto Rita mostrava o consultório para Silvia, que é psicóloga. Nesse meio tempo, ficou conversando com Nathalie, filha e recepcionista de Rita:

-Ítalo caiu do sofá e quebrou a boca! Cachorro mordeu as costas de Ítalo!

Não são apenas frases repetidas. De fato, uns tempos atrás, Ítalo foi mordido e, também, acabou se machucando - não caiu do sofá, mas machucou a boca. Mais um passo para conversar, não é?

No sábado pela manhã, Ana se atrasou muito e acabamos por não ir à reunião marcada para a AMA-BA. Estamos modificando o estatuto, porque chegamos à conclusão que ser uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) agiliza a implantação de qualquer projeto - recomendo, para quem quiser abrir uma entidade. De tarde, saímos para o ato de apoio à candidatura de Pelegrino à prefeitura de Salvador, no Colégio das Mercês. Pensamos que ia ser em um local aberto, mas foi no auditório. Gabriel não gostou muito: gente demais, zoada em excesso - o zum zum zum incomoda mesmo. Ele preferiu ficar na rua, numa padaria. Bem que fiquei um pouco irritado - queria entrar, né? - mas a gente precisa ter consciência que o elo mais fraco é que rompe a corrente; ficamos lá fora. Ainda passamos na casa de Gabriela e Gabrielo - e o Gabrielzinho botou a irmã para assar-lhe uma pizza.

Ontem, domingo, saímos para mais um passeio; dessa vez, Mariene ficou com a mãe em casa e fomos Silvia, os três meninos e eu, para a Ribeira tomar sorvete. Gabriel cismou de entrar na pizzaria - é a segunda vez que faz isso. Até que se manteve calmo, mas foi preciso pedir para o garçom colocar os pratos na mesa logo - assim, Gabriel sesntiu firmeza nas nossas intenções de pedir uma pizza.

Gabriela nos ligou e chegou em seguida com Gabrielo - poderíamos fazer umas fotos da tia com os quatro sobrinhos. Mas Gabriel não estava a fim de sorvete:

-Passear de carro!

Com muito custo e berreiro, entramos na sorveteria; Pedro se ofereceu para ficar com o irmão no carro. Tomamos os sorvetes na rua e fizemos as fotos em volta do carro - Gabriel aparece na janela. Deu certo, enfim...

Ainda fomos ao Parque do Pituaçu, mas está proibido nadar e perigoso para andar de bicicleta; tocamos para a Lagoa do Abaeté. Aí o clima desanuviou: brincamos na água, Gabriel, Pedro e Leonardo fizeram uma pirâmide, mergulharam, se socaram, fizeram as pazes.

Já de noite, tivemos churrasco na varanda do apartamento. O Fantástico já acabava quando Gabriel cismou de fazer um bolo. E tivemos umas trocas de palavras - infeilizmente, estava copm muito sono, não guardei a conversa, mas já posso sentir que foi mais do que repetição ou simplesmente pedidos. Eu falava e Gabriel respondia com frases do tipo Quero tal coisa.

Ah! Teve a correria de Silvia com Gabriel pela casa, ela lhe fazendo cócegas e ele gritando SOCORRO! PÁRA! CHEGA! PORRA! e coisas assim. Muito mais do que meses atrás, quando o que saía era só: Tchau!

postado por: Argemiro Garcia 22.9.03

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Segunda-feira, Setembro 15, 2003

Pressões...

Silvia, minha irmã, está em Salvador, de férias, desde o dia 5. Tudo em paz: ela brinca com os sobrinhos, fizemos uns passeios - uma quebra de rotina que não afetou a família - tirando as disputas por atenção que aconteceram no outro fim de semana.

Neste sábado, dia 13, fomos à Praia do Forte, para visitarmos a sede do Projeto TAMAR (Projeto TArtarugas MARinhas).

Já no caminho, Gabriel se pôs a gritar; antenada, Mariene logo lhe explicou:

-Não, Gabriel! Não vamos para a Via Ponte! - ele não gosta de ir para a escola em dia de descanso - quem gostaria?

Praia do Forte está muito bonitinha, bem mais organizada desde a última vez que a visitamos, uns três anos atrás. No estacionamento, um mico-estrela, desses que pulam em tudo que é árvore da Bahia, estava macaqueando. Silvia ficou fascinada (Olha, que bonitinho!). Gabriel, por sua vez, tratou de ir encher a barriga. Até chegarmos perto do TAMAR, foram bolos, sucos e sorvetes.

Chegando perto da praia, o pedido:

-A sunga!

Enquanto isso, Leonardo e Pedro achavam graça no menino que oferecia:

-O senhor pode ficar na Barraca Imbassahy, lá temos lagosta, cinco por R$ 30,00 e, se o senhor não gostar, não paga!

Ficamos brincando na água, nas piscininhas formadas com a maré baixa. Mariene e Silvia deitaram, tomando sol na areia.

Lá pelas tantas, com a maré subindo, Gabriel quis entrar num barco; deu uns gritos, porque as traineiras saíram navegando. Mariene conversou com um pessoal e ele pôde entrar numa canoa.

Leonardo se pôs a brincar com Gabriel, que pedia:

-Corre, corre, corre! AAAAAAHHH! - e corriam juntos até a água.

Comemos as tais lagostinhas - reclamei que eram tão pequenas que eu poderia ser preso por pedofilia. Gabriel ainda pediu caranguejo - também miúdo. Silvia foi com Pedro até o TAMAR, enquanto caímos no engano de esperar dar 17h30. O rapaz da barraca, querendo nos agradar, disse que o Projeto teria entrada gratuita depois desse horário; só não explicou que ia estar muito escuro, sem perceber que nós íamos querer ver - não apenas visitar - os bichos. De qualquer sorte, Gabriel gostou das tartarugas, das arraias e dos peixes. Voltamos cansados e felizes.

Já no dia seguinte, domingo, 14, fomos a Feira de Santana buscar a mãe de Mariene. Jairo, meu cunhado, não se sentiu confiante em mandar a mãe de ônibus e veio trazê-la até parte do caminho; fomos ao seu encontro.

Gabriel ficou felicíssimo: viajou e ainda trouxe a vovó pra casa! (Para quem não sabe, Feira é uma baita cidade de quase 500.000 habitantes, a segunda da Bahia. Tem algumas universidades particulares e uma pública - na UEFS, a Universidade Estadual de Feira de Santana, funcionam alguns dos melhores cursos do País: História, Odontologia, Farmácia.).

De noite, desci com Gabriel ao PG e ficamos conversando no portão do prédio:

-"Nós fomos à praia do For..."
-"te!"

-"Com a gente foi a Tia Silvi..."
-"nha!"

-"Nós comemos carangue..."
-"jo!"

-"E vimos tartaru..."
-"ga!"

-"Depois, nós fomos a Feira de San..."
-"tana!"

-"E levamos a tia..."
-"Celita!"
-"Não, foi a Tia Silvinha!"


Fiquei me perguntando se ele era capaz de associar nosso papo aos acontecimentos ou se estava apenas completando as palavras.

Às dez horas, subimos e fui dormir.

Foi aí que houve a crise: Arlete, do Núcleo Luz do Sol, em Fortaleza, me ligou e Mariene explicou que eu já dormia. Foi nessa hora que Gabriel pediu uma música no micro - que ela não achou. Foram duas horas de "show", com direito a cabeçadas e arranhões. Quando foi dormir, às duas e meia, acordei. Ela me contou. Com sono, ainda, perguntei:

-"Porque você não me acordou para ajudar?"

Acabamos discutindo.

postado por: Argemiro Garcia 15.9.03

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Quinta-feira, Setembro 11, 2003

Aventuras sotero-gastronômicas

(Este post é motivado, também, pelas perguntas sobre forçar ou não forçar a criança autista a comer.)

Puxa! Estou fora do ar um tempão. Ainda curtindo um baixo astral que às vezes pinta - agora, reforçado pelas notícias que venho garimpando por aí, na Crônica Autista.

Minha irmã, Silvia, chegou de São Paulo na sexta-feira dia 5. No sábado, fomos todos à Ribeira tomar sorvete e Gabriel quis pizza: entrou direto na Recanto da Itália. Bem que tentamos convencê-lo a acompanhar a família (Leo, Pedro, Silvia, Gabriela e Gabrielo.) Nada! Sua resposta foi:

-Nãããããoooo! - igualzinho à Molly, do filme Experimentando a Vida (Isso é outra coisa que me deixa mal; não gosto muito de ficar vendo filmes com personagens autistas e essas lições de moral. Fico pensando como será a vida de Gabriel, se não conseguirmos que ele seja independente. Mas, vamos espanar essas ídéias empoeiradas!).

Comeu dois pedaços de pizza, mastigou outro tanto; dividi o resto com ele, que ainda tomou uns golinhos de Sukita. Silvia veio trazer para Mariene um pastel, que Gabriel também beliscou.

Dali, fomos para a sorveteria. Gabriel entrou pedindo:

-Morango! - que também sobrou e foi para o papo de Leo.

(Um parêntesis: Leonardo e Pedro ficaram se pirraçando o tempo todo - mais Leonardo torrando Pedro que o contrário, instigado, ainda, pelo Gabrielo.)

Ainda passeamos pelo Pelourinho, com direito a mais sorvete na Cubana do Elevador Lacerda - todo contente, Gabriel quis descer de elevador e, se bobeássemos, ficaríamos lá por algumas horas.

Acabamos o passeio com broncas para cima dos irmãos e um acarajé na mão, que Gabriel só cheirou.

No domingo, chegamos atrasados para o Grito dos Excluídos, uma passeata que encerra o desfile do Sete de Setembro, promovida pelas Comunidades Eclesial de Base, MST e outros grupos de esquerda. Leo e Pedro tinham ficado em casa, meio de castigo, e nós quatro, Mariene, Silvia, Gabriel e eu voltamos para o Pelourinho - e tome-lhe pipoca, fanta etc etc. Esse dia, acabamos no Grande Sertão, um restaurante com bufê sertanejo. Gabriel comeu um pouco da lingüiça do feijão, arroz e purê de aipim - além de beliscar nos nossos pratos.

Na segunda, Leonardo me pediu que fizesse um bolo e saiu para o tae-kwon-dô. Quando passamos no Hiper, Silvia, Gabriel e eu, encontramos Mariene. Voltamos para casa carregados e levando um bolo da Plus Vita. Leo já tinha caído na cama, nem quis os bolos prontos. Já Gabriel, provavelmente, inspirado pelo irmão, ou querendo agradá-lo, foi para a cozinha, pegou uma tigela, quebrou um ovo dentro e se pôs a mexer, me pedindo: margarina! Fui servir de auxiliar - ele não me deixou mexer a massa de forma alguma. Então, segui as instruções:

-Ovo! - Lá foi um segundo ovo.

-Açúcar!

-Farinha!

-Suco de laranja... - aqui, ele canta um pouquinho.

-Nescau!

Escolhemos a forma - ele queria uma muito grande e não aceitou a forma redonda. Acabamos por nos acertar com uma forma retangular média. Untei-a, acendi o forno e consegui pôr fermento na massa.

Uns 50 minutos depois, o bolo estava pronto e, engraçado, ele nem experimentou. Por isso, acho que ele queria fazer o bolo para o irmão...

Ontem, quarta, tirei o dia para rodar pela cidade com Silvia e Gabriel, mas dessa vez não tivemos comilanças. Chovia muito e apenas rodamos pra cima e pra baixo. Na Lapinha, fui mostrar o lugar de onde sai o desfile do 2 de julho, a comemoração do vitória da Guerra de Independência. Gabriel pediu:

-Fazer xixi no banheiro! e, depois: -Passear de carro!

Voltamos para casa com tudo em paz.

postado por: Argemiro Garcia 11.9.03

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Quinta-feira, Setembro 04, 2003

O zoológico cresceu mais um pouco


Quando fomos à casa de Jorge e Ana, para a inspeção final antes que assinássemos o contrato de aluguel para a AMA-BA, Gabriel deu um show, como já contei. A amiga Valéria Llacer comentou comigo que talvez seja a puberdade chegando... Surpreendentemente, porém, naquele dia uma coisa diferente - e muito positiva - aconteceu: a cachorrinha da casa estava com uma ninhada e Gabriel adorou os filhotes. Mariene estendeu um olhar pidão para mim, porque sabe que não gosto de animais dentro de casa (imagina se eu gostasse). Concordei com ela que era uma visão enternecedora...

Uma semana depois, tivemos um princípio de discussão, porque reclamei. Mas acertamos algumas mudanças na casa e fomos, no sábado passado, buscar uma cachorrinha para Gabriel e um cachorrinho para Ítalo.

Procurando pelo blog dá para encontrar histórias do pavor que Gabriel sente com cachorros. Pois não é que, com essa filhotinha, Gabriel se deixou seduzir? Quando ela vem correndo, ele foge; ela é muito grudenta e chorona - tanto que lhe demos o nome de Marquesa Maria Mantega (a gata é a Duquesa Maria Bigodes de Trás os Montes). Leão, o gato, tem o nome do gato dOs Maias de Eça de Queirós. Mas Gabriel a pega nas mãos (não deixa ela encostar no seu colo) e a põe no sofá; anda para todo lado com a cachorrinha.

O nosso micro ainda está baleado. Não dá para descarregar as fotos, ainda. Mas breve trago algumas novas imagens.

Falando nisso, segunda-feira Gabriel queria o programa Talk Any!, que está desconfigurado - não apaga os arquivos temporários e é preciso fazer isso manualmente a cada vez. Ficou nervoso e não conseguia dizer o que era para eu escrever. Ameaçou-me:

-Fazer xixi na sala! - e, dito e feito, botou o pinto para fora e mijou. Ah! Levou uns bons tapas e ouviu uns bons gritos. Fiquei mal uns dois dias, mas precisava deixar-lhe claro que essa pirraça não ia acabar bem. Mesmo assim, já voltou a ameaçar do mesmo jeito. Mas, agora, tem um pouco de cuidado.

postado por: Argemiro Garcia 4.9.03

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