Canto de Anjo |
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Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado. Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...
No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel
Quinta-feira, Agosto 28, 2003 (Ainda) com medo de cachorroOntem, dia 27, quarta-feira, tínhamos combinado que sairíamos para ver Marte, na sua aproximação com a Terra. Mariene ligou para Zoraide, nossa amiga, que ficou de nos levar à casa de uns amigos.Gabriel, antes de Mariene chegar, cismou com um filme clássico - queria ver os créditos. E tome ameaça de gritos: ele sabe como nos deixar nervosos! Mas foi só descobrir onde estava a bendita da fita, que ele sossegou. Mais tarde, retomou a ladainha: dessa vez, queria Zoáide, Zoráide... que acabou chegando - e fomos todos: Leonardo, Pedro e seu amigo Gabriel, no carro da Zô; Mariene, Gabriel e eu, seguimos atrás. Na casa de Reinaldo, a cachorrinha se pôs a latir e Gabriel, valentemente, ficou em frente ao portão. Mas foi só o portão abrir e a cachorrinha Latifa - parece piada, Zoraide com Latifa... - correr para fora, que ele voou na minha direção: -Subir no ombro! - abri a porta do carro e ele se trancou. Saiu encarapitado em mim e asssim ficou até que a pobre da bichinha fosse presa. Vimos Marte, batemos papo. Gabriel explorou a casa. De volta ao lar, todos despencaram nas camas - Leo me contou de manhã que perdeu o sono. E Gabriel ainda quer um cachorrinho dos senhorios da AMA-Ba! postado por: Argemiro Garcia 28.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Segunda-feira, Agosto 25, 2003 O ovário tá doendo!O micro acordou em pane no sábado, sem acessar o mouse. Gabriel entrou em parafuso: -Gravar! Gravar! - a gente usa o micro como gravador, com um microfone na placa de som. Foi um trabalho de Hércules controlar a ansiedade que tomou conta dele. Mas pegamos o micro e Gabriel e fomos ao Pituba Parque Center, um shopping que tem muitas lojas de informática. Ninguém fazia back up e, assim, voltamos para casa sem resolver o problema. Mais tarde, Gabriela e Gabrielo vieram nos visitar. Conversa vai, conversa vem, ele foi para o quarto de Leo e Pedro para ler. Gabriel foi atrás: -Meu pé está doendo... Canta! -Meu pé está doendo. -Minha cabeça está doendo... Canta! -Minha cabeça está doendo. -Meu ovário está doendo... Canta! -Não, Gabriel! Você não tem ovário! De noite, Leonardo e Pedro saíram para o Aeroclube, um shopping exclusivamente de serviços de lazer. Quando voltei, Gabriel estava aos prantos: -Pra gente miúda! Pra gente muída! (Assim, mesmo; de vez em quando, trocando a ordem. É um CD de músicas para crianças, como Bicicleta.) Foram duas horas e meia revirando a casa, procurando o CD - os boêmios, então, me chamaram: deixei Mariene com seu irmão Zé e sua esposa Valdete, que estão uns dias conosco, e Gabriel. Dava pra ouvir os gritos do menino lá da garagem do prédio, nove andares abaixo. Dirigi picado, já me preparando psicologicamente para a volta. Não é que chegamos em casa com Gabriel sorrindo e pulando ao som de Be- i-ce-i-ce-ele-é-tê-á, sou sua amiga bicicle-tá!? Mariene ficou prometendo uns puxões de orelha para Ana, que enfiou o CD entre os livros da estante - foi preciso pegar volume por volume para achá-lo. Conseguimos assistir ao filme Experimentando a vida, com Elisabeth Shue, à uma da madrugada. É um filme sobre um publicitário que preicsa levar a irmã autista de 28 anos para casa, porque o governo cortou a verba da instituição em que ela estava internada. Cenas hilariantes e singelas mostram os apuros dele para administrar a moça. Até que lhe oferecem a oportunidade de ela entrar de cobaia numa experiência de implantação de neurônios modificados geneticamente. Singelo, a gente recomenda - pegamos o filme na locadora por indicação da amiga Águeda, mãe da Luísa, do Rio de Janeiro. No domingo, depois de outra ameaça de piti por conta de querer gravar, Gabriel aprendeu com Leonardo que homem não tem ovário, tem testículo e Pedro emendou: Bola! Bago! Ovo! Logo, foi correndo contar pra mãe: -Meu testículo tá doeinndo! Depois do almoço, saímos - primeiro, levamos Valdete e Zé para visitar uma tia e depois fomos de novo à Bienal do Livro - desta vez, para eu poder visitar os estandes. No caminho, depois de pegarmos Leo e Pedro em casa, tivemos de comprar carvão e coração - Gabriel ia ameaçando gritar de novo: já aprendeu que, com o berreiro, nos manipula. No Centro de Convenções, Gabriel ficou pulando no Espaço do Jovem Leitor - Mariene gastou toda a memória da máquina fotografando-o - e fui passear um pouco. Leo e Pedro, depois de suas brigas fraternais, se acomodaram com a irmã e o cunhado. Ainda ficamos um bom tempinho com Gabriel brincando de bater a cabeça no chão, no estande da Fala Menino! Produções. Em casa, pensávamos que ele ia se esquecer do tal churrasquinho, mas ainda tivemos que acender o carvão na varanda do apartamento (os vizinhos que nos perdoem). Só depois da meia-noite pudemos dormir. postado por: Argemiro Garcia 25.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Sexta-feira, Agosto 22, 2003 Comer com as mãosMariene me chamou para irmos ao lançamento da Conferência de Concertação Nacional, um esforço do Governo Federal para integrar trabalhos dos vários órgãos, visando superar a discriminação de gênero e de raça. Conosco estavam o deputado Zé das Virgens, com quem Mariene trabalha, e a vereadora Adriana, de Mutuípe (a mais jovem vereadora petista da Bahia). Claro que fomos com o projeto e os jornaizinhos da AMA-Ba embaixo do braço - não se pode perder essas oportunidades. Aproveitamos para conversar um pouco com uma representante do Ministério da Saúde, com a vereadora de Salvador Luísa Câmera (da ABADEF - Associação Baiana de Deficentes Físicos) e com o Sr. Carlos Massini, da Nestlé. A associação tem um bom trabalho, fazendo parcerias com empresas como a Petrobras e os Correios para dar emprego a pessoas com algum tipo de deficiência. Yuri, que teve problemas de anoxia no parto e cuja mãe criou o programa de equoterapia em Salvador, hoje trabalha como terceirizado para a Petrobras através da ABADEF. O evento acabou às dez horas da noite e voltamos para casa para levar Ana (mulher, entre 16 e 24 anos, negra e chefe de família - certinho dentro do público alvo da Concertação) até Castelo Branco, onde mora. Gabriel foi junto - e ficou nervoso só na volta, talvez por que estávamos conversando muito e ele por fora do assunto. Felizmente, no caminho há uma baita descida e o friozinho na barriga animou-o. Antes, então, de voltarmos para casa, passamos no restaurante Grande Sertão, que fica no Parque Costa Azul, para encontrarmos Adriana - que foi dormir lá em casa. Gabriel entrou todo importante - eu diria até imponente. Deu uma volta pelas mesas e entramos no setor onde os cantores se apresentavam com isolamento acústico, porque a vizinhança não agüenta mais - nem Gabriel, que ficou o tempo todo tampando os ouvidos (Embora ele já controle bem sua audição, ela continua super-aguçada.). Mas ele quis mesmo espiar as panelas sobre o fogão a lenha: montamos um prato para ele, que se sentou e se pôs a comer com um garfo e com a mão. Wilson Aragão (o parceiro de Raul Seixas em Capim Guiné), que se apresenta sempre por lá, veio falar conosco; como Gabriel estava mais interessado na comida, nem reclamou quando Wilson lhe passou a mão na cabeça, coisa que geralmente não gosta. Foi aí que me deu um clique e comentei com Mariene que era muito melhor para Gabriel morar no Nordeste - por aqui, repara-se bem pouco se a pessoa estiver comendo com as mãos, ao menos nos restaurantes de praia ou nesses regionalistas tipo sertanejo, e lembrei como, há sete anos atrás, a escola reclamava dele ainda não usar talheres. Na época, respondemos que boa parte da humanidade come com a mão e nem por isso é menos feliz... Dona MargaridaHoje seria o aniversário de minha mãe, Margarida Erhard de Paula Garcia. Ainda que nunca tenha estudado grandes pedagogias, ela, como professora que cursou o normal, tinha sensibilidade para trabalhar com alunos difíceis - quem tinha dificuldade de aprendizado em geral caía em suas mãos. postado por: Argemiro Garcia 22.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quarta-feira, Agosto 20, 2003 E o mouse foi-se!Gabriel, ante-ontem, deu mais um show: queria o copiáite (copy right) do CD-Rom dos 101 Dálmatas. Pedro descobriu como entrar nos créditos do joguinho, mas mesmo assim Gabriel ficou insistindo. Ficamos sem saber o que, exatamente, ele queria. Depois de ouvirmos muitos gritos, Mariene conseguiu que ele se interessasse por um CD de músicas infantis religiosas que ela comprou na Bienal do Livro. Ontem, terça-feira, Gabriel já estava indo direto nos CDs e não ficou irritado. Mas fomos dormir, na esperança que ele deitasse também, às onze horas; deixamos as portas do apartamento trancadas, por via das dúvidas. Sei lá a que horas ele procurou a cama! Pela manhã de hoje, no entanto, fui ligar o micro e... nada do mouse ser reconhecido. Um dos arquivos dll ficou danificado. É que a cada joguinho novo, Gabriel desligava o micro no dedão. Chega um hora, o Windows ia dar pau, não é? Agora, toca reinstalar o arquivo - sei lá quanto tempo isso vai demorar. FugasJá que comentei que fomos dormir e trancamos as portas, e aproveitando a resposta que dei para os pais de Victor, um pequeno fujão, lembro algumas das aventuras passadas: Gabriel, desde pequeno, "fugia" de casa.A mais memorável fuga foi quando, bem pequeno, Mariene lhe deu uma bronca. Ele era completamente não-verbal, só usava a voz para cantar; tinha, acho, uns 4 anos. Depois da bronca, ele pegou um pano de prato, uma banana, pôs tudo embaixo do braço e saiu para o corredor! Fugiu MESMO de casa. Daí, Mariene alcançou-o em frente à escada e pediu para ele voltar, disse que gostávamos muito dele... Outra vez, Mariene estava com a mãe em casa e Gabriel saiu para o play ground. Era pequeno e voltava subindo as escadas (oito andares; ele não alcançava o botão do elevador). Chegou no sétimo andar, tocou a campainha do apartamento abaixo do nosso e pediu: -"Água!" e foi entrando. Quando viu a mesa posta, sentou-se e pediu: -"Comida!" A vizinha interfonou pra Mariene e perguntou se podia lhe dar comida. A mãe de Mariene ficou lhe torrando a paciência, dizendo que ela não dava comida pro filho; mas foi assim que fizemos amizade com Ivoneide, Levi e seus filhos. Isso já faz uns cinco anos. Não vejo tanto problema, porque Gabriel é muito conhecido e todo mundo do prédio, os moradores e empregados mais velhos, sabem que "tem problema". Mas sempre tivemos trabalho. Já aconteceu da família inteira se pôr a procurá-lo pelos 4 blocos de 14 andares - já pensou? - com um nó no peito. Ontem ele queria ficar jogando no micro e tive que trancar as portas e esconder as chaves, por via das dúvidas, porque já eram 11 da noite. Mas em geral a gente não esquenta muito. É uma graça ele chegando sozinho da escola. O transporte o deixa na garagem e ele sobe com a mochila nas costas, entra pela cozinha ou toca a campainha, todo importante. Pior, mesmo, foram as vezes na rua. A primeira vez, foi no Pelourinho, no Carnaval. Estávamos no sindicato dos jornalistas, assistindo da sacada a passagem dos foliões, e ele foi para a festa, numa das pracinhas - não lembro o nome dela, mas não era o Largo Quincas Berro D'água, acho que era a Praça Teresa Batista. Outra vez, em Itapuã, perto do Casquinha de Siri, estávamos com a irmã de Mariene, Rosilda. Ele sumiu na praia! Tanto que Mariene só comprava sungas de cores bem berrantes, para facilitar achá-lo. Rodamos uns quinze minutos até dar com ele pulando ao lado de uma moenda de garapa (adorava ver a roda girando.) Um reveillon na Barra, uns quatro anos atrás, estávamos na casa de Zoraide, amiga nossa que mora num apartamento pequeno no primeiro andar de um prédio mais antigo, sem elevador. Ele sumiu. Saiu do prédio, atravessou a avenida e foi fazer cocô na praia. Depois, ficou tomando banho de mar, pelado. No Natal de 2000, estava comigo na Loja Americanas do Shopping Iguatemi. Foi lá pra frente, com um espremedorzinho de laranja nas mãos. De repente, um menino de rua falou comigo: tirei os olhos de Gabriel por menos de dez segundos. Foi o tempo dele sumir. Fiquei doido, liguei pra casa; meu celular era modelo antigo, pouca bateria, e tinha descarregado. Foi um rapaz do prédio que voltou para me avisar - eu estava do lado de um segurança do Iguatemi. Gabriel tinha andado até em casa (dá uns 600 metros do shopping) e tocou a campainha - a irmã abriu e ele foi fazer suco na pia. Eu, já tinha virado suco fazia tempo. Hoje, Gabriel fica solto no Hiperbompreço, como publico sempre. Sai para o play ground sozinho; as portas ficam destrancadas. Agora, sempre que ele desce alguém tem que descer junto. É que ele é metido a Indiana Jones e sai andando pelos muros da garagem. A gente tem medo de que alguém o agrida. Além disso, como gosta de ficar no portão falando com os motoristas, sempre há quem reclame, nos taxando de irresponsáveis. Se não tem ninguém com ele, interfonam avisando. Mas, por mim, deixava-o mais solto, para poder viver. Como dizia Paulo Jackson, a vida é feita de riscos e temos que arriscar. A nossa solução tem sido levá-lo sempre ao PG (play ground) e deixar todo mundo saber que é autista, o que é autismo... É impossível evitar que algumas fugas aconteçam; então, é melhor administrá-las. Não é melhor ensiná-lo, para que saiba voltar? Claro que deixá-lo zanzar sem rumo não é bom, mas ele saber o rumo é melhor que deixá-lo sem aprender. postado por: Argemiro Garcia 20.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Segunda-feira, Agosto 18, 2003 Meu dente tá doeeeeenndo!Ontem, domingo, voltamos à Bienal: Mariene, Leonardo, Gabriel e eu. Leo é RPGista e adora comprar livros novos do assunto, para ajudá-lo. Ele é um mestre bem requisitado entre os meninos da sua turma.Enquanto a mãe e o irmão procuravam os livros, fui com Gabriel à praça de alimentação. O que pediu? Sorvete Kibon! Mas a mocinha do caixa demorou a me atender e ele se mandou, procurando um lugar para sentar. Nervoso, literalmente arranquei o troco das mãos dela, deixando R$ 0,50 e dizendo: -Meu filho é autista! Você fica demorando e eu estou perdendo ele! Felizmente, o rapaz que serviu o sorvete e já nos conhecia do dia anterior, ficou acenando para mim e apontando onde Gabriel tinha ido - ele se sentara à mesa de um casal com seu bebê. A moça do caixa, meio sem graça, veio me trazer o resto do troco e aproveitei para lhe explicar que autismo é uma dificuldade para entender o que os outros querem dizer. Ela pediu desculpas e se foi. Nisso, comecei a conversar com o pai cuja mesa invadíramos: -Meu filho é autista. -Ahhhh... Sei. - Você sabe o que é autismo? -Sei... Como é conviver com ele? Eles são muito inteligentes, não é? -Não... Na verdade, 70% deles têm QI abaixo de 75. Eu vejo o autismo como uma grande dificuldade de comunicação. Daí, sem se comunicar, ele não pode aprender, não é? Logo, Gabriel acabou o sorvete, levantou-se e foi até o carrinho de churros e parou, dando seus pulinhos. Mostrei: -Está vendo? Ele vai ficar lá, achando que eu sei o que ele quer. - depois de uns minutos, Gabriel voltou e ficou ao meu lado, sem dizer nada. Perguntei algumas vezes o que ele queria. Como não disse, pedi licença e o acompanhei até o carrinho. Compramos o churro e foi aí que entramos na Arena Universitária, um espaço aberto com um palco para eventos maiores. Leo e Mariene nos acharam. Ainda encontramos Germínio, diretor do Sindicato do Químicos e Petroleiros, Cecília, sua esposa, e seus dois filhos, Carol, que tem Down, e Pablo, um bebê que está começando a andar, muito sapeca. Pablo ficou com a garrafa de água de Gabriel que, então, começou a pedir água toda hora. Já eram umas nove e meia quando começou a abordar as pessoas, para que pusessem a mão no peito e dissessem: Fogo! - é a propaganda do Bisuisan. Na saída, passamos pelo estande do Fala Menino/COELBA (Energia Amiga). Luís vem tentando entabular um papo com Gabriel, mas ainda não encontrou o ponto: vem insistindo em fazer perguntas - a abordagem com ele dificilmente dá certo se é direta. Engraçado foi quando Gabriel se pôs a bater a cabeça no chão, num tatame de borracha grossa, desses modulados de EVA, e dizia: -aAaAaAaaaa! Minha cabeça tá doeinnndooo... Canta! - e eu tinha de repetir. Expliquei ao Luís que vejo isso como uma espécie de psicodrama que Gabriel faz. Em casa, Gabriel pediu para passar Listerine no dente. Fui dormir. Mariene, lá pelas "n" horas da noite veio com ele e me explicou: -O dente dele está mole. Está todo solto para trás. Com sono, tateei no escuro até a boca de Gabriel. Apoiei o dedo em cima do dente, um incisivo inferior. Ele fechou a boca, forçando o dente para fora: doeu, mas o incômodo era maior. Mais umas duas ou três tentativas e o dente caiu. Só então ele pôde dormir, com um algodão embebido em Listerine em cima do buraco. postado por: Argemiro Garcia 18.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Domingo, Agosto 17, 2003 Sábado quadrado, mesa-redondaO sábado começou agitado. Acordamos cedo e, às 8 e meia, íamos, Mariene, Gabriel e eu, para a inspeção da sede da AMA-BA. Pena que esquecemos a máquina fotográfica. Pegamos Adriana (que foi professora de Gabriel em 2000 e, agora, está trabalhando conosco) no caminho e fomos a Patamares. Logo na chegada, nem bem tínhamos cumprimentado Marcus, Rita, seu Jorge e Ana, sua esposa, Gabriel começou a ladainha: -Petrobras! Petrobras! Seu Jorge quis saber se ele gostava de ir comigo para o meu trabalho. Respondi que não sabia se ele estaria se referindo ao meu trabalho ou ao posto de gasolina da esquina. Gabriel aproveitou para explicar: -Posto! Petrobras! Kibon! Tentei pedir a Gabriel que esperasse, mas Mariene foi mais prudente, me dizendo para levá-lo logo ao posto para comprar o sorvete. Doce ilusão! Não tinha sorvete Kibon em dois postos. No segundo, Gabriel pediu, então, um chocolate Kinder Ovo e uma lata de sorvete Nestlé. Ainda tentei convencê-lo a esperar até que fôssemos a um supermercado (mais barato) - e voltamos para a casa. Não teve jeito. Fui ficando nervoso com a pressão que ele fazia e Mariene se ofereceu para ir com ele comprar o sorvete, mas fui eu mesmo. Chegamos a um terceiro posto, onde compramos a lata e, voltando à casa, tudo voltou à paz. À tarde, eu pretendia cortar meu cabelo. Ia saindo com Gabriel e ele armou mais uma encrenca: -LIT VEGAS! Mariene optou, lógico, por nos acompanhar - sozinho no carro eu não teria como controlar a situação - e começamos uma peregrinação pelas locadoras, tentando achar a fita Little Vegas. Nada! Na quarta locadora, a Video Hobby da avenida ACM, A atendente foi muito atenciosa, identificou a fita - Little Vegas, da América Vídeo, 10990, diretor Perry Lang - e conversamos bastante. Ela nos indicou uns filmes que têm: Meu filho, meu mundo, Experimentado a vida, Rain Man. Eles têm um bom acervo sobre o tema. Depois de meia hora, Gabriel separou 4 fitas. Mas decidimos trazer para casa somente um filme do Máskara. No caminho, Gabriel continuava: -LIT VEGAS! Fiquei nervoso, o clima foi ficando pesado. Em casa, outra vez: -Disney Clássicos! Cinderela! Agora, Gabriel reclamava de termos alugado apenas uma fita. Nessa hora, eu já queria desistir de sair de casa, mas acabei saindo sozinho para cortar o cabelo. Depois, fiquei sabendo que Gabriel ainda protstou mais um tempo, sempre por causa das fitas - agora, Disney Clássicos - mas Mariene e Ana o acalmaram, com perfume no sovaco e beijos. A mesa-redonda
Chegamos às 6 e 15 na Bienal do livro, com a caixa dos livros de Juliana, levando Gabriel e Ana. No estande da COELBA/Fala Menino - Energia Amiga -, Juliana, Marília, sua irmã e cunhado, Rita e Adriana nos esperavam. Luís Augusto distribuía autógrafos para os fãs de seus quadrinhos e Juliana já queria, também, autografar. Mas o lançamento ainda seria depois da mesa-redonda. Na mesa, estivemos presentes Luís, Lívia, da Ser Down, Eva, da Livraria Grandes Autores e o teatrólogo Cláudio, que desenvolveu um trabalho com a Ser Down. Saulo não vinha suportando permanecer na sala e só começamos depois que ele se acalmou - sempre é a família quem mais conhece o filho: era um banner enorme, um grande retângulo vermelho a causa, identificou Ângelo, seu pai. Fiquei emocionado demais, e fiz uma apresentação confusa para o que eu tinha planejado; é que tínhamos, ali, Gabriel, Juliana, Saulo e Henrique - quatro pessoas autistas reunidas, cada um com suas ansiedades, sonhos, incertezas e medos. Quando Luís pediu para que eu falasse sobre a experiência pessoal de ter um filho diferente, me deu um nó na garganta.
A quebra da rotina nos foi imposta pelos autistas e artistas. Juliana começou, fazendo ínhu-ínhu na mão de Mariene. Depois, Gabriel começou a andar pela sala, mandando as pessoas repetirem o que dizia. Henrique pegava seu celular para falar com o pai. Quando se cansou, Saulo pediu, usando sua agenda PECS, para ir embora.
Encerrado o debate, Juliana e Luís deram autógrafos. Confesso que gosto muito de A menina (que era autista) e que fazia ínhu-inhu. É um bonito depoimento, em uma linguagem de livro infantil, que ganha de muito livrinho adotado por escolas. Quem quiser encomendar exemplares, Juliana os vende por R$ 10,00 mais o frete. É só clicar. Os recursos da venda são para a autora (claro!). Mande seu nome que Juliana autografa. postado por: Argemiro Garcia 17.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Sexta-feira, Agosto 15, 2003 Lit Vegas!Agora que Gabriel descobriu que existem locadoras de vídeo, vem cismando com certos filmes. Tínhamos em nossa velha locadora um, chamado Little Vegas. Nem sabemos mais o que aconteceu com a fita. Apenas sumiu. Deve ter quebrado. Talvez, mesmo, Gabriel esteja interessado apenas em algum trailer, sei lá. O fato é que há dias ele vem pedindo: -LIT VEGAS! Ontem não foi diferente. Na volta do Hiper, fomos buscar Leonardo (e Luís, seu amigo) na academia de tae-kwon-do. Depois de levar o colega para casa, começou a cantilena: -LIT VEGAS! LIT VEGAS! Gabriel tentou me puxar o cabelo e tive de pedir a Leo que o controlasse, para impedir um acidente. Com raiva, o pequeno beliscou, ou arranhou, o rosto do irmão, lhe esfregando a mão sobre os olhos. Para piorar a situação, ele vinha batucando dois limões - o que fez Leonardo ficar com os olhos ardendo e muito bravo. Nessa hora, já estávamos parados na garagem e Leo devolveu um soco em Gabriel. Com essas cenas de pugilato explícito, dei uma bronca no Mike Tyson de plantão e mandei-o subir. Eu mesmo acompanhei Gabriel no outro elevador e voltei para pegar as compras no carro. Lá de baixo, escutava os gritos: são oito andares mais um para o subsolo: -LIT VEGAS! LOCADORA! Leonardo ficou baixo astral, chorou... O pequeno, descontrolado, partiu para cima de Pedro, arranhando bastante seus braços. Foi preciso segurar Gabriel para que não batesse em mais ninguém - e dar-lhe muita bronca: -Não vamos para a locadora. Lit Vegas acabou. Lit Vegas morreu! Não vamos alugar essa fita. Chega! Acalme-se! Vai lavar o rosto! Depois de cerca de meia hora, ele foi se acalmando, acalmando. Começou a brincar com Mariene. Já eram umas onze horas quando fui dormir e Gabriel já estava cantando com Mariene - e gravando no micro. postado por: Argemiro Garcia 15.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Domingo, Agosto 10, 2003 O cinéfiloOntem, sábado dia 9, fizemos uma reunião da AMA-BA no salão de festas daqui do prédio. Gabriel, que tinha dado mais um piti no dia anterior, chegou todo beijoqueiro para o meu lado... À tarde, quando quase todos tinham ido embora, Adriana, que tinha sido a professora de Gabriel em 2000, subiu para nossa casa para adiantarmos a digitação do projeto da associação. Gabriel, mais uma vez, começou a pedir: -Imagem Filmes! Resolvemos dar uma canja para ele, alugando HisteRia. Saímos com Adriana - íamos deixá-la em casa. Acabamos por alugar a fita no nome dela, na locadora Hobby Video da Avenida Manuel Dias. Foi um achado para o menino, que não entrava em uma locadora desde que fechamos a nossa em 1998. De noite, Mariene e Pedro se sentaram para assistir ao filme Os Novos Monstros, de Mauro Monicelli - esse é do nosso acervo particular. Pedro deitou a cabeça no colo da mãe. Gabriel, que brincava no micro, começou a pedir: -Pedro! Amigão, senta aqui! Me ajuda, amigão! Peu! Peuzinho! Vem aqui! Me dá os dados, amigão! Quando Pedro se levantava, Gabriel empurrava-o para o quarto: -Vai dormir, Pedro! - ou seja, ciumento, tentava afastar o irmão... Hoje à tarde, com Gabriela e Gabrielo nos visitando, abraços dos filhos pelo Dia dos Pais, Gabrielzinho se pôs a pedir: -O Boi! Video Arte do Brasil! Locadora! Hobby Video! Aprendeu de primeira o caminho da mina. Fomos,desta vez, para a GPW - muito maior - onde abri uma ficha. Os olhos de Gabriel brilharam. A irmã e o cunhado se divertiram com a pose do baixinho. Enquanto eu fazia a ficha, lá veio ele com a fita na mão - e sentou-se pacientemente esperando. Enquanto a irmã escolhia suas fitas, entõ, ele veio até mim: -So...ente! Entendi sorvete - e mandei que fosse buscar. Ele foi até a prateleira onde fica o filme Sol Nascente e parou. De fato, descobriu a mina. Mas a coisa não pára por aí. Em casa, botou a fita dO Boi - que é, mesmo, da Video Arte do Brasil - e só então descobrimos o porquê de seu interesse na fita: o trailer de Johnny Stecchino! No entanto, a grande lembrança, para mim, é a fascinação de Gabriel pelas locadoras. Para quem quase nasceu dentro da Video Mania de Macaé e cresceu dentro da Fascínio Vídeo em Salvador, com a nossa sala tomada de fitas, realmente é o paraíso perdido! postado por: Argemiro Garcia 10.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Sexta-feira, Agosto 08, 2003 Apenas um desabafoO humor de um autista oscila muito mais que o humor dos neurotípicos (que é como Jim Sinclair chama os normais). Não é fácil. Uma explicação prévia: tivemos uma locadora de vídeo, que faliu. Sobraram dúzias e dúzias de fitas - Gabriel as pega de monte e fica trocando no vídeo, apenas para passar os créditos dos filmes ou, então, ver a logomarca da distribuidora - essa é a referência de boa parte dos filmes que assiste. 3.8.8.jpeg
Imagem Filmes é a distribuidora do filme HisteRia, um besteirol que parodia os filmes de terror do tipo Pânico. Mas não temos nenhuma fita dessa marca, porque a nossa loja fechou antes dela entrar no mercado. Pedro alugou essa comédia semanas atrás e, ontem, Gabriel cismou que queria vê-la. Foram gritos, arranhões, ameaças: -Fazer xixi no vídeo! SOBE NO VÍDEO! PULA NO VÍDEO! QUERO IMAGEM FILMES! - de onde ele tirou que fazer xixi em cima das coisas é uma boa ameaça, não sei. Mas chegou a botar o pinto pra fora - e tomou uma bela bronca. Mesmo assim, seu quarto apareceu mijado. Não dá para ceder sempre. Mas cansa. Desgasta. Muito. postado por: Argemiro Garcia 8.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Quinta-feira, Agosto 07, 2003 Meias puídas e CDs riscadosGabriel é apaixonado por um par de meias com o desenho de um garoto jogando bola. São as meias de bola, que já nos deixaram estressados tentando entender a quais meias se referia. No São João, ele as usou sem sapatos e elas ficaram tão encardidas e puídas que não sabemos o que fazer. Ontem, por engano, eu as calcei nos seus pés para ir para a escola. De noite, Leonardo me disse que as meias do Gabriel estavam todas brocadas e que ele falou para o irmãozinho: -Gabriel, sua meia está toda rasgada! E teve como resposta: -Eu reparei! - cantarolada com uma música do desenho A Bela e a Fera, da Disney. Ana voltou das férias e Gabriel ficou felicíssimo. Suas preocupações com a saúde da amiga/babá se foram. A choradeira da semana passada deve ter mesmo sido o medo de Ana não voltar. Mas, mesmo assim, ele continuou muito agressivo. O CD-rom do Chico Bento está riscado, mesmo. Com muito polimento à base de pasta de dentes, já é possível fazê-lo rodar - mas o mouse trava, de vez em quando, o que deixa Gabriel muito nervoso: grita, tenta bater a cabeça na parede, na cadeira, arranha os braços dos outros. Como, de qualquer forma, o joguinho está funcionando, ele nem quis ir ao Hiper ontem à noite - e fui com Pedro, aproveitando o dia das frutas e verduras. Mas, a cada travada do micro, ele deu um show para cima de Mariene. Só que Leonardo, quando voltou do tae-kwon-do, tentou impor sua autoridade de irmão mais velho, o que não deu em nada - só serviu para deixar o caçula mais irritado e a mãe mais chateada. Encontramos Mariene com os olhos marejados, um nó na garganta. Engraçado é que, depois que essas tempestades passam, parece que Gabriel fica meio envergonhado: sem muitos protestos ele obedece nossas determinações. Foi assim que ele foi se deitar logo que mandei, e sem grandes reclamações. postado por: Argemiro Garcia 7.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Terça-feira, Agosto 05, 2003 CalmariaNo sábado, Iraíldes, a Irá, nos contou que passou a tarde de quinta-feira brincando com Gabriel - bem que tínhamos reparado que a casa estava com o chão encardido... Ficaram brincando de picula (pega-pega). Depois disso, Gabriel veio se mostrando mais auto-confiante, mais tranqüilo. Imagino que, a partir do momento em que Irá lhe deu mais atenção, ele ficou mais feliz. Deve ser esta a explicação, mas não sou capaz de relacionar isso com a choradeira daquela mesma noite. Ontem, Gabriel insistiu por quase duas horas para sairmos: -Passear de carro! Camarão! Hiper! - todos os argumentos que imaginou para irmos para a rua. Para piorar, quando Luís, amigo de Pedro e Leo, apareceu em casa, voltando do tae-kwon-dô. Pensei que teria de levá-lo, e disse isso a Gabriel. Quando o menino ligou para o pai vir buscá-lo em nossa casa, pensei que teríamos um belo piti do nosso pequeno. Que nada! Suportou bem a frustração. Fui dormir, deixando-o com Mariene. Mesmo com toda a negativa, ele se manteve um perfeito cavalheiro. Será que a choradeira foi por pensar que Ana não vai mais voltar? Desde quinta ele não tem falado mais dela! postado por: Argemiro Garcia 5.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
Domingo, Agosto 03, 2003 Confeiteiro
Hoje, domingo, Gabriel nos botou para cumprir muitas tarefas. Mariene, com dor nos braços de tanto digitar - assessor de comunicação trabalha... - ficou deitada até mais tarde um pouquinho e as tarefas da molecada ficaram por minha conta: assar carne, ir ao supermercado (com Leonardo), fazer suco, fazer bolo, fazer mais suco. Gabriel não gostou da idéia de um churrasquinho sem coração de frango e pediu: -Coração! Mas logo pegou a batedeira e foi ordenando os ingredientes para um bolo: -Ovo! Açúcar! -Não, Gabriel, a gente põe primeiro a margarina e o açúcar. O resultado ficou muito bom; também, com um mestre-cuca que leva tão a sério a tarefa!
Nas gôndolas de aves, ele ficou olhando, olhando e batendo duas batatas (Bater dois objetos, hoje, é a sua estereotipia, depois de muito trabalho da mãe). Mariene perguntava: -Você quer AVIPAL ou SADIA? Sem que ele decidisse, ficou por nossa conta escolher a marca. Pensa que acabou? Chegamos em casa, Gabriel já pedia: -Carvão! e lá fomos nós de volta ao Hiper! Se ao menos ele tivesse pedido antes! Finalmente em casa, armamos o circo: carvão no fogo, coraçõezinhos nos espetinhos, fumaça na varanda do apartamento (Ainda bem que os vizinhos são compreensivos).
-Ovo! - e pegou uma bacia. Quebrou um ovo mais fora do que dentro e pediu outro; com uma colher-de-pau se pôs a mexer. Em seguida, pediu: -Açúcar! Eu tinha pensado que ia sair uma panqueca mas agora estava claro: outro bolo! Demos o pote de açúcar, que foi todo para a bacia. -Margarina! Leite! - Quase um litro de leite... -Nescau! A custo salvamos parte da lata. A massa foi pra assadeira, Gabriel abriu o forno e pediu, ainda: -Acende! Enquanto Mariene enrolava para buscar o fósforo, peguei a máquina fotográfica. Na verdade, acabamos por não acender o fogo; ele esqueceu e logo foi dormir. Agora, precisamos convencê-lo a medir os ingredientes.
postado por: Argemiro Garcia 3.8.03 Deixe aqui seu recado.Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br
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