Canto de Anjo



Eclipse da Lua, 2003.

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Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
Clique para entrar na
Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Quinta-feira, Julho 31, 2003

Chorando

São dez e meia da noite. Gabriel se trancou no quarto para ouvir o CD Pra Gente Miúda II.

De repente, uma choradeira...

Corremos para o quarto, mas ele tocou todo mundo para fora:

-Tchau, tchau, tchau!

Agora, ele saiu do quarto:
A moça está chorando!


-Quero água quente! e se enfiou debaixo do chuveiro.


Tínhamos ido ao Hiper, onde Gabriel aboletou-se num carrinho vermelho. Entramos. Como a rede Bompreço esta fazendo a Quinzena do Livro, há uma estante bem na entrada. Gabriel perguntou:

-Qué isso aqui?

Olhamos para onde ele esticava o braço (ele não aponta com o dedo, mas com um gesto de braço, com a mão meio aberta). Eu li:

-Mulheres Alteradas.

Ele insistiu:

-Qué isso aqui?

Claro, ele se interessou pela expressão do desenho na capa:

-Está chorando! Buáááááá! - respondi. Ele se deu por feliz, abrindo um sorrisão. Eu, mais feliz ainda, quando percebi, relembrando o caso, que ele avançou mais um pouco em reconhecer expressões faciais.

postado por: Argemiro Garcia 31.7.03

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Falta de sono


Fomos buscar, Mariene e eu, Gabriel e Iraildes no consultório de Rita (musicoterapeuta). Ele vinha de braços dados com a moça, todo risonho, e adorou nos ver.

Mais tarde, meu projeto de dormir cedo foi por água abaixo:

-PG! - e, depois de um tempo cantando e cumprimentando os irmãos vizinhos:

-Passear de carro! - que menino mais gasolina!

Pedro foi conosco e Gabriel, quando já voltávamos, pediu:

-Chamito! - bem que tentei argumentar que estava com sono, mas resolvi que era mais prático levá-lo logo ao Hiper do que ouvir gritaria. Afinal, ainda está estressado com a perda de Ana, que ele não entende estar de férias.

Comportou-se direitinho, pediu uma Qualy Light (margarina). Voltamos para casa às onze e pouco e ele veio pedindo:

-Pão com Qualy! Chamito!

Pelo menos, ele comeu tudo o que comprou - e sem fazer show. Mas, estranhamente, tinha uma marca na testa, como se tivessem lhe apertado alguma coisa contra a pele. Pelo jeito, bateu-a em algum lugar - e deve ter sido de propósito. Pediu para colocar um Salvelox, curativo auto-aderente, e foi dormir como um anjinho, com aquele bandeidão na testa.

postado por: Argemiro Garcia 31.7.03

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Quarta-feira, Julho 30, 2003

Continua o nervosismo


Gabriel continua irritadiço. Ontem à tarde, ele não queria ir para o consultório de Célia (Célia Regina Thomé), sua fonoaudióloga.

Gritou. Gritou. GRITOU.

Leonardo, preocupado com o horário e se sentindo tomado pela autoridade de irmão mais velho, quis dar um jeito: puxou-o do sofá e tentou levá-lo à força para o elevador; jogou as panelinhas que compramos para Gabriel descarregar suas estereotipias no corredor; deu-lhe uns tapas. Nossa vizinha veio contar, toda preocupada, para Mariene.

Iraíldes reclamou com Leonardo, que respondeu saber o que estava fazendo - e que não se metesse. Para piorar, ela tentou enganar Gabriel, dizendo que Ana estaria no consultório - ainda bem que a mentira não colou, ou ela descobriria porque não se deve mentir a um autista...

Felizmente, Mariene chegou e, com a mãe, ele aceitou ir.

Conversamos com Leonardo: vamos ter que rever alguns conceitos. Gabriel é um menino qde dez anos que sabe o que quer. Ainda outro dia, ele se recusava a sair do quarto antes de ouvir uma certa música. Depois de ouvi-la, veio pronto, vestido e calçado, para que eu o levasse a sua consulta.

Acredito que seja a ausência de Ana - Gabriel associa as férias e o sumiço de Ana com a morte de sua gatinha, a Marrie.

Tudo que move é sagrado

De noite, lá pelas dez e meia, Gabriel veio com mais uma:

-Milton Nascimento! Tudo que move é sagrado!

Não achamos o CD. Ele foi ficando nervoso... NERVOSO... Dessa vez, no entanto, Mariene conseguiu levá-lo para o quarto e distraí-lo.

Primeiro, ele gritava:

-NÃO! - e ela:

-SIM!

Ele, então, começou:

-Disque 0800 - nnnnnn (sei lá que números!) - e diga NÃO!. Mariene respondeu:

-Disque 0800 e diga SIIIIIIIIM! - ele não agüentou e riu...

Em seguida, começou a brincadeira de dizer que estava machucada. Ele dizia:

-Acende o fogo! Pronto! Queimou o braço!

Ela queimou o braço, o ombro, a testa... Teve que fazer curativos (de faz-de-conta) pelo corpo todo.

Uma hora depois, Gabriel aceitou ir dormir, feliz. E sem o Milton!

postado por: Argemiro Garcia 30.7.03

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Sábado, Julho 26, 2003

Tempestades


Ontem saí por meia hora, deixando Gabriel e Mariene em casa, enquanto levava Leonardo e Luís (seu amigo) para o tae-kwon-do. Fui fazer umas comprinhas e, quando cheguei de volta, os ollhos de Mariene diziam tudo:
Emprestar o vídeo para Gabriela rendeu um choro de quase uma hora.

O CD-ROM dos 101 Dálmatas estava riscado; nervoso porque seu joguinho não rodava, Gabriel chorou, gritou e passou dos limites: arranhou os braços de Mariene, quebrou a garrafa térmica cheia de café, bateu a cabeça na parede. Pior é a incerteza. Mariene, ontem assistiu ao filme Simples como amar em que dois jovens deficientes (aspérgueres?) se enamoram - e dão piti... Vem a dúvida: até quando? Pessoalmente, me preparo para a possibilidade da resposta ser sempre...

Hoje, a situação se repetiu. Estou com Gabriel em casa; Mariene foi a uma reunião do Fome Zero - ela é assessora parlamentar do deputado petista Zé das Virgens. Leonardo e Pedro, no quarto, jogavam RPG com uns amigos. De repente, Gabriel percebeu que o vídeo não estava no lugar (Gabriela levou para sua casa para fazer um trabalho de escola). Começou a bronca, que durou uns 50 minutos:

-VÍDEO! NÃO E PRA PEGAR AS COISAS DOS OUTROS! O VÍDEO E DE MARQUINHOS! O VÍDEO É DE LIZ! NÃO É PRA TRAZER O VÍDEO! PULAR NO VÍDEO! FAZER XIXI NO VÍDEO! PASSEAR DE CARRO - COMPRAR VÍDEO! MOLHAR VÍDEO! NÃO É PRA PEGAR O VÍDEO!

No meio dessa confusão, dava para perceber: comprei esse vídeo a pedido do Gabriel. Para ele, o vídeo é dele - e ficou irritadíssimo de termos emprestado sua propriedade. Está certo que levei uma tremenda cabeçada no supercílio direito - quase vi estrelas - mas, de qualquer fomra, estou feliz. Ele está completamente sabendo que o vídeo é dele, que as coisas dele não podem ser disponibilizadas assim, sem sua autorização... Isso é ou não uma evolução?

Interessante é que, quando Gabriela chegou, ele mal usou o vídeo; colocou apenas uma fita. Apenas queria garantir que o aparelho voltasse para casa. Ainda, irritado, pegou uma bucha de lavar louça e chegou a molhá-lo; Aliás, chegou a ser engraçado quando ele levantou o pé, tentando subir nele, mas também não insistiu.

Com tudo acertado, ele ficou um tempão brincando com o Talk any, um programa shareware que fala tudo o que a gente escreve no micro. Abaixo, mais uma de suas composições:
Foi isso que ele escreveu: Procura em outro lugar...agenda (?) apoio Colégio Diplomata Patamares - ensino de excelência... cachorro cachorro...

A bem da verdade, acredito que boa parte de sua ansiedade é por conta das férias de Ana. Ele está ansioso, com medo de perder sua amiga e babá.

Ah! Ontem e hoje já troquei uns 25% do leite do Nesquix por leite de soja Ades.

postado por: Argemiro Garcia 26.7.03

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Quarta-feira, Julho 23, 2003

Elevador


Leonardo começou a fazer tae-kwon-do na semana passada e precisava de um quimono. Fomos, então, à Calçada, na Cidade Baixa, onde há muitas lojas de esportes: Leo, seu amigo Luís, Gabriel e eu.

De cara, quando tomamos a Rua Guindaste dos Padres, Gabriel começou a pedir, empoleirado nas minhas costas:

-Elevador! Elevador! - a Rua Guindaste dos Padres fica do lado do Elevador Lacerda.

-Calma, Gabriel! Tenha paciência! Depois nós vamos andar de elevador.

Promessa feita, tem que cumprir. Não achamos o quimono, mas fomos passear até a Cidade Alta. Ainda que tenha tentado me dar umas cabeçadas no braço, Gabriel levou a coisa na esportiva. O problema quase foi o preço da passagem: R$ 0,05 (cinco centavos). As quatro passagens ida-e-volta saíram por R$ 0,40 - e eu não tinha moedas. Demorei um pouco na fila, mandando Leo comprar água para trocar o dinheiro. Eu não sabia, mas depois da reforma há dois guichês, o que agiliza a compra, e, agora, tem bilhetes - antes era preciso ter a moedinha na mão.

Subimos. Gabriel quis dar uma volta pela Praça, talvez pelo Pelourinho, mas encarou bem a negativa; andar de elevador era o mais importante. Pena que, na pressa, ele tenha empurrado uma mocinha deficiente (poliomielite?), que reclamou. Cheguei perto dela e disse, baixinho:

-Você me desculpe, mas ele é autista e não compreende bem algumas coisas. - Ela se desarmou e também me pediu desculpas.

De volta para o carro, ainda fomos a Nazaré, onde compramos os tais quimonos.

Por tudo isso e mais alguns engarrafamentos, nos atrasamos para ir ao consultório de Célia, fonoaudióloga. Por causa do atraso, Gabriel não pôde usar o CD do Chico Bento e acabou por insistir em levá-lo para casa:

-Chico Bento! Chico Bento não pode! Chico Bento é do Marquinhos!

-Não, Gabriel, eu preciso dele para trabalhar!

-O Chico Bento não é do Marquinhos, Gabriel; é da Célia e ela precisa dele!

Voltamos para casa - ele protestando. Quando chegamos, aceitou jogar o Comfy - seu CD do Chico Bento está muito arranhado. A bem da verdade, ele se divertiu muito com o outro jogo.

Dessa vez, ele segurou a onda do seu nervosismo.

postado por: Argemiro Garcia 23.7.03

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Terça-feira, Julho 22, 2003

O carrinho vermelho

Ontem, Gabriel veio pedindo:

-Passear de carro!?

Esse carrinho vermelho...
Avisei que ele ia ter de trocar a roupa. Ele voltou com um short na mão, pedindo de novo:

-Passear de carro!? - dá para resistir?

Demos uma volta e, claro, fomos ao Hiperbompreço. Ele já desceu pedindo:

-Carrinho vermelho! - Ante-ontem, esse carrinho já tinha me dado trabalho.
    Carrinho vermelho é um carrinho de supermercado com um reboque pregado atrás, com um banco vermelho onde cabem duas crianças. O grande problema é que só há dois deles - e todas as crianças adoram ser empurradas nele. Gabriel não é exceção.

    Como eu dizia, ante-ontem também fomos ao Hiper. Quando viu os dois carrinhos vermelhos desocupados, ele correu em sua direção, me largando a fechar o carro; depois, voltou para me procurar e não me encontrou. Eu tinha ido procurá-lo no interior da loja e neca! Em coisa de dez minutos, de qualquer forma, um funcionário me encontrou; não sei qual dos dois, eu ou ele, apresentava maior ar de preocupação. Ele tinha encontrado Gabriel no estacionamento e deixara um colega acompanhando-o, enquanto ia me procurar.

Isso tudo, ante-ontem. Ontem, não havia nenhum dos carrinhos à vista. Pus Gabriel, então, num carrinho comum, com a promessa de que iríamos procurar o bendito. Como procuramos! Rodei o supermercado inteiro, mais os dois estacionamentos. Gabriel foi ficando nervoso:

-CARRINHO VERMELHO! IÁÁÁ! IÁÁÁ! CARRINHO VERMELHO!

Munido de toda a paciência que 29 dias de férias dão, ia tentando distraí-lo:

-Claro! Vamos procurar o carrinho vermelho? Será que está no estacionamento?

Ele, desprovido de qualquer paciência, como bom autista, ia se estressando:

-CARRINHO VERMELHO! IÁÁÁ! IÁÁÁ! O CARRINHO É DE LIZ! NÃO É PRA CARRINHO! NÃO É PRA MEXER! - e outras frases que ele associa a negação.

Encontramos, ainda, Rita Dultra, musicoterapeuta, que tentou acalmá-lo. Nessa hora, todo o supermercado já acompanhava nossa odisséia. Os gritos ecoavam pelo enorme galpão - para os sulistas terem uma idéia, o Hiperbompreço tem o tamanho de uma loja do Carrefour.

A cada funcionário eu explicava o que ele queria. Até que um deles me disse que havia um no estacionamento do subsolo. Desci novamente, agradecendo a Rita e dizendo-lhe para não se preocupar. Agora, além dos gritos, Gabriel batia a cabeça na minha mão, prensando meus dedos na barra do carrinho. Esperto, quando eu tirava a mão ele não batia a cabeça no ferro.

Chegando ao subsolo, o rapaz já estava com o carrinho, me acenando.

Daí para a frente, foi o desestresse. Ainda nervoso, Gabriel nem queria se sentar no carrinho. Pediu:

-Espelho! Quebrar espelho! - e correu na direção dos carros. Essa era uma mania que ele tinha e que, de vez em quando, volta: bater em espelhos. Como sabe que todo carro tem um, nessas horas corre para os estacionamentos. Intervi:

-Ah, não senhor! O carrinho está aqui e você não vai atacar nenhum espelho! Ele insistiu:

-Atacar espelho!

Forcei-o a se sentar e empurrei o carrinho para o andar térreo. Na entrada da loja, ele ficou em pé e se pôs a pular no banco. Uma das ripas, que já estava lascada, acabou de quebrar. Precisei endurecer. Dei-lhe dois ou três tapas:

-Agora chega! Está pensando o quê?! Agora, quebrou o carrinho! Está contente! Chega dessa palhaçada!

Esfregando o braço, ele ficou olhando para mim, ainda querendo gritar. Continuei, tirando os óculos:

-Olha minha cara! Estou bravo, muito bravo! - aos poucos, ele se acalmou.

Fui, então, tentando desfazer a má impressão - ainda que boa parte dos empregados da loja já nos conhecem. Foi assim que descobri que um repositor da noite, Marcos, tem uma meia irmã por parte de pai e ela, um irmão por parte de mãe que tem 17 anos, não fala nada, fica balançando e se morde muito.

Voltando para casa, Gabriel ainda falou para Mariene:

-Magoou carrinho! Quebrou carrinho! Deitou-se em nossa cama e, menos de cinco minutos depois, dormiu.

postado por: Argemiro Garcia 22.7.03

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Segunda-feira, Julho 21, 2003

Abre a porta!


Este sábado, dia 19, Dona Beatriz, mãe de Wellington (ver o post O Fugitivo, do dia 27/4/2003) esteve aqui em casa, acompanhada de Fabiane, a filha caçula. Fabiane, como já contei, é surda, enquanto Wellington, além de deficiente auditivo, é autista - acredito eu.

Fabiane e Adriana.
Fabiane e Adriana
À tarde, levamos as duas para casa. A família se mudou, mas manteve a casa antiga para o filho mais novo, que está sozinho dentro de casa porque brigou com o pai. Passamos, ainda, em Patamares: o sr Jorge aceitou nossa oferta e vai alugar sua casa para a AMA-Ba - UÊBA! No caminho, Gabriel começou a pedir:

-Camarão! Camarão! CAMARÃO! - e se pôs a gritar, ameaçando abrir a porta do carro. Pior é que ele estava no banco de trás, com Dona Beatriz e Fabiane. Gabriel só se acalmou quando paramos no Bompreço da Boca do Rio, perto do Clube 2004, e compramos o tal camarão (imagina como o carro ficou cheiroso).

Serenados os ânimos, tocamos para Fazenda Coutos. Passamos na casa velha, para vermos o menino mais novo, de 17 anos.Gabriel entrou na casa, deu uma voltinha, saiu para o quintal e gritou:

-Beatriz! Você pode abrir a porta? - Confesso que, para mim, foi a glória! Talvez seja a frase mais expressiva até agora, porque foge completamente de toda a ecolalia. Foi preciso construir um discurso para falar essa frase!

De lá, seguimos para a casa nova da família, onde apanhamos Adriana, a quarta filha de Dona Beatriz, e fomos levar as três para Cosme de Farias, onde as duas irmãs fazem um curso de LIBRAS, a LInguagem BRAsileira de Sinais.

Para mim, ficou o pedido de Gabriel e uma certeza: vamos abrir muitas portas.

postado por: Argemiro Garcia 21.7.03

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Sexta-feira, Julho 18, 2003

Relações fraternas


Pedro segura os dedos de Gabriel para ensiná-lo a usar o Coelho Sabido.
Ante-ontem, Mariene, Gabriel e eu estávamos no Shopping Iguatemi, à noite. Em frente à Casa do Cartucho, ele começou a repetir:

-As coisas! As coisas!

Entrando na loja, ele grudou num CD do Coelho Sabido, Segunda Série; já tínhamos o Coelho Sabido - Jardim.

Em casa, pôs o CD no micro e saiu clicando em todo sim que via - quase instalou sozinho o programa!

Precisei sair, para levar um colega de Leonardo e Pedro em casa, deixando Gabriel no micro; de volta, o choro era enorme.

É que Gabriel queria os números, mas não achava; por ser mais avançado, o CD é bem mais complicado. Pedro, bem irritado, tentava avançar no jogo para achar a fase de aritmética. Juntei-me a ele e achamos a Matemática.

Gabriel, então, se aproximou e Pedro começou a ajudá-lo. Como está acostumado a usar o mouse, e o programa do CD usa o teclado, Gabriel precisou da ajuda de Pedro. Aos poucos, foi se acalmando e, com o irmão, acabou se acertando. Quando ficava irritdo, tomava uns cascudos de irmão. Fiquei de longe, olhando, e não perdi a oportunidade de fotografar.

postado por: Argemiro Garcia 18.7.03

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Quarta-feira, Julho 16, 2003

Memória fotográfica


Fomos, Gabriel e eu, buscar Mariene no trabalho. Como ele pedira Ouro Branco, propus passarmos no Extra, o supermercado que fica na Avenida Paralela, para variar. Desceu do carro, fechou os vidros, travou a porta. Subiu num carrinho. Mas, quando entramos no mercado, começou a apontar, reclamando. Eu disse:

-Não. Nós só vamos comprar o Ouro Branco - e comecei o slogan: Mais barato, mais barato: Extra!

Intrigado com sua insistência, no entanto, fui verificar o que ele queria: era o espaço de recreação do Extra! Olha que já fazia mais de três anos que tínhamos ido ali pela última vez! Que memória!

postado por: Argemiro Garcia 16.7.03

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Terça-feira, Julho 15, 2003

Beijando o leão


Eu mato, de beijos e abraços!
Eu mato, de beijos e abraços!
Ana, a mãe de um amigo de Pedro que nos trouxe a gatinha Duquesa, deu outro gato para Ana, a "nossa" Ana. Gabriel, no entanto, adorou tanto o gatinho que propusemos uma troca: vamos dar a ela um cachorrinho. Gabriel pôde ficar com mais um gato. A diferença desse novo hóspede (nem tão novo assim, pois isso já aconteceu há quase um mês) para sua irmã é que Duquesa é mais agressiva, enquanto ele se mostrou bem calmo. Permitiu que Gabriel o agarrasse, abraçasse, beijasse, sufocasse, esmagasse...

Ironicamente, Leo e Pedro deram o nome de Leão para o novo bichano.

Gabriel, agora, fica:

-Vamos dar água pro Leão!?

-Comida pro Leão!?

De vez em quando, pega o bicho de jeito e beija, beija, beija... Temos medo de que algum dia desses o gato perca a paciência - parece que isso já aconteceu, porque Gabriel está com um baita arranhão nas costas. Mas, mesmo assim, continua beijando, beijando, beijando... moooooito! Ou, como diz Mariene e ele repete:

-Eu mato, de beijos e abraços. Depois, como assado com farinha!

postado por: Argemiro Garcia 15.7.03

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Stresses de domingo


Os óculos de Pedro se quebraram, e ele vinha reclamando para fazer um novo; porém, nunca dava certo: um dia, ele não podia porque iria ao cinema e, no outro, era eu quem não podia por ter uma reunião, por exemplo.

Domingão à tarde, Pedro e Leo estavam brincando na piscina e Gabriel estava na portaria do prédio, cantando O sapo e cumprimentando os vizinhos. Lá pelas tantas, apontou para Leite, o porteiro, e perguntou:

-Qué isso aqui?

-Leite. Não satisfeito, repetiu:

-Qué isso aqui?

-Leite. Ainda insistiu:

-Qué isso aqui?

-Leite. Então, achando que não estava sendo bem entendido, explicitou:

-Pessoa. Qué isso aqui? Rimos, e perguntamos:

-Qual é seu primeiro nome, Leite?

-Antonio. Depois de respondermos ao Gabriel, ele recomeçou:

-Antonio não lava o pé...

Mas havia tarefas a cumprir, e Mariene pegou os homens da casa pelas orelhas:

-Pedro, vamos fazer teus óculos! - Mariene chamou.

-Ah, mãe!

-Nada de ah. Gabriel, vamos pro Iguatemi!

-UÁÁÁRH! Piscina!

Pedro foi se aprontar e eu desci com Gabriel, com a idéia de que ele não ia agüentar a água gelada - doce ilusão! Só depois de pular na água com ele duas vezes é que ele aceitou subir para se trocar - mas sob protestos. Enquanto isso, Pedro, já pronto, batia um baba (jogava bola).

Conclusão, para encurtar o caso: os dois, contrariados, foram extremamente irritados para o Iguatemi (Leo não quis ir e prometeu cortar os cabelos na segunda-feira). Gabriel foi de cavalinho, percorreu o shopping todo nas minhas costas e só aceitou descer porque havia uma empresa de animação de festinhas com equipamentos montados - daí, ficou uma hora e quinze brincando: pula-pula, piscina de bolinhas, corda com roldana (teleférico) e outras coisas. O gerente do brinquedo não tomou iniciativa de nos passar na frente, mesmo quando expliquei o problema, deixando para mim a dura tarefa de pedir às pessoas na (imensa) fila. Felizmente, encontrei compreensão. O rapaz comentou ainda que já tinha atendido uma criança autista, que tinha sido muito agressiva - a empresa é de Joinvile (Santa Catarina). Isso me deixou mais preocupado, e passei a rodar em volta da área dos brinquedos para controlar qualquer comportamento mais bravo. Felizmente, Gabriel apenas deu ummas cabeçadas no braço de uma das moças, sei lá porque. Talvez ela tenha lhe chamado a atenção de forma estranha.
Gabriel brinca com o Talk Any, programa que "fala" o que a gente escreve.
Gabriel brinca no micro com o Talk Any

Depois de um tempão, com Pedro já de cabelo cortado, óculos novos e pouca paciência, Gabriel saiu por livre e expontânea vontade - e voltou para casa de cavalinho.

De noite, Pedro queria assistir ao Fantástico, Leonardo dormia e Gabriel brincava de gravar mais músicas no micro. Pediu:

-Gravar! Bola de meia! UÁÁÁÁÁRH! - e me deu umas cabeçadas no braço, além de um baita grito no ouvido direito, que respondi com outro grito. Mariene estava ao telefone e brigou comigo.

Pedro teve insônia, por ser véspera da volta às aulas. Gabriel estava agitado e ficou sozinho na sala, brincando no micro, enquanto a gente chamava lá do quarto. A noite acabou bem tarde.

O que Gabriel digitava no Talk Any. Ele não costuma separar as palavras, mas é parte da letra de uma música de "As Aristogatas". Dá para entender: "quem vai andar pra trás" (qemvaiandarpatas) e "faz nós dois pra depois" (faznosdoispadepois).
Digitado por Gabriel no Talk Any

postado por: Argemiro Garcia 15.7.03

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Sábado, Julho 12, 2003

Saiu o adesivo!


Pedro trouxe, ontem, alguns amigos para assistir uns filmes que alugaram. Gabriel queria o vídeo, que Pedro levou para o quarto - e não teve dúvidas:

-Leo! Você pode trazer o vídeo pra mim?

Em vez disso, Leonardo levou o irmãozinho pro quarto, para assistir ao filme - HisteRia. Mas Gabriel ainda se manteve irritado e precisei, assim, sair com ele - desta vez, foi de carro e não de ônibus. Sossegou o suficiente para voltar para casa sem brigar.

Hoje pela manhã, começou a gritar:

-IMAGEM FILMES!

Aproveitei para explicar a Iraíldes que esses episódios de nervosismo sempre têm uma causa - e nos pusemos a revirar nossas prateleiras de fitas (já tivemos uma locadora de vídeo e sobraram dezenas de filmes), até que Leonardo foi guardar a fita de HisteRia e descobriu: sua distribuidora é... Imagem Filmes! Em menos de um minuto, a paz voltou a reinar.

adesivo da AMA-Ba


Pouco depois, o pessoal da gráfica nos ligou, dizendo que saíram os adesivos da AMA-Ba. Fomos, Mariene, Gabriel e eu, até Roma (um bairro de Salvador, gente!) buscar a primeira fornada. Rodamos meia cidade, pois seguimos para Acupe, levar as cotas que Rita distribuirá para os outros pais. Paramos no restaurante Gol de Letra, do lado do prédio de Rita e Marcos - e Gabriel, sempre comportadinho, pediu:

-Fazer xixi no banheiro!

E depois:

-Arroz, feijão, farofa e carne! - mesmo com nossa longa conversa com Rita, ele se manteve um cavalheiro.

Voltando para casa, chamamos Pedro e Leonardo para sair e jantar. Gabriel repetiu:

-Farofa, salada, carne, feijão... - mas, sempre, comportadinho. Barriguinha cheia, Gabriel ficou no parquinho do restaurante.

Agora, estamos na sala. Leonardo já foi dormir, Pedro e Gabriel estão de papo pro ar no sofá.

postado por: Argemiro Garcia 12.7.03

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A Marrie morreu


Desde que Marrie - nossa gatinha - morreu, Gabriel fala muito nela. Pergunta, pergunta...

-Marrie?

A resposta, quase invariável, é:

-A Marrie morreu.

Hoje, quando levantou, Gabriel perguntou para Iraíldes, que está substituindo as férias de Ana:

-Ana?

-Ana está de férias, está na casa dela - respondeu Iraíldes.

Fui até o sofá onde ele está sentado:

-Ana está de férias, lá na casa dela. Você estava de férias, ficou em casa. O papai está de férias, eu estou de férias, fico em casa, não vou para a Petrobras. Depois a Ana volta para cá.

Ele deu um sorrisinho e perguntou:

-Marrie?

-A Marrie morreu, Gabriel. Ela não está de férias. A Marrie acabou. Ela não volta mais. A Ana volta, mas a Marrie não.

Às Vezes, Gabriel fica dizendo:

-A Marrie morreu. Tem que comprar outro gato!

postado por: Argemiro Garcia 12.7.03

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O gourmet


Revendo as fotos para postar abaixo, encontrei uma da quarta-feira, dia 9. É que agora está mais difícil eu chegar perto do micro: Pedro instalou os Sims; ele e Leo passam o tempo todo jogando - é fim de férias, e a gente acaba sendo condescendente.

Mas, como eu dizia, na quarta-feira Gabriel estava comendo um tomate - de repente, se levantou e apontou para o liquidificador:
Meia lata de Nesquix e um litro de leite foram nesta experiência.
um litro de leite e meia lata de Nesquik


-Liquidificador na mesa... - ele fala meio cantado, subindo o tom no fim da frase.

Tentei argumentar que a pia da cozinha era mais fácil, mas tive como resposta:

-UÁÁÁÁÁRH!

-Tá bom, tá bom!

E começaram, de novo, suas experiências culinárias:

Bateu o tomate com água. Coloquei uma jarra na pia, e ele despejou o suco todo. E pediu:
A estereotipia dele se converteu em bater dois objetos - no caso, dois limões, enquanto faz seu suco de tomate.
Suco de tomate


-Nesquix! Leite! - ele ainda chama o Nesquik de Nesquix.

Lá se foram meia lata de chocolate e um litro de leite - que foram guardados em outra jarra. Em seguida, ele pediu:

-Peneira!

Peguei um peneirão daqueles de coar suco, mas não era isso que ele queria. Logo entendi. O que pedia era um espremedorzinho de laranja, aquele mesmo que fez com que Gabriel me largasse sozinho nas Lojas Americanas, no natal de 2000, quase tendo um troço - ele pegou o espremedor, agitou-o em frente ao leitor de etiquetas ópticas do caixa e, justo quando eu desviei meu olhar, se mandou para casa, a pé e sozinho. Mas isso já faz tempo - e tem gente dizendo que autista não foge...

O espremedorzinho foi parar em cima da pia, mas alguma coisa distraiu sua atenção e ele interrompeu suas práticas de gourmet. No dia sseguinte, pela manhã, já esquecido do que tinha acontecido no dia anterior e, pensando que o suco meio alaranjado da jarra fosse maracujá, virei um copo - era o suco de tomate, já amargo - UGH!

postado por: Argemiro Garcia 12.7.03

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Auto-controle


Às quintas-feiras, Gabriel volta mais cedo da Via Ponte, sua escola. Ante-ontem, ele chegou, tocou a campainha e entrou com a mochila nas costas e a lancheira nas mãos. Ficamos brincando - eu corria, gritando:

-PEGA, PEGA, PEGA! - e ele, correndo, ia da sala ao quarto e de novo para a sala, aos berros:

-NÃO! NÃO! NÃO! SAIA DAQUI! AI! AI! ( clique aqui para ouvir )

Gabriel está, como dizia a Dra. Eliane Nascimento, sua última psicóloga, presente o tempo todo. Mais do que isso, dá para peceber que ele mantém as anteninhas ligadas, nos observando, como qualquer criança. E já consegue entender certas comunicações não-verbais.

Por exemplo: ontem à tarde, fui fazer o seguro do carro. Para isso, chamei-o e fomos à AMBEP (Associação dos Mantenedores Beneficiários da Petros), que tem convênio com a Sul América Seguros. Chegando, ele fechou a porta do carro, sem travar; fiquei batendo no vidro e apontando para a trava: ele entendeu! - abriu a porta e baixou o pino.

Aproveitei para conversar com um dos diretores sobre a oportunidade de estabelecer uma parceria entre a AMA-Ba, a ABRA e a AMBEP (que é uma entidade nacional); ao menos, vamos colocar um artigo sobre o autismo no jornal da entidade, que tem um alcance nacional.

Voltamos para casa passando pelo Makro, para aproveitar umas ofertas, mas as filas estavam tão grandes que Gabriel ficaria irritado. Prometi ir ao... Hiperbompreço, claro - e ele cobrou, com uns ARHHH bem gritados.

Parei o caro e, enquanto o trancava, Gabriel sumiu. Fui encontrá-lo muito tranqüilo da vida, sentado em frente a um home theatre de demonstrção, assistindo a um show de Elba Ramalho - quem o tirava dali? Saiu só depois dos créditos do filme.

Ainda quis cortar o cabelo e, depois de muita vacilação, bateu a mão no banco de Beth, quando perguntei se ele queria sentar-se no meu colo. E foi no meu colo que ele teve seu cabelo cortado - não sem muito grito e careta. Talvez o que quisesse mesmo era a máquina de cortar, que o deixou muito animado - ele ficava dando pulinhos em volta de um senhor que era atendido por outro cabeleireiro.

De noite, ele quis descer ao PG, coisa que não pedia desde que Mariene e eu voltamos de São Paulo. Lá, voltou a seus hábitos: cumprimentava os vizinhos com seus Olá, irmão; apoontou para todos os carros que passaram na rua, perguntando:
-Qué isso aqui?
-Câmbio! Volante!
Qué isso aqui?


-Qué isso aqui? - e eu, respondendo:

-Câmbio! volante!

E, quando Julieta apareceu, ele se pôs a cantar a música do sapo, com uma novidade:

-O sapo! - e eu:

-O sapo não lava o pé
não lava porque não qué
ele mora lá na lagoa,
não lava o pé porque não qué!
Mas que chuulé!


-A sapa... Mas cá chalá!

-A sapa na lava a pá
na lava parcá na cá
ala mara lá na lagaa,
na lava a pá parcá na cá!
Mas ca chalá!


-E sepe... Mes que chelê!

-E sepe ne lêve e pê
ne leve perquê ne quê!
ele mere lê ne leguê
ne leve ê pê perquê ne quê!
Mes que chelê!


-É sépe... Més que chelé!

-É sépe ne leve é pé
né leve perque ne qué!
éle mére le ne legué
ne leve é pé perque ne qué!
Més que chelé!


Foram todas as vogais, adicionando suas variações de fechado e aberto: a, ê, é, i, ô, ó, u...

Deu onze e dez, decidi que voltaríamos para casa. Ele protestou um pouco, mas aceitou subir - nas minhas costas. Precisei, no entanto, descer para pôr o carro na garagem - e ele desceu junto, dizendo:

-Hiper! Hiper!
-Não, Gabriel, nós só vamos guardar o carro!

Ele protestou, protestou... e acabou aceitando trocar o Hiper por um pacote de bombons Ouro Branco.

Desta vez, o calundu durou menos de cinco minutos - fomos dormir comemorando o auto-controle.

postado por: Argemiro Garcia 12.7.03

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Quinta-feira, Julho 10, 2003

Sorrisão


Ante-ontem, também, foi o dia em que fui buscar o carro no consórcio. Depois de nove anos sem carro, a família volta a se motorizar. Chamei os três filhos para irmos visitar nova casa para a AMA-Ba.

Saímos do prédio e, em vez de virar à direita, para os pontos de ônibus, viramos à esquerda. Gabriel foi nos acompanhando, sossegado. Quando me viu abrir o carro, seu sorriso e o brilho nos olhos mostraram bem que entendeu a novidade...

Ontem, de volta da escola, ficava falando:

-Carro... Carro...

Aliás, ontem fomos, Rita, Mariene e eu, até a AABB, tentar a cessão de um terreno para montarmos a escola. Infelizmente, não será possível. Mas, papo vai, papo vem, acabamos por mostrar à coordenadora que todo mundo conhece algum autista. Ela acabou por se lembrar de um rapaz que conheceu que parou de falar aos três anos, fez tratamento em São Paulo e nunca ninguém disse o que ele tinha...

postado por: Argemiro Garcia 10.7.03

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Saia daqui!


Na semana passada, Leonardo e Pdro pegaram Gabriel para brincar. Eles lhe faziam cócegas, o agarravam, e ele gritava:

-AI! AI! SAIA DAQUI! SAIA DAQUI! - rindo a todo o vapor.

Entrei na brincadeira:

-Segurem ele que eu vou fazer PFFRRRR!

-AI! AI! - e soprei com força na sua barriga, enquanto Leo e Pedro seguravam o irmão.

Nesta semana, a brincadeira aconteceu de novo. Mariene foi fazer cócegas e beijá-lo e ele, de novo:

-AI! AI! SAIA DAQUI! SAIA DAQUI!

-Vou beijar o seu... sovaco!

-AI! AI! NÃO! NÃO!

-Morde o cotovelo! Dá um beijo de vampiro no pescoço!

E foi pedindo beijos aqui e acolá, sempre com aquele jeitinho meio cantado de falar. Aliás, ante-ontem o Jô Soares estava comentando que o chinês é a língua que mais exige do cérebro; e que o português está perto, nesse ranking. À parte as ironias que o Gordo faz, para nós foi muito bom saber que nosso idioma é musical. Talvez isso tenha nos ajudado na tarefa de ensinar Gabriel a falar/cantar.

postado por: Argemiro Garcia 10.7.03

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Segunda-feira, Julho 07, 2003

De volta pra casa


Mariene e eu chegamos ontem, domingo, de São Paulo. O Congresso foi excelente, só há elogios a fazer.
Gabriel nos recebeu com um sorriso e um beijo nas nossas bochechas - que tivemos que pedir.

postado por: Argemiro Garcia 7.7.03

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