Canto de Anjo



Eclipse da Lua, 2003.

EU

Blogs:

"Meu filho"
"Meu Sol Bernardo"
Crônica Autista

Disdeficência

Rogério
Victor
Site da Carolina
Victinho, pela Roseli
Laerte e Henrique
Imbloglio, eu
Blog da Larissa
Força para Lutar
Quero Contar
Anjinhos de luz
Adalba
Ana Beatriz
Blog do Gabi
Blog do Du - antigo
Blog du Du - novo
Laís super-especial
Vó da Paloma
Julio Matheus
Mundo da Mi
Pérola preciosa
Fotologs:
Aninha, a prima
Vicente Neto
Rosa Becco
Matheus
Neurotípicos:
Bruno
O Garoto



Sites:

Lista Autismo
Manifesto por dignidade

Anjos de Barro
Casa da Esperança (CE)
Codinome Aspie
Programa Especial
Vida e Arte
David Valente
Fala Menino!
CRADD (RJ)
Mão Amiga (RJ)
Neurodiversity
CORDE
autismconnect
Rio Vermelho

Profissionais:

Dr Walter Camargos
Dr Schwartzman
Dra Margarida Windholz
Dra Gikovate
Dra Padovan

Adoção de animais:

Gatinhos de Salvador
OSG
http://MomFacts.com


Site Meter

Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
Clique para entrar na
Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Terça-feira, Abril 29, 2003

O fugitivo


Foi na segunda-feira, dia 21, que conheci Wellington, sua mãe Beatriz e seu irmão.

Estávamos, Gabriel e eu, saindo do Hiperbompreço. Gabriel surpreendentemente, se comportou direitinho; ficou sentado no carrinho o tempo todo.

Eram umas dez horas da noite. Passei por uma dupla de policiais. Dona Beatriz, angustiada, explicando a situação, e falando com Welington:

-"Calma, meu filho, não faz assim."

Welington, acuado contra a parede, se debatia, tentando driblar o irmão, que estava com aparência angustiada. Mesmo com vontade de fazer de conta que não era comigo, perguntei:

-O que ele tem? (Como se não soubesse.)

-Ele é doente mental.

-Sim, isso eu sei. O que ele tem? É autismo?

-Não sei. Ele é surdo-mudo e doente mental.

A policial me perguntou:

-Autista não fica com uns movimentos repetidos? Assim? Porque ele estava fazendo esses movimentos.

Peguei o telefone de Dona Beatriz, dei o nosso. Gabriel gritou, expliquei:

-Tenho que ir embora, o meu já está ficando nervoso. Não posso lhe ajudar, mas estamos montando uma associação.

Na quinta-feira, Dona Beatriz ligou umas 7 horas da noite. Queria uma ajuda que eu não podia dar. Wellington foi levado ao Juliano Moreira, hospital psiquiátrico. Foi medicado e teve alta (Os hospitais psiquiátricos de Salvador não estão internando ninguém.) A alta foi à meia-noite, eles esperaram o dia raiar para pegar um ônibus. Na Rótula do Abacaxi, Wellington gritou, se bateu. A mãe e o irmão tiveram de deixá-lo por ali. Ele voltou para casa no outro dia. Ontem, quando ela me ligou, ele estava caminhando por Itapuã, e às três horas da tarde fôra visto pela Vila de Abrantes (a mesma do Quartel de Abrantes, onde nada está como dantes).

Um bordado na sua camisa dá seu nome, informa que é surdo-mudo e doente mental e dá o telefone da família. Dona Beatriz desabafou:

-Uma pessoa me disse que ele é ladrão, não é doente mental. Eu disse a ela que não imagina o sofrimento que é ter ele. Eu já deixei ele na corrente, porque ele sai andando por aí, entra nas lojas querendo carrinhos, tem mais de cinqüenta guardados. Quer pegar. As pessoas me ligam, eu peço pra botar no ônibus Paripe, ele salta perto de casa. A médica veio aqui em casa falou que ele estava sendo bem tratado, mesmo acorrentado. Eu tou vendo a hora em que alguém vai matar ele.



Bom, convidei dona Beatriz para ir à reunião do Grupo de Estudos da AMA-Bahia. Apresentei-a, e estamos vendo se é possível conseguir a internação de Wellington. Por enquanto, estamos apreensivos, e sem saber como ajudá-la. Mariene vai ligar para a AMA de Sergipe, que já tem alguma estrutura. O deputado estadual Gilberto Brito (PPB), que tem trabalhado para ajudar a AMA-Bahia, se dispôs a ajudar Dona Beatriz a construir um quartinho para confinar Wellington.

postado por: Argemiro Garcia 29.4.03

Deixe aqui seu recado.
Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br

Quinta-feira, Abril 17, 2003

Ouvindo CDs no HIPER


Ontem, como (quase) sempre, fomos, Gabriel e eu, ao supermercado.
O Hiperbompreço, como quase todos os hipermercados, tem uma seção de CDs. Bom, eu estava na fila do caixa e Gabriel se pôs a olhar os discos. Deixei o carrinho e cheguei perto dele. Pela primeira vez, ao oferecer-lhe os fones, ele aceitou. Descobertos os botões, ele ficou por lá, testando as músicas à disposição. Como sabe ler, ficava olhando os discos, botava um fone e ficava apertando o play, o volume...
Incrível como é emocionante vê-lo aprendendo mais uma coisinha.

postado por: Argemiro Garcia 17.4.03

Deixe aqui seu recado.
Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br

Terça-feira, Abril 15, 2003

Encontro musical


Nada como um dia depois do outro.

Ontem à noite, segunda-feira, Gabriel quis descer para o PG (play ground):

-PG! - e eu concordei logo, descendo com ele.
Chegamos ao PG, a rapaziada estava com um violão, tocando uns pagodinhos. Gabriel ficou andando na mureta dos jardins, batucando seus potinhos no peito. Mais um pouco, ele começou a cantar:


Gabriel costuma bater objetos (junho/2002).


-Leitos perfeitos, teus peitos direitos me olham assim,
fino menino m'inclino pro lado do sim!
Rapte-me, dapte-me, zapte-me, capte meu coração,
sem querer ser um camaleão...
- que é o jeito que ele entende a música Camaleoa, do Caetano.

O pessoal não conhecia a música e começou a chamá-lo, rindo, pensando que era uma "composição" sua. Expliquei qual era a música e, desafinadamente, cantarolei. Rafael, um rapaz que mora no Vila Fenícia, um dos prédios vizinhos, pegou o violão e ficou fazendo um joguinho com o Gabriel, que dizia uma frase e pedia:

-Cante! - e Rafael cantava, acompanhando-se num pagodinho. A turma toda ficou assistindo os dois. Saiu tanta música!

Por uns quinze minutos, ficou uma roda, assistindo e rindo da cena. Aos poucos, os outros se desinteressaram, mas Gabriel e Rafael ficaram fazendo um dueto. Rafael ainda tentou dar um cavaquinho para Gabriel, mas não teve jeito: o grandão, mesmo, foi quem ficou com o cavaquinho.
Leo e Pedro, no Jardim Botânico do Rio, aproveitaram uma estátua que vomitava água...

De certa forma, Gabriel "contou" a viagem ao Rio:
-Estátua vomitou água!
-Bondinho comeu pão-de-açúcar!


Também falou de Aisha, colega da Escola Via Ponte, e do Ítalo:
-Aisha tá chorando!
-Bota a faca na pia, Ítalo!


E repetiu muitas frases de comerciais:
-Vamos tomar cerveja com a namorada, gelada!
-Original do Brasil!


A cada frase do Gabriel, umas notas do cavaquinho. As frases iam virando letra de música... Henrique, um vizinho que sempre puxa conversa com Gabriel, estava com um sorrisão. Chamei Mariene, e ficamos acompanhando a integração do pequeno no meio dos grandes. Não havia como não se enternecer. Serviu para lavar um pouco a alma...

Subindo para casa, Gabriel ainda tentou pedir para ir ao supermercado, mas estava tão tranqüilo que foi pedindo:
-S!
-Su...
-Supermercado!
- mas acabou dormindo no sofá. Como um anjinho de barro.

postado por: Argemiro Garcia 15.4.03

Deixe aqui seu recado.
Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br

Segunda-feira, Abril 14, 2003

O Blog do João Victor, pela Roseli


Roseli, mãe do João Victor, também está com um blog:
http://www.joaovictor1990.blogger.com.br/index.html

postado por: Argemiro Garcia 14.4.03

Deixe aqui seu recado.
Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br

Meu coração tá doendo


Na sexta-feira à noite, dia 11, Gabriel me chamou para ir ao Hiperbompreço, seu passeio preferido. Tudo foi bem mas, na volta, ele veio soluçando, triste... Perguntei:

-Você está triste, Gabriel? - e ele, claro, não respondeu, mas deu umas fungadas.

Chegamos em casa, ele foi se deitar. Mariene perguntou a mim o que houve e eu disse que ele estava meio deprimido. Ela foi perguntando, então, a ele:

-Está doendo alguma coisa? Dói a cabeça? Dói o coração? Dói a perna? Dói o pé?

Ele pôs a mão sobre o peito e perguntou:

-Qué isso aqui?

Mariene, então, respondeu:

-Coração!

E ele soltou essa:

-Meu coração tá doeeenndo... e deu outra soluçada.

Mariene me chamou e eu, olhos marejados, pensei em cantar Carinhoso. Mas ele não aceitou. Então, adaptei a música do Alceu Valença:

-Meu coração tá doendo
dum jeito que não tem jeito,
zabumba bumba esquisito
batendo dentro do peito.


Ele começou a sorrir, pediu para eu cantar de novo. E de novo, e de novo. Até que adormeceu.

Mais shows


Sábado pela manhã, fomos Pedro, Ana (nossa secretária do lar) Ítalo, seu filhinho, e eu ao laboratório de análises clínicas. O menino está com uma alergia horrível nas pernas e resolvemos ajudar.

Já na volta, Leonardo me ligou no celular, dizendo que Mariene estava "lá embaixo" com Gabriel. Cheguei, passei na banca de revistas e Dílson, o rapaz da banca, me disse que tinham subido.

A crise estava instalada. Gabriel tinha se vestido, inclusive se calçado com a sandália Rider, e Mariene desceu desprevenida: sem dinheiro, sem celular, mas... Gabriel queria andar de ônibus. Mariene disse que só dava para ir ver os ônibus no ponto, que fica a três quarteirões de nosso prédio - e foram. Sem ter como pegar um ônibus, Gabriel deu piti. A solução foi voltarem de táxi pra casa, com Gabriel chutando tudo dentro do carro. Mariene precisou pegar dinheiro emprestado com Dílson, para pagar a corrida.

Não satisfeito com a situação, Gabriel jogou várias revistas da banca no chão e se pôs a gritar:

-Espelho! Quebrar espelho! Espelho do carro! - atacando os carros parados na rua. (Espelhos - e janelas - são o alvo preferido de Gabriel quando fica irado.)

Claro que as janelas ficaram com várias pessoas olhando o que estava acontecendo. Mariene ainda conseguiu, a custo, conter o menino e levá-lo para cima. Sobraram-lhe alguns arranhões e muito baixo astral. Foi quando eu cheguei: Gabriel me atacou com cabeçadas na testa: ganhou tapas no bumbum, de volta. Tentou atacar o espelho do meu quarto: foi impedido, com palavras e contenção (belo eufemismo para dizer que ele foi seguro com força). Saiu do quarto e foi para a sala, onde ameaçou arranhar a mãe e a avó: mais broncas e tapas. Pediu o celular e eu disse que NÃO. Daí, comecei a explicar:

-Acalme-se! Nós só vamos sair depois de você parar de gritar! E vamos pro Hiper, que preciso comprar umas coisas pro Pedro!

A cena durou uns 30 minutos, comigo; com Mariene, já se arrastava um tempão - no total, deve ter demorado umas duas horas. Pedro e Leonardo foram a pé pro Hiperbompreço, que fica a duas quadras de nossa casa, enquanto Gabriel e eu fomos de ônibus. Pegamos, então, as compras e, depois de cerca de meia hora, voltamos para casa. É que Pedro tinha marcado um churrasco com os colegas.

A situação meio sob controle, desci para fazer o churrasco, enquanto Mariene ficou com Gabriel, a mãe, Ana e Ítalo. Gabriela e seu namorado - outro Gabriel -, nesse meio tempo, chegaram. Mariene saiu a trabalho (é, assessor parlamentar trabalha de sábado!). Logo, os três Gabriéis desceram. Daí pra frente, a tarde rolou tranqüila. O parquinho onde fica a churrasqueira tem uma casinha , com escorrega e um cabo de aço com uma roldana para escorregar - a grande atração pro Gabrielzinho. E, lá do alto, Gabriel descia. Até que me deu uma trombada, e gostou! Passou a pedir:

-Chega pra lá, Miro!
-Chega pra lá, Gabriela!

Só o cunhado que não era chamado pelo nome: como Gabrielzão é jornalista, e lembra vagamente o Clark Kent, Pedro já andou chamando-o assim. E Gabrielzinho resolveu chamá-lo de Cláudia. A solução foi dizer ao pequeno que o grande se chama Gabrielo. Gabriel adorou o novo nome pro xará e o assumiu na nossa segunda tentativa:

-Chega pra lá, Gabrielo!

Depois, resolveu dar uma aula de Educação Física. De cima da casinha, punha a mão na cabeça e mandava:

-Põe a mão na cabeça! Um! Dois! Três!... Até 10. E recomeçava:
-Põe a mão no joelho! Um! Dois! Três!... Até 20.
-Põe a mão na cintura! Um! Dois! Três!... Até 30.
-Gabriela! Corre!

Hilariante, emocionante, mesmo. Pena que essa parte Mariene não pôde curtir.

No domingo, o dia foi tranqüilo. Tentamos arrumar os documentos para fazer a declaração do I.R., mas Gabriel pediu para ir para a piscina do prédio. Ficamos os dois quase uma hora na água: eu, pulando na água com ele nas costas.
E também imitando, a cada vez que ele pedia:

-Olha o peixe tomando cerveja gritando! - nessa ordem, primeiro. Depois, acertou:
-Olha o peixe gritando tomando cerveja!E eu, sempre:
-AAAAAAAAAAAAAAAAAAA!; fazia barulho de quem está tomando sopa, dava-lhe um beijão na testa e enfiava a cabeça na água para soltar bolhinhas:
-Nã nã nã nã... ou melhor: Glu-glu gluuuu glu!

Mariene ficou sozinha em casa, com os papéis, aproveitando para arrumar os documentos da casa. No começo da noite, fui com Gabriel comprar pão e frutas no Hiperbompreço (de ônibus, de novo) e, na hora de pagar as compras, ele se pôs a gritar, bem alto:

-Pastel! Quero pastel! UÁÁÁÁÁ!

Fui firme:

-depois de pagar as compras.

E ele, numa vozinha gutural, lá do fundo da garganta:

-Nãããão!

Mas não me dobrei: fomos para a lanchonete Sopastéis só depois de cumprir minha promessa. E ele pediu pão com manteiga: dois! Os pastéis que pedi, neca! Sobraram pra mim.

postado por: Argemiro Garcia 14.4.03

Deixe aqui seu recado.
Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br

Sexta-feira, Abril 11, 2003

O blog do Rodrigo, pela Paulinha


A Paulinha, irmã do Rodrigo, está com um blog bem bacaninha sobre o irmão:
http://www.rodrigoaugusto.blogger.com.br.
Dê uma passadinha lá, e deixe um recado para eles!

postado por: Argemiro Garcia 11.4.03

Deixe aqui seu recado.
Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br

Escada rolante



Recebe-se muita coisa pela internet. Para não perder, eu acabo gravando um cd, de vez em quando.

Foi o que fiz com alguns clipes e filmes de propaganda. Gabriel adorou um dos filmes em particular: um rapaz escorrega pelo corrimão de uma escada rolante, esborrachando-se no chão, rolando e se levantando às gargalhadas.

Pois bem. Faltou um pouco de cuidado. Gabriel, nos últimos tempos, vem escapando de mim e se manda para a esteira rolante que liga a garagem subterrânea do Hiperbompreço com o nível de superfície. Já o vi se pendurando para fora da escada - ou achei que fosse isso. Depois que a ficha caiu, percebi que ele vem tentando escorregar, como no filme. Outro dia, foram as ajudantes da baiana do acarajé que o distraíram, enquanto eu o procurava pelo supermercado.

Pode?

postado por: Argemiro Garcia 11.4.03

Deixe aqui seu recado.
Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br

Segunda-feira, Abril 07, 2003

 


Da água para o vinho (e um pouco de leite de soja)



Gabriel muda de estado de espírito tão rápido que é difícil acreditar que esteja mesmo se sentindo daquele jeito. Parece, apenas, "manha". Mas acho que é, mesmo, uma outra característica sua.

Ontem, domingo, Gabriel queria uma fita de vídeo. (Tivemos uma locadora de vídeo que fechamos em 1998. Até hoje, temos algumas centenas de fitas. Ele costuma pegá-las às dúzias, sai botando uma depois da outra no vídeo.) Especificamente, ele queria uma fita do Consórcio Europa - Severiano Ribeiro. Por quê? Porque ele se interessa pelos letreiros, e não pelos filmes.

Começamos a procurar, Mariene e eu, fita por fita, o tal Consórcio Europa-Severiano Ribeiro, que Gabriel pedia aos berros e lágrimas. Achamos várias da Europa-CARAT, mas o que ele pedia estava difícil de achar. Fomos ficando nervosos junto com ele.

A avó, tentando desviar sua atenção, fazia cócegas - o que só piorou seu humor. Então, Gabriel começou a falar consigo mesmo:

-Chega de choro, Gabriel! - e dava socos na cabecinha. Sem chooooro!

Mariene mandou-o lavar o rosto. Ele chegou a avançar sobre a avó, para beliscá-la e arranhar seu braço. A crise estava ficando maior. No entanto, foi só eu achar a tal fita, que era do filme O Outro Lado da Nobreza, que Gabriel se acalmou. Em coisa de um minuto, Gabriel estava sentado no sofá , respirando cada vez menos ofegantemente, e passou ap restar atenção aos letreiros. Como se todo aquele show tivesse sido apenas encenação. Não foi. Mas, para quem olhasse de fora, pareceria.

Mais tarde, saímos os três para o Shopping Iguatemi e, em seguida, ao Hiperbompreço. Gabriel se pôs a pedir sorvete: um Troppo na banca de revista, de que ele só comeu a cobertura; um sorvete de musse de maracujá (muss maracurya) no Fredíssimo e um sundae no McDonald's. Dos dois, só umas colheradas. Entrou nas Lojas Americanas. Pediu: uma coxinha, de que só comeu a casca; uma Fanta laranja, de que só tomou dois goles; um copo de água, que bebeu quase todo; e uma torta de tapioca, que largou quase toda. Bem que tentei controlá-lo, ameaçando não comprar mais nada, mas não estava inspirado para outro show - que seria, dessa vez, em público.

Mariene tinha se afastado para comprar sabonetes, xampus, coisas assim. E Gabriel se picou. Precisei correr atrás dele pela loja, até que a achamos. Até que ele ficou paciente: esperou pagarmos as compras!

No Hiper, desta vez, ficamos nos revezando no acompanhamento. Gabriel voltou a ficar meio fujão, e mesmo eu não estou mais confiando em deixá-lo tão à vontade.
No fim das compras, Gabriel foi à seção de informática, falando:

-Freedom! Freedom!

Não era um protesto contra alguma ditadura paterna... Ele queria comprar um CD do jogo Freedom. Que está esgotado.
Começou nova cantilena. Acho que foi mais de meia hora dele, nervoso, a gritar:

-Freedom! CD do Freedom! Freedom acabou! Cadê Freedom?

Num momento em que me distraí, levei uma cabeçada no peito. Mas no geral, até que ele estava bem pouco agressivo. Mais gritava que batia.

Claro que é muito chato ficar com todo mundo no supermercado olhando pra gente, mas, fazer o quê? Pelo menos, não veio nenhuma boa alma chamá-lo de mimado. Só havia olhares constrangidos voltados para nós. Vários...

A epopéia acabou depois que chegamos em casa. Com o microcomputador principal quebrado, estamos usando o velho Pentium 120. Desinstalei uns programas para dar espaço no disco e tentei instalar o Freedom de um CD riscado. Claro que não deu certo. Mas, nessa hora, ele começou a se interessar por pão com margarina frito na frigideira. E deixando a gente com outra angústia: como vamos tirar o trigo da sua dieta?

Falando nisso, para quem se interessa, aqui vai uma receita de bolo, adaptada por nós - lembre-se de conferir se a margarina não tem leite em pó; talvez seja melhor usar creme vegetal:

Bolo de milho
3 colheres de sopa de margarina (sem leite), 3 xícaras de açúcar, 3 ovos, 2 xícaras de farinha de milho para cuscuz, 1 xícara de amido de milho (Maizena), 1 copo de suco de laranja, fermento em pó químico (tipo Royal).
Misturar o suco de laranja à farinha de milho para cuscuz e reservar. Misturar a margarina ao açúcar. Acrescentar as gemas. Acrescentar a farinha de milho e o amido de milho (Maizena). Acrescentar o fermento. Se quiser, pode-se adicionar uma xícara de chocolate em pó (não pode ser Nescau ou outro tipo feito com leite em pó). Untar a forma com margarina e o amido (Maizena).

E links com várias receitas:
Se você chegou até aqui sem passar pela lista de autismo, um pouco de teoria:

Acredita-se que o glúten (proteína do trigo, aveia, cevada e centeio) e a caseína (proteína do leite animal) ao se transformar em seus peptídeos gluteomorfina e caseomorfina, prejudicam o desempenho dos autistas, cujo organismo não consegue quebrar esses peptídeos em seus aminoácidos. Assim, busca-se substituir esses alimentos (leite, trigo, aveia, cevada e centeio) por outros (soja, e o amido e farinha de: arroz, milho, tapioca, batata, mandioca).

postado por: Argemiro Garcia 7.4.03

Deixe aqui seu recado.
Mas, se quiser se comunicar diretamente comigo, mande-me um e-mail: argemiro@lognet.com.br




arquivo