Canto de Anjo



Eclipse da Lua, 2003.

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Impressões e imprecisões de nossa vida com Gabriel.

Gabriel é nosso caçula. Nasceu em 1993, em Macaé (RJ). No começo de 1996, percebemos que ele, além de não falar (apenas cantava), estava adotando um comportamento aéreo. Não atendia aos nossos chamados. Ficava isolado.

Será que é autista? Foi a primeira pergunta que fiz...

Contribua para melhorar a vida das pessoas autistas do Brasil!

O Dr. Walter Camargos Junior está organizando um vídeo para treinar pediatras na detecção precoce do autismo. Para isso, precisa de material. Quem tiver filmes de crianças pequenas (menos de 3 anos de idade), que foram posteriormente diagnosticadas como autistas, por favor procurem-no.

Dr. Walter Camargos Junior:
Telefone: (31)3261-5976
e-mail: waltercamargos@uaivip.com.br

No orkut, conheça a comunidade Sou fã de Gabriel Maciel

Clique aqui para entrar no grupo autismo
Clique para entrar na
Comunidade Virtual Autismo no Brasil

 

Livro: Vencendo o Autismo - A Menina sem Estrela.
De: Yvonne Meyer Falkas.

Relato da vida de Sheila, filha da autora, e de como a família tem convivido com o autismo. Um testemunho de como foram vencidas etapas com múltiplas adversidades, e suas conquistas. Um apanhado geral sobre o que vem a ser o Autismo, as supostas origens e causas e os preconceitos existentes.

Acessem o link: www.biblioteca24x7.com.br
No lado esquerdo, clique em autismo. Lá se pode comprar ou alugar o livro; alugar virtualmente significa que acesso online para leitura.

Sexta-feira, Julho 18, 2008

E a festa rolou

Lá por meados de maio, Linda, da Secretaria da escola, perguntou a Gabriel quantos anos ele ia fazer, e ele respondeu:

-"Quinze!"

Ela tornou, querendo saber onde ele faria sua festa, e ele:

-"Na Curumin!"

Marcamos a festa para o dia 13 de junho, porque o encerramento do semestre seria no dia 20 e seu aniversário, no dia 23, ficaria de fora. Encomendamos bolo, compramos bolas. Melina, já no começo do ano, perguntara a ele qual seria o tema da festa, e ele escolhera o Homem-Aranha. A sala, então, foi decorada de azul e vermelho.

Alguns colegas participaram da escolha dos presentes: como ele vive com objetos nas mãos, batendo no próprio corpo, ganhou bolinhas de borracha de dois deles. Outros deram jogo de memória, brinquedos que mostravam que o conhecem.

A dança foi animada e Gabriel se empolgou a entrar na roda, embora o barulho o estivesse incomodando um pouco. Importante, para nós, foi ver como ele está integrado entre os colegas.

postado por: Argemiro Garcia 18.7.08

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Segunda-feira, Junho 30, 2008

Compartilhando

Neste último mês, muitas coisas boas têm acontecido com Gabriel. Parece que atingir os 15 anos lhe deu outra dimensão de si mesmo. Tem se mostrado mais irritadiço, também. A adolescência é uma revolução no organismo. Brinco que quase conseguimos vê-lo crescendo, minuto a minuto.

Meus pais diziam que, quando a gente sinha que está caindo, é porque está crescendo. A Medicina, nos últimos tmepos, mediu as taxas de hormônio de crescimento ao longo do dia e constatou que é de noite que a criança cresce. Conicidência, ou aquela tradição veio de algum observador arguto? O fato é que Gabriel, que sempre foi bom "acordador", tem se mostrado um chato para sair da cama - aliás, do sofá pois a sala é mais arejada que o quarto e ele a tem preferido em relação ao seu quarto.

Mas não é disso que queria falar, mas de um momento muito especial na vida de Gabriel - e na nossa, claro - que aconteceu hoje. Mariene me telefonou, emocionada, e assim também eu fiquei, quanso soube.

Ela estava deitada, pela manhã, curtindo a dor na coluna. Gabriel, na sala, navegava pelo youtube. Depois que descobriu o site, navega por horas, procurando assuntos de seu interesse: liquidificador, reforma, Branca de Neve... Pois não é que foi até o quarto e chamou:

-"Mããããeee! Vem pra sala!"

Queria mostrar-lhe o filme que achou no youtube, da reforma de uma igreja.

E daí? bom, e daí que uma das maiores dificuldades que a pessoa autista encontra é compartilhar seus interesses, chamar alguém para mostrar algo. A dificuldade para apontar algo de que gosta é característica do autismo - e Gabriel não só apontou como foi chamá-la!

Um passo emocionante, que não podia deixar de registrar.

postado por: Argemiro Garcia 30.6.08

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Segunda-feira, Junho 23, 2008

Leia também:
Em caso de dengue, dipirona ou paracetamol?


postado por: Argemiro Garcia 23.6.08

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Terça-feira, Maio 20, 2008

Mergulhador

Faz tempo que não escrevo. Falta de tempo, excesso de coisas para contar e a rotina.

Gabriel e Gabriela em frente à faixa: 20 anos de luta por uma sociedade sem manicômios
Gabriela e Gabriel, na luta por uma sociedade sem manicômios. Ao fundo, o Forte de Santa Maria.

Sábado passado, dia 17, foi realizada a I Parada do Orgulho Louco. O Movimento de Luta Antimanicomial de Salvador realizou o evento para marcar os vinte anos de batalhas pelo direito à liberdade para as pessoas consideradas doentes mentais.

Fomos Milena, Silvia, Gabriela, Gabriel e eu representando a AFAGA. Mariene estava na aula de Psicopedagogia. Distribuímos panfletos sobre autismo e acompanhamos a marcha, que seguiu do Porto da Barra até o Farol da Barra, beirando aquele marzão da Bahia. Claro que Gabriel ficou um pouco enfezado - queria mesmo ir para a praia. Mas, entendeu quando determinei que só iríamos cair quando chegássemos ao fim... Esperto, acelerou, quase correu até o farol e emendou a volta, na certeza de que tinha cumprido minha exigência. Insisti:

-"Não! Nós vamos até lá com o pessoal da passeata!"
Gabriel com integrantes do Teatro Bambolê encarapitados em suas pernas-de-pau
Apesar de impaciente, Gabriel aceitou posar ao lado dos pernas de pau do Teatro Bambolê.
Aceitou, e acabou parando na amurada para apreciar as ondas batendo nas pedras. Logo, chegava o trio elétrico que o CRP (Conselho Regional de Psicologia) contratou. Quando o Ilê-aiê começou a tocar, no entanto, Gabriel parou para curtir. Finalmente, com o fim da manifestação, fomos para a praia.

Gabriela e Silvia ficaram com o carro e ficamos, Gabriel e eu, nas areias da terceira praia mais bonita do mundo, segundo Gavin McOwan, do The Guardian. Peguei um banquinho e um guarda-sol e deixei Gabriel se esbaldar nas águas. Só que...

Gabriel veio pedindo um sorvete: parou do lado de um carrinho da Nestlé e conwseguiu arrancar de mim um picolé "Galak". Depois, pediu:

-"Pular!"

Eu, abestalhado, concordei:

-"Vai, vai pular!"

Só que sua idéia não era pular nas ondas. No canto sul da praia fica o histórico Forte de Santa Maria, com um pontal de onde a meninada fica pulando no mar. Fiquei observando-o se dirigir pela areia na direção da construção - tive de correr para alcançá-lo.

Os meninos - na maioria, menores do que ele - pulavam fazendo as piruetas que são presença obrigatória nos comerciais de turismo. Chegamos e Gabriel olhou para mim, apontando com a mão o lugar de onde a molecada voava. Perguntei:

Gabriel, no domingo, saltava mais uma vez para o mar
E não é que ele pulou?
-"É aí que você quer pular?"

-"Pular!!??" - ele concordou, ecolalicamente.

-"Então, pula!" - Seu olhar, ansioso, espichou para a água. Os meninos acompanhavam a nossa conversa. Tentavam estimular:

-"Pula em pé!"

Resolvi ajudar. Como há duas escadas que vão da água até a ponte - dá uns dois metros e meio de altura -, mandei que descesse dois degraus e o ajudei a pular, segurando-lhe a mão. Da segunda vez, subiu um degrau; da terceira, já ousava pular do ponto mais alto. Um ferroviário aposentado de Juiz de Fora matava algumas horas de sua visita à irmã pescando umas "piabinhas" (como se no mar houvesse piabas...), com algumas crianças circulando à sua volta e apontando para os peixinhos que lambiam o anzol.

Chegaram rapazes com a cara enfezada dos adolescentes que cresceram na rua, contando vantagens e caprichando nas acrobacias. Deixei meus óculos com um deles e também mergulhei. De certa forma, fizemos parte da turma, pelo menos naqueles momentos. Quando apontei para os garotos uma tartaruga que nadava sossegada entre nós e a praia, eles apenas comentaram que ela está sempre aí e que há uma ainda maior do outro lado.

Ficamos por lá por bem mais de uma hora, até que telefonei de um orelhão para Gabriela nos "resgatar" - contra a vontade dele, mas com minha promessa de que, no dia seguinte, domingo, estaríamos de volta, com Mariene - e assim fizemos, embora estivesse chovendo. Para quem nasceu e cresceu em São Paulo, como eu, o frio de Salvador faz suar; só fiquei preocupado em encontrarmos o mar muito batido, mas o Porto da Barra é protegido e a água apenas subia e descia. Assim, Gabriel pôde mostrar seus dotes "mergulhísticos" para a mãe.

A tartaruga do dia anterior continuava pondo a cabeça para fora, como se nos espiasse, e Mariene a apelidou de Maricota. Pois não é que Gabriel passou a perguntar:

-"Cadê Maricota?"

Mas o vento incomodava e ficava difícil subir de volta, por causa das ondas. Gabriel deu apenas uns cinco mergulhos e sossegou. Quando escureceu, voltamos pra casa com a promessa de novos passeios por aquelas bandas.

postado por: Argemiro Garcia 20.5.08

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Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

Carnaval

Gabriel estava eufórico, na bagunça da Mudança do Garcia. (Duplo clique para abrir uma janela do youtube.)
A vida é feita de eventos cíclicos e eventuais. Dias se seguem às noites, a lua tem fases, as marés têm ciclos, as ondas do mar batem regularmente, há as estações do ano, as datas comemorativas se repetem, e, por isso, são facilmente previsíveis. Já uma batida de carro, uma chuva, ou uma doença, por exemplo, são de difícil previsibilidade. Para quem tem insegurança frente a mudanças, entender essa caracterísica da existência é importante para se organizar. Daí a importância de comemorar essas datas, participar delas regularmente. Aniversáros, por exemplo, são altamente estruturantes das emoções e da percepção de si mesmo. Pelo menos, é assim que Mariene e eu vemos essa questão.

Carnaval e São João, na Bahia, são marcos da passagem do tempo. Gabriel já construiu sua rotina momesca: vamos ao Pelourinho, para subir no palco armado em pleno Largo do Cruzeiro, no domingo. Na segunda-feira, andar a cavalo na Mudança do Garcia. Na terça, ir à casa de Zoraide, para ver as barracas que vendem batidas e sucos de fruta na rua e pareciar, de longe, os trios elétricos dos blocos e seus artistas.

Domingo, então, cumprindo nossa tradição, estávamos no Cruzeiro, em frente à Igreja de São Francisco. Paramos o carro no estacionamento do Pelô e Gabriel disparou ladeira acima, comigo em seus calcanhares. Ele correu para a sorveteria Le Glacier La Porte e nos perdemos de Mariene e Silvia, que nos acompanhava. Quando nos encontraram, tomamos sorvete e saímos para o carnaval. Era tarde, o Pelourinho estava esvaziado, com poucos foliões e muitos artistas se apresentando. Um grupo de frevo e algumas bandas se apresentaram. Gabriel acabou por subir ao palco na hora em que uma das palhaças chamou as crianças, mesmo com a cara feia de um dos jovens que faziam a segurança. A justificativa de sua reclamação era esdrúxula: o palco poderia não agüentar as crianças, embora tivesse adultos frevando e dançando. Vai entender!

Ansioso, Gabriel procurava os cavalos.
Gabriel, ansioso, olhava ao longe, tentando enxergar os cavalos.
Em seguida, uma banda se apresentou e nosso menino permaneceu no palco. O maestro reclamou com Gabriel, e conversei com um dos organizadores presentes, explicando a nossa situação. Ele conversou com o maestro, que se desculpou, e Gabriel acabou a noite encarapitado ao lado dos músicos.

Como as férias viraram nossa rotina do avesso, nosso pimpolho passou a dormir de dia, acordando tarde - lá pelas duas horas! Assim, acabou por pegar no sono às 7 da amanhã - cadê que acordou para irmos cedo à Mudança do Garcia? Quando deram duas da tarde, lá me aparecia ele na sala. Uma consulta à internet mostrou que o corso começaria às três. Achamos que daria tempo. De fato, chegamos à Avenida Leovigildo Filgueiras com os primeiros foliões passando. Como já expliquei em carnavais passados, a Mudança é um corso anárquico em que todos vão como bem entendem, desfilam o que querem e protestam contra tudo e todos. Vão cavalos, mini-trios, carroças, sindicatos, associações, foliões perdidos de seus blocos, travestidos, políticos de esquerda (ue, no passado, eram da oposição e, hoje, da situação). Encontramos Pelegrino:

- Nélson, os cavalos já passaram?

- Não, não...

Gabriel correu para a Delicatessen do Garcia. Quando passaram as carroças, saímos para a rua. Ele ansiava pelos cavalos e tentava olhar por cima do povo, pulando, feliz.

Mas o tempo foi passando e nada de cavalos. Os foliões rareavam. Carros entravam na avenida, buzinando e pedindo passagem. Acabava a zoada. Triste, Gabriel olhava para o começo da rua. Nada!

Fomos convidados pelo Zé das Virgens para uma feijoada em um prédio ali perto. Gabriel, conformado, aceitou e entramos no salão de festas. Quando já comíamos, Gabriel olhou nos meus olhos, sem uma palavra, e tornou a fitar a rua: cavalos desciam a ladeira, já voltando do desfile! Foi tudo tão rápido que Mariene bronqueou comigo, pensando que tinha sido eu quem lhe mostrara os bichos.

Na rua de Zoraide, Gabriel tomava um suco feito pela amiga de outros carnavais.
Gabriel tomava um suco.
Corri com ele para a rua, a tempo apenas de vê-los sumir lá embaixo. Mariene insistiu e descemos a rua, perseguindo os cavaleiros até o largo onde tudo começa, a cada segunda-feira de carnaval. No caminho, Gabriel já gritava, irritado, frustrado. Os rapazes, nos reconhecendo, perguntavam porque não tínhamos participado. Esplicávamos que nos atrasamos. Acabamos conseguindo que nosso moleque cavalgasse um pouco, dando umas três voltas entre duas esquinas, mas tão irritado, gritando tanto que o cavalo escoiceou; mesmo assim, ele nem se incomodou.

Mesmo assim, valeu a lição, para ele e para nós. Ano que vem, ele terá de acordar cedo.

Na terça-feira, fomos levar Gabriela a sua casa, na Barra. Avisamos Gabriel mal avisado - ele esperava ir para a casa de Zoraide. Pedro fôra para Ondina e Leo nos acompanhou. Sem reconhecer o caminho alternativo, mais uma vez Gabriel se irritou e, quando enfim estacionamos na rua da irmã, ele já berrava:

- EU QUÉÉÉÉÉROOOO IR PRA RUA!!!!

Alguém, do alto de uma janela, só pra piorar, gritava, mandando-nos calar a boca. Os guardadores de carros ficaram revoltados com o noso agressor, mas decidimos voltar para casa: Leo preferiu ficar e nós acabamos por voltar ao circuito. Dessa vez, Gabriel entendeu e aceitou a situação. Acabamos estacionando umm pouco mais perto da farra e chamamos Gabriela. Na rua de Zoraide, os barraqueiros nos reconheceram e nosso filhote ficou circulando de barraca em barraca, olhando os liquidificadores a fazer batidas e sucos. Um deles, com o reggae no máximo, ainda comentou:

- Eu conheço ele desde pequenininho - mostrando com a mão a altura.

Nosso carnaval terminou assim, com Gabriel curtindo os liquidificadores e a folia.

postado por: Argemiro Garcia 20.2.08

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Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008

Trocadilho

Ontem, dia 3, domingo, fui fritar umas iscas de carne, enquanto Mariene arrumava algumas coisas. (Melina está de férias).

Gabriel veio até o fogão, olhou para a chapa onde as carnes eram preparadas, apontou e se saiu com essa:

-Não é pop corn! É pop carne!

Depois, abriu um sorrisão. Sabia que fazia uma piada. Ri e tentei explicar:

-Você sabe o que é pop corn?

-É pop carne! respondeu, rindo.

Ri, também, e falei:

-Pop corn é pipoca em inglês!

postado por: Argemiro Garcia 4.2.08

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Uma questão de atendimento

Somos clientes da VIVO há uns bons anos. Temos plano Família. Daí que, com os celulares quebrados, fomos verificar se teríamos pontos para pegar novos aparelhos.

Domingo, 27 de janeiro, fomos ao Shopping Iguatemi. Enquanto eu acompanhava Gabriel na Livraria Civilização Brasileira, Mariene foi à loja By Phone, onde Gabriel é cliente preferencial. Lá, nos sugeriram ir direto à loja da própria VIVO, para podermos pegar os dois aparelhos relativos aos nossos pontos. Mas... faltavam vinte minuntos para o shopping fechar e o sistema ficaria bloqueado: Volte amanhã!

Segunda, 28 de janeiro. Lá fomos nós, tentar pegar os aparelhos. O siswtema estava fora-do-ar para cdlientes antigos. Só a inscrição de clientes novos estava liberada. Mariene resolveru voltar para casa; Gabriel e eu ficamos zanzando. Primeiro, ele quis água da delicatessen Perini. Depois, pediu cozinha - e fomos procurar um lugar. Como não havia, aproveitei para ensinar-lhe. Ele parou em frente a uma mesa one dois rapazes faziam seu lanchinho. Expliquei:

-Gabriel, peça: Posso sentar aqui, por favor? Os moços pararam para nos olhar e Gabriel repetiu:

-Por favor!...

-Não, diga: Posso sentar aqui? - dessa vez, repetiu:

-Posso sentar aqui?

-Pode, claro! - eles pareceram se divertir com a situação inusitada. Expliquei:

-Gabriel é autista, ele tem dificuldade para conversar, precisa aprender.

conversamos um pouco, eles fizeram algumas pergunntas a Gabriel. Expliquei a melhor forma de se comunicar com ele e dei o endereço aqui do Canto de anjo.

Gabriel pediu, então, para entrar loja da TIM. Eram mais ou menos oito horas. Quando deu oito e quarenta, insisti para sairmos da loja e voltarmos à Vivo. Nessa hora e tanto que lá ficamos, ele já tinha perguntado os nomes dos dois atendentes - Vítor e Patrícia - já tinha soletrado várias palavras e recitado muitas frases da Família Dinossauro e de Procurando Nemo, alguuns de seus mantras. O sistema continuava fora-do-ar! Fomos ao Hiperbompreço, ele se sentou em uma cadeira-de-rodas e passou o tempo todo reclamando:

-TIM! Quero ir pra TIM! TIM!

Terça, 29, hora do almoço: adivinha? Fora-do-ar!! Sete e meia, volto com Gabriel ao shopping, para a loja da TIM. Vítor e Patrícia riram ao nos ver chegar.

Às nove horas da noite, peço, baixinho, a ele:

-Gabriel, vamos sair? Ele correu para fora e eu o alcancei e expliquei:

-Vamos na loja da VIVO? ele topou. Entrei perguntando:

-O sistema está no ar? Estava! Tornei:

-Dá para você me atender?

-O senhor tem de pegar uma ficha. Fui até perto da mocinha que distribuía as fichas. Perguntei a outra funcionária:

-Meu filho é autista... Quem é a gerente?

-Sou eu. Perguntei seu nome: Cíntia. Expliquei a situação, que ele estava calmo, mas poderia ficar nervoso a qualquer momento, e ela fez um gesto vago:

-O senhor pode ir até o ponto 11!

Perguntei no balcão qual era o tal Ponto 11 - ou algo parecido - e o mesmo rapaz que me dissera para pegar a ficha me olhou com cara de paisagem. (Ou seja, tou nem aí), sentado atrás de uma plaquinha onde se lia 11. Irritado, levantei a voz:

-Alguém pode me atender nesta M...? Estou esperando desde domingo e esse sistema está sempre fora-do-ar. Meu filho é autista e pode ficar nervoso... Gabriel aproveitou a deixa:

-EU QUÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉROOOOO IR PRA TIM!!!!!! Um senhor também gritou:

-Eu estou na mesma situação que o senhor! Perguntei:

-O senhor também tem um filho autista? Não, não tinha. Só esperava desde domingo... um rapaz veio de trás de outro balcão, atravessando a loja:

-O senhor pode vir comigo que eu o atendo.

Fui atendido em menos de vinte minutos. Ao longo de todo o tempo, Gabriel gritava:

-EU QUÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉROOOOO IR PRA TIM!!!!!!

Uma moça veio:

-Você quer um copo de água?

-EU QUÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉROOOOO IR PRA TIM!!!!!! Ela insistiu:

-Quer um docinho?

-EU QUÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉROOOOO IR PRA TIM!!!!!! então, ela me perguntou:

-Tem alguma coisa que eu possa fazer por ele?

-Você pode levá-lo para a loja da TIM... Ela desistiu.

Guilherme, nosso atendente, se esforçava para ser rápido, enquanto Gabriel, no meio da loja, se esgoelava:

-EU QUÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉROOOOO IR PRA TIM!!!!!! Eu tentava acalmá-lo, explicando que, quando acabássemos ali, iríamos para a TIM, e ele:

-EU QUÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉROOOOO IR PRA TIM!!!!!!

A gerente se escondera em sua sala. Quando passei em frente à sua porta, para pegar a nota fiscal no caixa, aproveitei para lhe dizer:

-Isso é pra você aprender que cliente não se trata como funcionário.

Guilherme nos dispensou e Gabriel levou mais uns cinco minutos entoando seus mantras, já na loja da Tim:

-Vem aí a família mais divertida que apareceu nos últimos sessenta milhões de anos! Não é a mamãe, não é a mamãe! Querida, cheguei! e se acalmou. Quem o visse não diria o que tinha aprontado minutos antes.

Fica a dúvida: não cedi. Fiz o que tinha que fazer. Mas, para ele, terei cedido? Teriam sido seus gritos a causa de voltarmos à TIM? Como ele estará interpretando situações assim, ao longo desse tempo todo?

postado por: Argemiro Garcia 4.2.08

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